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"Continuo sem saber se é uma sutura mal feita ou se levei o ponto do marido"

"Continuo sem saber se é uma sutura mal feita ou se levei o ponto do marido"

Dreamstime Maria Moreira Rato 18/01/2021 08:35

No período compreendido entre 2015 e 2019, três em cada dez mulheres portuguesas sentiram que foram vítimas de abuso, desrespeito e discriminação aquando da realização do seu parto. As intervenções não consentidas foram indicadas como a forma mais recorrente de violência obstétrica.

Tinha a certeza de que se depararia com problemas quando fosse mãe. Afinal, havia feito uma conização do colo do útero – uma pequena cirurgia na qual um pedaço do colo do útero, em forma de cone, é retirado para ser avaliado laboratorialmente – e, com a criação de fibroses, “a mulher tem de passar a gravidez sempre deitada porque, se tal não acontecer, não se entra em trabalho de parto”. No entanto, Madalena (nome fictício) não esperava viver tamanho pesadelo.

“Fui seguida no privado e, aos cinco meses de gestação, na ecografia morfológica, a minha obstetra percebeu que a menina padecia de um problema no coração” e teria de nascer obrigatoriamente no Hospital de São João ou no de Santa Maria, porque somente nestas instituições existiam equipas prontas para lidar com patologias cardíacas em recém-nascidos. “A minha médica teve muita pena de não poder fazer o meu parto, mas disse-me de imediato que ia ter um parto muito complicado porque a menina não tinha descido, estava atravessada”, explicou a mulher de 38 anos.

“Estive em trabalho de parto desde as 9h de uma segunda-feira. Da parte da tarde, a médica abriu-me o colo do útero com dois dedos e disse que era a pior coisa que se podia fazer a uma mulher. Mas fez”, adiantou a mãe de uma menina de cinco anos. “Entrei em trabalho de parto à noite. Tinha uma aplicação, instalada no telemóvel, através da qual contava as contrações e, por volta da uma da manhã, aconteciam de minuto a minuto. Comecei a pedir morfina”, recordou com amargura, não deixando de realçar o “fio muito fininho, que parecia uma abraçadeira de plástico”, com o qual uma enfermeira lhe tentava abrir o colo do útero.

O que se passa em Portugal? “O Euro-Peristat (European Perinatal Health Report, 2013), que é um inquérito internacional que procura reunir evidência científica sobre o nascimento numa base comparada entre diversos países europeus, coloca Portugal entre o conjunto de países com as mais elevadas taxas de cesariana, episiotomia e indução do trabalho de parto, entre outras intervenções”, começou por evidenciar Dulce Morgado Neves, investigadora e cocoordenadora do Laboratório de Estudos Sociais sobre Nascimento do CIES-ISCTE.

A doutorada em Sociologia realçou que dados mais recentes, resultantes do inquérito, conduzido pela Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto (APDMGP), sobre experiências de parto em Portugal, para o período de 2015-2019, “vêm também confirmar a elevada incidência de intervenções durante o trabalho de parto e o parto no nosso país”.

É de salientar que, das 7555 experiências de parto que constituíram a amostra, 69% foram partos vaginais e 31% cesarianas. Por seu lado, a realização de episiotomia foi reportada por 40% das inquiridas que tiveram um parto vaginal, o que (embora esteja abaixo dos cerca de 70% já reportados em dados oficiais em anos anteriores) “continua a ser um valor bastante elevado se pensarmos que, noutros países europeus, esta taxa não vai além dos 5%”, explicou.

Na ótica de Morgado Neves, “Portugal é tido como caso exemplar em diversas coisas, nomeadamente em termos do acesso a tratamentos especializados, mas também é verdade que temos das mais altas taxas de intervenção no parto da Europa, o que, no consenso científico, reflete um baixo nível de qualidade na assistência obstétrica”.

Através deste inquérito, concluiu-se que três em cada dez mulheres afirmaram ter sido vítimas de abuso, desrespeito e discriminação, sendo as intervenções não consentidas as apontadas como a forma mais recorrente dessa violência estudada. Mais de metade da amostra tem entre 30 e 39 anos, seguida da faixa etária dos 20 aos 29 anos. As principais conclusões do inquérito passam pela ideia de que “quanto maior é o sentimento de controlo das mulheres sobre a sua experiência de parto, maior a satisfação vivenciada”.

setor público versus setor privado Pelas 4h, a médica que havia visto Madalena anteriormente explicou-lhe que aquela estava a ser “uma noite complicada” e que devia esperar pela chegada do anestesista, que iniciaria o turno dali a quatro horas. Assim, aguentou as dores até às 8h30 e foi-lhe administrada a epidural.

“A miúda perdia os batimentos cardíacos e tentavam ver aquilo que se passava. A dada altura, uma enfermeira disse que tinha de estar virada para o lado esquerdo porque os batimentos da menina só se mantinham estáveis quando estava do lado direito” e, assim, Madalena esforçou-se novamente por suportar o sofrimento. “Andavam lá com as mãos a tentar rodar a minha filha. No fim, faziam-no de dez em dez minutos. A dada altura, uma médica deu-me uma injeção e dilatei o resto. Fui para o bloco de partos e chamaram uma enfermeira parteira, que disse: ‘Não faço este parto porque ela está toda cortada’”, narrou Madalena entre lágrimas.

Consequentemente, a médica-chefe que a examinou pediu que se colocasse “direita”. Todavia, a enfermeira que estava a acompanhá-la entendeu que a bebé estava em sofrimento e a opção a tomar seria a realização de uma cesariana. A equipa pegou em Madalena ao colo, passou-a para uma maca e dirigiram-se para o bloco operatório. Sem forças, pelo caminho, Madalena era despida por uns e vestida com uma bata por outros. “Eu só tremia, cheia de frio”, salientou, tendo ouvido uma médica informar os restantes profissionais de saúde que a bebé tinha de nascer o mais rapidamente possível. E nasceu mas, tendo o cordão umbilical em redor do pescoço, engoliu o mecónio, isto é, as primeiras fezes eliminadas por um recém-nascido.

“Teve de ser aspirada, reanimada, e levada de imediato para a neonatologia”, avançou a mãe, acrescentando que foi cosida e que este constituiu outro episódio de terror. “Quando tinha 15 anos fui operada à coluna e fiz alergia à linha absorvente. Por isso, a minha obstetra disse que as minhas eventuais suturas teriam de ser fechadas com agrafos. No entanto, a médica do São João ignorou por completo essa recomendação e coseu-me”, disse, assegurando que o parto teria sido “bastante diferente” no setor privado.

Não podendo estar permanentemente na neonatologia, visitava a filha entre as 9h e as 18h, no decorrer do horário permitido. No entanto, antes de uma visita, verificou que tinha a “barriga cheia de sangue” e, já no hospital, soube que tinha feito uma alergia aos pontos. “O médico espremeu aquilo que era possível, mas uma parte ficou aberta e tive de fazer curativos. Cicatrizou, mas há uma parte que tem uma espécie de dobra bastante feia de que não gosto”, tendo aceitado o seu corpo após sessões de fisioterapia e de massagens.

A filha de Madalena foi para casa com 16 dias de vida e entrou em insuficiência cardíaca, tendo sido operada aos oito meses, quando pesava oito quilos, estando “otimamente” hoje em dia. Porém, Madalena sofreu uma despersonalização – transtorno psiquiátrico caracterizado por experiências de sentimentos de irrealidade, de rutura com a personalidade, processos amnésicos e apatia – e teve de tomar Escitalopram e Elontril até ao verão passado.

“Agora tenho consultas de psicoterapia. Estou desempregada, mas trabalhei sempre em assistência de direção. Eu não gostava de ter mais filhos, gostava que a minha filha tivesse um irmão – são coisas diferentes”, finalizou a mulher, que teme engravidar novamente na medida em que existem 10% de probabilidades de essa criança ter a mesma patologia que a irmã. “A minha filha precisa da mãe e eu não quero passar a vida num hospital e deixá-la sem atenção”, argumentou.

A luta pela erradicação das práticas obstétricas abusivas Em setembro do ano passado, o PAN apresentou um projeto de resolução almejando que práticas abusivas como a manobra de Kristeller, a episiotomia de rotina ou outras identificadas sejam eliminadas em Portugal. Uma das autoras do mesmo é a deputada Bebiana Cunha, defensora da existência de um estudo nacional para que as práticas anteriormente referidas sejam eliminadas.

“Este contexto sanitário veio relegar tudo em matéria em saúde para segundo plano. Conseguimos fazer aprovar uma recomendação sobre o acompanhamento das grávidas mas, apesar de sabermos que o Ministério da Saúde deu seguimento ao mesmo, continuamos a receber informação contrária”, argumentou, justificando que “os contextos de saúde estão muito pressionados por tudo aquilo que vivemos, porém, há aspetos que não podem ser esquecidos” e a violência obstétrica é um deles.

“Estamos a tentar perceber qual será o timing certo para o devido agendamento da discussão e, quando entendermos que estão reunidas as condições, no Parlamento, para que os partidos entendam a importância deste tema, daremos o passo em frente”, garantiu a antiga psicóloga.

“Estamos a falar de situações que deixam marcas não só no processo do parto, mas também no pós-parto”, disse, recordando que existe a outra face da moeda. “Sabemos também que há boas práticas e são aquelas que devem ser seguidas, e acreditamos no nosso Serviço Nacional de Saúde, nos profissionais e na capacidade de mudança daquilo que está a funcionar menos bem”, pois a prova de um panorama relativamente positivo é o facto de, no estudo da APDMGP, “70% das mulheres relatam que tudo terá corrido bem e não terão sido vítimas de violência obstétrica. Ou seja, temos esperança de que conseguiremos caminhar no sentido oposto. Esta diferença percentual pode indicar que as coisas estão de alguma forma a mudar, porque os fenómenos de violência são muitas vezes inconscientes”. “É preciso debater estes temas, torná-los públicos, para haver uma outra consciência sobre determinadas expressões e determinados comportamentos que configuram comportamentos abusivos e violentos, mas para os quais nem todos os profissionais de saúde estão consciencializados”.

O ponto do marido “Posso dizer que tive um parto natural, sem epidural, mas, apesar de não me terem informado, tenho quase a certeza de que levei o ‘tal’ ponto do marido”, disse Alice (nome fictício), de 32 anos, residente em Castro Verde, no concelho de Beja, e cujo parto decorreu a 28 de janeiro de 2020.

Apesar de, à época, não conhecer os contornos do procedimento cirúrgico que é levado a cabo durante a episiotomia, quando um profissional de saúde considera que devem ser feitas mais suturas do que as necessárias para reparar o períneo de uma mulher depois de ter sido rompido ou cortado durante o parto e, assim, apertar a vagina, alegadamente aumentando o prazer sexual masculino durante a penetração sexual, a jovem ainda hoje não está descansada.

“Sempre fui uma pessoa bastante descontraída e, enquanto estive grávida, tentei não pesquisar muito para não criar macaquinhos na cabeça. Mas sabia muito bem que queria, acima de tudo, um parto humanizado. Não pretendia levar epidural nem qualquer tipo de indutor porque ambicionava respeitar o tempo do bebé”, esclareceu Alice, adiantando que foi internada por apresentar pré-eclâmpsia – hipertensão arterial – e seis dedos de dilatação.

“Fui uma sortuda porque a minha filha nasceu no espaço de 20 minutos desde a primeira contração. Mas a minha exigência de não ser cosida não foi respeita. Não me foi pedida autorização sequer” e, uma semana após ter saído do hospital, sentia dores insuportáveis. “Não conseguia andar ou sentar-me. Tudo era um desconforto. Tive uma consulta com a minha médica de família e ela verificou que existiam pontos que tinham de ser vistos por um especialista. No hospital cortaram-me três deles” e, volvido um mês, tentou ter relações sexuais, pela primeira vez, com o marido.

“Não deu. Parecia que tudo dentro de mim estava a ser esquartejado. Marquei consulta com a minha ginecologista e ela disse-me que estava tudo bem, que as paredes vaginais tinham sarado, assim como os pontos”. Insatisfeita com a resposta, decidiu conversar com algumas amigas. “Disseram-me que era normal e que era como se voltasse a ser virgem. Apenas teria de fazer mais sexo para ‘me habituar’”. Porém, 12 meses depois do parto, Alice continua incapaz de manter uma vida sexual ativa.

“Contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que nos envolvemos sexualmente. Sinto que toda a minha pele é repuxada e o meu marido assume que sente algo dentro de mim, como se fosse um ponto”, desabafou, acrescentando que marcou, três vezes, consulta de ginecologia através do Serviço Nacional de Saúde, mas as mesmas foram desmarcadas por serem de rotina.

“Quando falo com médicos ou familiares e amigos, dizem-me que tenho de me tranquilizar, que a libido pode reduzir-se no pós-parto. Tento encontrar soluções práticas para esta questão, mas continuo sem saber se esta é uma sutura mal feita ou se efetivamente levei o ponto do marido”, concluiu.

Entre o mito e a realidade Ainda que o PAN tenha apelado ao Executivo para que realize um estudo nacional anónimo sobre a prática do denominado ponto do marido, Nuno Clode, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, afirmou que, sendo médico há mais de 30 anos, nunca viu fazer o mesmo nem ouviu falar deste procedimento. “Se isso é feito, deve ser por gente pouco esclarecida. Depois de um parto vaginal, se o períneo fica muito rasgado, pode haver uma ou outra mulher que tenha problemas nas rasgaduras e precise de intervenção”, mas “há muita coisa nos dias de hoje, na pratica obstétrica, que proscreve coisas que fazíamos no passado”.

Na ótica do ex-diretor do serviço de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e que agora exerce na CUF de Torres Vedras, “não faz sentido que haja legislação neste sentido, porque tudo faz parte das leges artis dos médicos, dos enfermeiros e dos especialistas”, havendo “um esforço das pessoas para estarem de acordo, falarem com as grávidas e explicarem-lhes todas as manobras que se vão fazendo”. Assim, para Clode, “as episiotomias são para ser feitas como sempre se fizeram, pois uma coisa é fazer em todas as senhoras, outra é em quem está em risco de rutura”, tal como “uma coisa é fazer cesarianas em todas as pessoas, outra é selecionar em quem é mais seguro fazer isto do que o parto vaginal”.

Deste modo, para o especialista em ginecologia-obstetrícia, “tudo tem de ser discutido, tem de haver comunicação”, até porque “existem manobras aflitivas que têm de ser feitas mas que para a grávida ou para o acompanhante se assemelham a uma violência gigantesca”.

Se antigamente “podia haver um certo paternalismo em relação às grávidas, a atitude de ‘o médico é que sabe’, quase de sobranceria”, atualmente é possível considerar-se que “o salto em termos de humanização e de qualidade, em obstetrícia, foi enorme”, ainda que Clode admita que “haverá sempre um ou outro caso em que a coisa não corre bem”.

“Acho que não há mulher nenhuma que não idealize o seu parto. Nenhuma vai completamente descontraída. Varia muito de pessoa para pessoa. Há partos fáceis, outros difíceis. Se isto fosse como na pré-história, as taxas de mortalidade materna e fetal seriam altíssimas, e não baixas”, afirma o médico, acrescentando que a sociedade que preside defende “o diálogo, uma explicação das atitudes que existem”, e “se for necessária uma atitude de emergência, a mesma deve ser explicada à grávida e ao acompanhante”, pois “os médicos devem ser sempre o mais claros possível”.

“Parir continua a ser algo de profundamente biológico. Antes, desejava-se que o parto fosse uma hora pequena porque, por vezes, é uma hora gigantesca”, rematou.

 

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