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Maria do Céu Cunha. "A fome não tem terra nem cor. Onde é preciso, estou lá para ajudar"

Maria do Céu Cunha. "A fome não tem terra nem cor. Onde é preciso, estou lá para ajudar"

Bruno Gonçalves Maria Moreira Rato 16/12/2020 15:38

Aos 52 anos, a Tia Céu – fundadora da associação Sol Fraterno – mantém a solidariedade viva, em tempos de pandemia, num armazém em Oeiras.

Maria do Céu Cunha, carinhosamente apelidada de Tia Céu, criou a Sol Fraterno – Associação de Solidariedade Social de Oeiras há 12 anos. Com o objetivo de ajudar as famílias carenciadas do concelho na resolução de problemas sociais a variados níveis – como o alimentar, de vestuário e até de mobiliário –, repete com convicção que é a fé na Igreja Católica que a move. Após 11 anos sediada num corredor do Estádio Municipal Mário Wilson, a Sol Fraterno mudou-se para um armazém em Carnaxide, em janeiro do ano passado. Depois de ter lutado contra dois cancros – da mama e do ovário –, sente que está a ser progressivamente debilitada por uma doença óssea. No entanto, aos 52 anos, não perde a força de vontade e o espírito empreendedor, esperando entregar, antes do Natal, 500 cabazes a famílias necessitadas.

 

Nasceu em Angola. Quando e como veio para Portugal?

Cheguei em 11 de novembro de 1975, com sete anos. Viajei num Barriga de Ginguba [Nord 2501 Noratlas, mais conhecido por Noratlas, avião de transporte militar de construção francesa. Existiam cerca de 400 exemplares, dos quais alguns destinados ao transporte comercial de passageiros]. Ficámos a dormir no aeroporto durante três meses, em colchonetes, e comíamos ração de combate das tropas. Comecei a trabalhar com 11 anos, a apanhar alfarroba e laranjas.

Foram essas as adversidades que a fizeram despertar para a solidariedade social?

Não só, mas também. Não conheci o meu pai porque ele morreu com tuberculose. Sou a primeira filha, depois nasceram os meus cinco irmãos. Infelizmente, um faleceu há 18 anos num acidente de viação em Tires. Nunca consegui sonhar com o meu irmão, por vezes até me pergunto se ele existiu. É uma dor que me atravessa o coração, persegue-me. Ele morreu com 28 anos. Amo todos os meus irmãos, mas este era a minha alma gémea. Ia buscar-me ao Cais do Sodré, quando eu já era adulta e mãe, e refilava comigo por ter ido sair com as minhas amigas. Deixou um bebé de seis meses, que é a minha sobrinha-filha, e um filho com nove anos que já é pai. Nunca consegui celebrar o aniversário da minha sobrinha. Dói muito. O meu marido morreu, faz dia 31 de dezembro, 11 anos – tinha 41. A partir dessa data, os meus filhos não ficaram bem. A minha filha de 29 anos está fragilizada, tenho uma filha de 28 anos que vive em Londres, o meu filho de 26 anos é “especial” – nasceu prematuro, ficou três meses na incubadora e, quando o trouxe para casa, a cabeça começou a inchar muito, não fixava nenhum objeto com o olhar, e foi-lhe diagnosticada hidrocefalia grave ativa. Fez sete cirurgias e tem 68% de incapacidade intelectual. E a minha filha mais nova, de 22 anos, tem um menino de cinco, o Luís Miguel. Ele chega aqui à associação e diz “avó, chegou o dono disto tudo”. É a minha loucura. Tive quatro filhos, perdi seis – um com nove meses de gravidez, hoje teria 31 anos – e tenho dois sobrinhos-filhos. Criei todos com a ajuda da minha mãe.

Transporta a resiliência que tem na sua vida pessoal para a chefia da associação?

Comecei há 12 anos, fazia este trabalho a partir de casa. Trabalhava na Câmara Municipal de Oeiras e, lá, sobra sempre comida. Eu estava na cozinha e levava os meus tupperwares para levar a comida aos “meus velhotes”. Vivia nas barracas do Vale do Jamor. Pedia fruta às minhas colegas, dizia-lhes “dá lá isso, não precisas, és jovem, preciso disso para os meus velhotes”. Quando a câmara contratou uma empresa, os funcionários não queriam dar-me a comida. Liguei ao Isaltino Morais, presidente da câmara, e perguntei: “Pai, já pagou a comida e não me deixam levá-la?” Ele foi lá e disse: “Aquilo que sobra é para a Céu entregar às famílias”. Ele é muito humano.

E a sua ação social, chamemos-lhe assim, limitava-se a essa vertente ou também desenvolvia outras tarefas?

Vim de um país de guerra, em que morreu muita gente, há muita fome. Angola tem recursos, mas ainda mais corrupção. Cresci na catequese, fui batizada, fiz a primeira comunhão, a comunhão solene, o crisma e fui catequista no Algarve e em Lisboa. Portanto, mesmo antes de ter fundado a Sol Fraterno, a minha casa era uma espécie de igreja. Os meus filhos barafustavam, dizendo: “Uma pessoa não pode estar sossegada!” Se me pediam lençóis, ia buscá-los; se me pediam panelas, ia buscar. Quando nos mudámos para Carnaxide, a minha filha mais velha disse: “Esta é a casa dos pobres, a porta está sempre aberta”. E eu ri-me.

Que impacto tem tido uma vida de sofrimento no seu quotidiano?

Tenho uma doença de ossos, nem sei dizer o nome, é muito complicado. Tenho medo de deixar de andar. O esforço psicológico deita-me abaixo, mas tenho os meus altares, onde peço apoio. Já prometi que, quando tiver a loja toda arrumada, vou largar o tabaco. Quem trabalha nesta vida de ajudar o próximo tem de se doar. Por exemplo, há uma família na Margem Sul que tem dois idosos com demência. E o amor que a rapariga tem pelos sogros é impressionante. Disse-me: “Tia Céu, quando me casei com o meu marido, casei-me com os meus sogros. São meus. Sinto-me na obrigação de fazer tudo por eles”. E hoje não se ouve isto: é lar para cima, lar para baixo, visitas no Natal, nos dias da Mãe e do Pai e pouco mais.

Como conjuga as dificuldades de mobilidade com o trabalho que desenvolve na Sol Fraterno?

A juventude é o amanhã. É ela que vai governar, mandar no mundo, e gosto que os jovens venham ajudar-me. Daqui a um tempo não conseguirei fazer o meu trabalho, as artroses estão a evoluir muito rapidamente. O médico disse-me que estou a pagar a fatura do trabalho que tenho feito. Aliás, já me vieram oferecer uma gargantilha de ouro como agradecimento pela missão que levo a cabo. Disse à senhora: “Guarde para si. Amanhã tem uma emergência e vende-a para cuidar dos seus filhos. Reze por mim, reze pela associação, para que cheguem até nós voluntários sérios”.

Alguns não o são?

Aparece-me de tudo. Algumas senhoras todas finas, pintadas, cheias de ouro que, no fim do dia, pegam em algo e perguntam: “Podemos levar?” E questiono: “Não podem dar cinco euros por isto, para ajudar a encher a despensa da Tia Céu?” E respondem: “Ah, então compramos para a próxima”. E nunca mais aparecem. Também faço trabalho de policiamento, o que é triste. Tenho dez voluntários em quem confio plenamente, três têm a chave do armazém.

Apesar destas situações menos agradáveis, acredita que o novo coronavírus tem, de alguma forma, fomentado a solidariedade?

Nas pessoas como aquelas que referi há pouco, que pensam que nada lhes acontece, tudo permanece igual. Mas o Zé Povinho, digamos assim, altera a sua mentalidade. Há mais boa vontade. O povo é muito solidário. Quando houve o incêndio na ilha da Madeira, em agosto de 2016, com o apoio da jornalista Rita Montez, da Visão, lancei um apelo nas redes sociais. No espaço de uma semana conseguimos encher três contentores com alimentos, roupas novas, comida para os animais e material escolar. Enviámos tudo através de uma empresa madeirense, que não nos cobrou nada. Recebeu-nos com lágrimas nos olhos, na verdade. E posteriormente recebi um email do diretor da Segurança Social da Madeira a agradecer o nosso gesto e a convidar-me para ir lá. E eu disse que não, pedi que usassem o dinheiro que iam gastar com a minha presença a auxiliar o povo. A fome não tem terra nem cor. Onde é preciso, estou lá para ajudar.

Porque mudou a Sol Fraterno de instalações no ano passado?

Estivemos muitos anos no Estádio Municipal Mário Wilson, mas era um espaço pequenino. As instalações de Carnaxide não respondem às necessidades porque precisamos de uma cozinha para aproveitarmos as recolhas de alimentos e de uma sala para os voluntários trabalharem. De qualquer forma, o Henrique Oliveira, dono de uma empresa que nos tem ajudado tanto, está a ajudar-me a construir o meu escritório e outras divisões.

Alguma vez se prejudicou em prol dos outros?

A minha casa já pegou fogo porque o dinheiro que o Isaltino Morais me deu para pagar a eletricidade foi usado para outro fim. Uma família não tinha dinheiro para pagar a creche da bebé. Eu estava em casa, tinha sido operada ao meu cancro da mama, e pedi para me darem os dados. O Isaltino tinha ido visitar-me no dia anterior e deu-me dinheiro. Fui à Santa Casa da Misericórdia de Miraflores, paguei a creche, cheguei a casa, vim ver televisão e, de repente, desligou-se. Abri a porta, vi o senhor a cortar a luz e ele respondeu: “Agora já não posso fazer nada”. À noite adormeci no sofá enquanto esperava pela minha filha e começou a arder o hall de entrada. Ninguém se feriu, os meus amigos vieram, pintaram as paredes, as minhas amigas lavaram-me toda a roupa na lavandaria e não me cobraram um único tostão. Tenho amigos que aparecem sempre quando estou com desgraças.

Quando ajudamos os outros somos vistos como totalmente independentes?

Exatamente. Por exemplo, acho que, no início, as pessoas pensavam algo como “aquela tem a associação, vive dali, tem uma boa vida”. Aquilo que as pessoas não sabem é que, primeiro, sirvo estes filhos todos. E só se sobrar algo é que levo para casa. O Luís e a Felisberta Videira, os avós, dizem sempre “leve isto ou aquilo para si”, mas eu digo “primeiro, aqueles que nada têm”.

É essa postura cristã que a mantém com coragem?

Só conseguimos ouvir Deus quando nos entregamos em oração. Limpamos a mente das coisas do mundo, fazemos silêncio, sentimos aquilo que Deus nos diz. Por vezes penso: “Tenho para aí 70 pedidos no email, o que é que faço?” Mas as pessoas entram em contacto comigo por outra via, e eu percebo que o caso é grave e ajudo. Peço a Deus todos os dias que nunca me deixe dizer “não tenho” a um filho que chega a esta casa. Eu não vejo as pessoas, vejo Jesus a dizer “Mãe, ajuda-me”.

Cerca de 132 milhões de pessoas podem juntar-se, este ano, aos quase 690 milhões que passaram fome em 2019, um aumento motivado pela covid-19. Estes dados foram anunciados pela ONU a 16 de outubro. Ou seja, 8,98% da população mundial pode sofrer, mais 10 milhões do que em 2018.

Sinto dor de não poder chegar a todos, de saber que há tanta fome lá fora e eu aqui com tanto pão que vamos buscar às pastelarias. Se conseguisse mandar este pão a estas pessoas, era tão bom. Mas para mandar tenho de pagar. E se chegar lá, ainda deitam fora para não dar a quem precisa. Se houvesse uma abertura para tal, eu fá-lo-ia. Muita gente diz “só falta a Tia Céu mandar comida para o estrangeiro” e eu respondo: “Mandaria sem ninguém saber”. Porque, para além de se fazer o bem, é-se crucificado. No Facebook dizem-me: “Mandou um cabaz para Coimbra, mas a fulana tal de Sacavém não recebeu”. E eu respondo: “Se essa pessoa está mesmo com muita fome, com dez euros em transporte vem cá buscar o cabaz. Nem que eu lhe pague um Uber para ir para casa”.

Isso já aconteceu?

Sim. Um casal veio com o filho bebé. Ora, o nosso cabaz mensal são cinco sacos de ráfia, dos grandes. Leva mercearia, produtos de higiene, de higiene de casa, verduras, fruta, iogurtes... não conseguiriam transportar tudo. Paguei-lhes o Uber e inseri a morada que me deram. A meio do caminho ligou-me o tal fulano e pediu que mudasse a morada. “Era a morada da minha mãe mas, agora, como tenho muita comida, vamos para nossa casa”. Eu mudei, mas a minha colega disse logo: “Atenção, são aldrabões. Então têm comida e não ajudam a senhora?”

Quais são os casos mais graves com que tem lidado?

Uma senhora tem uma filha de dois anos que nasceu sem ânus. Enviou-me uma mensagem a explicar que a menina faz as necessidades todas pelo mesmo sítio. Fiquei muito impressionada. Outra senhora perdeu o filho de 16 anos com cancro, no ano passado, e nem sequer conseguiu fazer o luto, porque tem uma filha de 23 anos que já foi mãe – e entregou o miúdo à senhora – e está grávida novamente. Além disso, o marido está acamado.

Quantas famílias ajudam atualmente?

Entregamos 400 cabazes todos os meses. Contabilizámos 450, nas últimas semanas, mas estou com a esperança de enviar 500 cabazes para o Natal. Antes da pandemia tínhamos 150 famílias. Havia uma emergência e eu dizia: “Ok, dou agora. Quando a sua situação estiver normalizada, avise-me para ter hipótese de ajudar outra pessoa”. No entanto, a pandemia alterou muito isto. No dia 9 de março fizemos uma recolha em simultâneo nos Auchan de Alfragide e Paço de Arcos.

Também recebemos ajuda do Continente de Telheiras e do Continente do Oeiras Parque, assim como da Mercearia 29 – na Quinta de São Gonçalo –, da Remax, que nos dá aproximadamente 40 sacos cheios de comida todos os meses, do Colégio dos Maristas, e ainda 200 a 300 quilos de peixe fresquinho, semanalmente, da empresa Morfar Peixe, da Margem Sul. Não me posso esquecer da ajuda essencial das associações Um Tecto Para a Vida e Vizinhos à Janela. Parece que estou a fazer publicidade, mas é importante mencionarmos aqueles que nunca nos deixam ficar mal.

Segue algum lema para nunca desiludir as famílias que apoia?

Todos os dias me lembro de uma frase da Madre Teresa de Calcutá: “O que eu faço é uma gota de água num oceano. Mas, sem ela, o oceano será menor”. A bem dizer, uma rapariga que tem uma empresa de venda de frutas e legumes, a Catarina Faustino, da Frutas Maria Vitória, enviou-ma numa carta, há poucos dias. Envia-me sempre uma frase religiosa quando alguém compra um cabaz para a nossa associação. E 10% de todas as vendas revertem para a Sol Fraterno também.

Como trava conhecimento com os patrocinadores da associação?

Vou dar o exemplo concreto da Catarina Faustino. Uma vez publiquei no Facebook: “Há alguém que possa cortar as unhas à minha cadela?” Porque tinha medo de a aleijar. E o Inigo Pereira, presidente da União de Freguesias de Carnaxide e Queijas, disse: “Conheço uma pessoa que tem um centro médico veterinário”. E eu fui lá. Quando a veterinária virou a cadela de barriga para baixo, viu um nódulo e disse: “Ela está doente, tem um cancro da mama já muito adiantado”. Fiz um direto e expliquei: “Hoje fui eu a chorar pela minha cadela. Alguém pode ajudar-me? Eu não tenho ordenado, vivo da providência de Deus, não tenho dinheiro para pagar a cirurgia”. E então respondeu-me a Catarina, da Frutas Maria Vitória, que estava a passar por um cancro ao mesmo tempo e disse: “Tia Céu, não se preocupe”. E pagou a cirurgia, não se esquecendo de referir: “Merece, por tudo aquilo que faz por toda a gente”. Eu chorei tanto.

Até já obteve reconhecimento do Papa Francisco.

Sim, duas vezes! Primeiro, em 2016, o Santo Padre mandou-me um terço branco de madrepérola. No texto explicava que ao rezarmos com aquele terço estamos a ter a bênção dele. Da segunda vez, em fevereiro deste ano, o assessor dele respondeu à carta que a Vanda Belchior – nossa tesoureira e agora vice-presidente da mesa da assembleia, que está comigo desde o início – lhe havia enviado em janeiro. Por isso, quando estou mais em baixo vou lendo a carta do Santo Padre, que me dá muita esperança.

Há figuras públicas que a ajudam?

A Tânia Ribas de Oliveira e o José Pedro Vasconcelos. Aqueles meus filhos... quando estou aflita, quando não tenho dinheiro, transferem-mo para ajudar as famílias.

Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa de Bancos Alimentares Contra a Fome, declarou que “nunca tínhamos tido uma crise tão forte como a que temos hoje” e que recebe, atualmente, 52 pedidos diários de ajuda. Quantos é que vocês recebem?

Só hoje, no email, recebi sete. Ontem foram nove. Mas e os outros canais? O WhatsApp, o Instagram – descobri que há lá pedidos, não sei viajar muito bem pelas redes sociais –, as chamadas e as mensagens telefónicas? Não consigo dar resposta. Se as pessoas não me ligarem diretamente, posso demorar a responder. Para que o processo fosse sempre rápido, tinha de ter pessoal a trabalhar, a receber ordenado. Telefonistas, pessoas a registar o levantamento dos produtos, outras a transportar os cabazes... tinha de ter um grupo a ser remunerado, porque não consigo ter pessoas a trabalhar todos os dias sem lhes dar nada. Se tivesse o apoio de um mecenas que pagasse ordenados a duas ou três pessoas, se calhar daríamos porrada às grandes instituições. Sei que o Banco Alimentar recebe muitos pedidos de ajuda. Todas as pessoas que estão aqui inscritas passaram pela inscrição na Rede de Emergência Alimentar.

Então não foram ajudadas? No site oficial da rede é possível ler que “é uma resposta limitada no tempo até estar ultrapassada a situação de emergência que o país vive”, visando “permitir levar alimento a quem dele carece e assim apoiar quem tem baixos recursos económicos”.

A rede não funciona. A maior parte das pessoas está três, quatro, cinco meses à espera. Duas pessoas inscreveram-se na rede e disseram que lhes ligaram a explicar que havia x instituições no concelho de Oeiras, incluindo a Sol Fraterno, e que iam ver qual poderia dar mais um cabaz. E vieram parar aqui. Na Margem Sul, na região Norte e em zonas de Lisboa – no Lumiar, em Odivelas e em Chelas –, a rede simplesmente não funciona. Porquê? Não sei.

A 2 de outubro, a RTP noticiou que, desde o início da pandemia, há mais 60 mil pessoas em Portugal a pedir ajuda à Rede de Emergência Alimentar e que o Banco Alimentar Contra a Fome e a Cáritas diziam estar “a ficar sem capacidade de resposta”. No mesmo dia, o Expresso divulgou que as “associações de solidariedade não conseguem dar resposta aos pedidos de ajuda para fugir à miséria”. Como faz a Sol Fraterno a gestão dos pedidos numa época tão conturbada?

Pertenço ao Renovamento Carismático Católico. Somos conhecidos como os católicos loucos, que abraçam toda a gente e cantam na rua. Mas fazemos aquilo que Jesus fez e que sentimos no coração. Se isto fosse fingimento, como estaria há 20 anos a ajudar o próximo? A máscara já teria caído. Todos os dias peço à divina providência que me dê força para ajudar todos os casos. Até hoje, nunca neguei ajuda. Há três fichas reprovadas, mas isso é porque as pessoas, depois de pagarem as contas, ficavam com 500, 600, 700 euros. Não se justificava ajudá-las. Por outro lado, temos casais que recebem 190 euros do rendimento social de inserção para viver. Temos de ajudá-los. Aqui, é a fé que nos move.

Que pedidos tem recebido nos últimos tempos?

Tenho uma lista de mais de 30 pessoas a pedirem-me para fazer funerais. Já fiz alguns em Caxias, por exemplo. Em relação à comida e ao vestuário, quantas mais famílias eu aceito, mais empresas me ajudam. Se tenho em mãos o processo de uma mãe de 29 anos com dois filhos, que me envia todos os documentos – dados pessoais, como nome e morada – a comprovar a situação do agregado familiar, e tem de dar chá ao bebé de duas semanas por não ter leite... Isto é normal? A Segurança Social demora uma eternidade. Contactamos as juntas de freguesia, mas está tudo em lista de espera. Como deixo uma mãe à espera? É esta a diferença que a Sol Fraterno faz, até porque mostra ao mundo que nem todas as instituições roubam.

Desde o surgimento do novo coronavírus, há pessoas que ficaram sem apoio das instituições particulares de solidariedade social que encerraram, algumas não têm capacidade financeira para se alimentarem, outras, cuja única refeição era feita na creche, escola, centro de dia, etc. ficaram sem comer e ainda há pessoas que dependem dos cabazes de alimentos que recebem semanal ou mensalmente. E ainda há os chamados “novos necessitados”.

Sim, temos ajudado a classe média-alta, aqueles que tinham a vida organizada e, hoje em dia, pagam a renda, a água e a luz, mas não têm dinheiro para comer. É aquilo a que chamamos “pobreza envergonhada”. Tratamos deles ao fim do expediente, quando só estamos cá eu e o Pedro Chaves, vice-presidente da associação. Os voluntários podem apanhar uma conversa ou outra, mas não sabem. E temos capacidade de ajudar todas estas classes sociais porque contamos com a ajuda da Câmara Municipal de Oeiras.

De que forma?

Em março falei com o Isaltino Morais. Disse: “Pai, os pedidos vêm de todos os lados do concelho”. A ação social tinha um montante estipulado e atribuiu-nos 8600 euros em março e o mesmo valor em setembro. E nunca me vou cansar de agradecer a oportunidade de ter um armazém imenso. Nesta rua, só vemos oficinas, empresas... Acho que trabalhamos bem porque senão não tínhamos sido reconhecidos pelos políticos. Este dinheiro de que falei foi conduzido para o auxílio prestado às famílias do concelho. Tudo aquilo que possa sobrar é utilizado nas zonas do país onde há famílias com grandes carências. Deus fez o mundo para todos e, se as pessoas me trazem compras, porque não posso dá-las a alguém que mora no Porto, imaginemos? Como ser humano, não posso dizer que não.

Já recebeu ajudas monetárias do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa?

A associação dos embaixadores portugueses faz uma venda anual, na Expo, e todas as embaixadas que existem em Portugal estão lá representadas. Fazem vendas e, depois, a festa no Palácio de Belém, doando o dinheiro às instituições que se destacam. E já fomos destacados três vezes! A primeira vez foi com a dra. Maria Barroso e as duas últimas vezes foi com o nosso tio Marcelo. O dinheiro é das vendas, mas o evento é sempre associado a uma cara. Assim, o Presidente entregou-nos o envelope. Os representantes das outras instituições agradeceram e sentaram-se, mas eu gosto de agradecer, respeitando os protocolos. Por isso, o Presidente vinha na minha direção e eu abri os braços e disse: “Boa tarde, papá!”. E ele respondeu: “Boa tarde, mamã!” E toda a gente se riu. Acabei por quebrar o protocolo, não é?

Em junho, o Programa de Estabilização Económica e Social foi anunciado pelo Governo. Integrava o complemento salarial para trabalhadores em layoff (entre 100 e 351 euros), um abono de família extraordinário para famílias até ao terceiro escalão de rendimentos, o reforço da proteção aos profissionais da cultura (3x438,81 euros), a proteção de trabalhadores independentes e informais (até 438,81 euros), o prolongamento das moratórias de crédito hipotecário e a criação de moratórias para crédito à saúde. Nota que estas medidas beneficiam o quotidiano das famílias que apoia?

É tudo falso. O primeiro-ministro disse: “Agora, as empresas de telecomunicações, eletricidade e gás não vão cortar nada”. É mentira. “Não vamos despejar famílias”. É mentira. Fazem tudo ao contrário. Aquilo que fazia diferença, neste exato momento, era o Estado ajudar as empresas com apoios a fundo perdido. E ao cidadão comum, a Segurança Social dar apoios e não estar com burocracias. E aquilo que me fazia mais feliz era ver os nossos políticos, do país inteiro, a tirarem 50% do seu ordenado para doar à Segurança Social, à Santa Casa da Misericórdia e às instituições de solidariedade social. Se tivessem esta atitude, seríamos um país agraciado por Deus. E somos, graças aos três pastorinhos, porque não estamos como em Espanha ou em Itália, onde morrem aos milhares.

Como leva a cabo o seu trabalho?

As famílias são encaminhadas pela junta de freguesia, pelas técnicas da câmara e pela Segurança Social. Ficamos entreligados e comunicamos via email. Porque já aconteceu termos a esposa com os filhos a receber um cabaz na associação e o marido com os mesmos filhos a receber noutra associação. Não condeno casos como este porque os cabazes, que são doados pelas instituições ditas normais, duram uma semana. Por isso é que digo à boca cheia que os nossos cabazes são bons. Este mês, a Vizinhos à Janela doou os alimentos à Santa Casa da Misericórdia, porque aquilo que a Santa Casa recebe do Banco Alimentar não é nada. As coisas chegam estragadas, como os legumes e as frutas. E, depois, a Santa Casa não tem forma de ajudar as famílias. E eu pergunto-me: porquê mandar tudo estragado? Não vai servir de nada. Na Sol Fraterno, por exemplo, recebemos dez caixas de peras. Se estão mal, vão para o contentor. Deram trabalho a carregar e a descarregar, mas não vão ser entregues às famílias em más condições. O Banco Alimentar tem de fazer essa vistoria. Se calhar recebe muito e não tem condições de despachar tudo de uma vez, mas este caso deve ser analisado. A dra. Isabel Jonet disse-me que tudo aquilo que está fora do prazo de validade é visto por médicos de saúde pública. E eu até acredito, mas tenho uma senhora de 75 anos, cujo marido está institucionalizado há muito tempo num lar, e ela não quer comer nada fora de prazo. Tem medo. Mas as nossas famílias estão muito mal acostumadas.

Como assim?

Não têm aquela fome que vivemos em 1974-75. O meu padrasto, de Viana do Castelo, frisava várias vezes que em casa dele eram sete irmãos e dividiam uma sardinha entre dois. Isto aconteceu. Os nossos pobres não passam por tal coisa. Na terça, uma família veio buscar o reforço e eu disse: “Vocês estão a educar muito mal os vossos filhos”. Dizem: “Não gosto destes cereais”. Sempre comi pão com bolor e nunca morri. Por exemplo, um dos miúdos é intolerante à lactose, mas isso é doença. Agora, escolher entre marcas de bolachas e massas... Mas eu dou-lhes na cabeça, porque quem dá pão também ralha! Digo aos pais que estão a criar mal os filhos e aviso-os: “Se amanhã não tiverem mesmo vão levar com um pau na cabeça e ouvir que têm de ir roubar para arranjar x e y coisa”. Mas eu entendo, porque eram pessoas com uma forma de estar na vida diferente, trabalhavam, podiam dar o melhor às crianças. E elas acham que luxos de marcas de cereais eram o melhor que tinham. Mas não. As marcas são só fama. E os pais pedem-me que explique isso. Porque com os pais choram, mas a mim respeitam-me, digo mesmo: “Cala a boca, a tia vai falar”.

As famílias estão mais afastadas devido à covid-19?

Esta semana estive com uma rapariga que não fala com o pai há vários anos e disse-lhe: “Estamos nesta altura em que não se pode beijar nem abraçar, mas que tal seres a primeira a telefonar ao teu pai e dizeres que o amas? Diz que o perdoas, convida-o para ir ver os netos”. E ela começou a chorar. O Santo Padre diz: “Aquele que for o primeiro a dar o passo para o perdão, mesmo que não tendo culpa, será o mais feliz”. Porque estamos feitos, mas não estamos acabados. Não sabemos quanto tempo nos vamos manter na Terra. As famílias não são perfeitas, mas são aquelas que Deus nos deu. Eu amo a minha e aquelas que estão em meu redor.

Está a preparar alguma iniciativa especial para o Natal?

Sim! Vou ter 300 kg de bacalhau para dar às minhas famílias. O mérito não é meu, é de Deus. Sou apenas o veículo que Ele utiliza para ajudar o próximo. O bacalhau é caro, não consigo comprá-lo, e a Pescanova vai ajudar-me tanto. Primeiro, vou enviar os cabazes do Porto; depois, os de Coimbra; de seguida, os de Lisboa; e, depois, das localidades mais próximas, como a Amadora ou o Cacém.

As crianças escrevem cartas ao Pai Natal que lhe são posteriormente entregues?

Sim! Uma menina de nove anos pediu um estojo de maquilhagem e eu tinha um novinho em casa, que me ofereceram, trouxe-o. Há um menino que pede uma PSP. Eu nem sequer sabia o que era e disseram-me: “É aquela consola de jogar”. E eu não tenho dinheiro, mas tenho um volante com pedais para ser ligado à televisão. É isso que lhe vou dar. Ninguém pede livros de leitura. Tenho mais de 30 cartas. Pedem-me livros de colorir, canetas, mas livros, nada. Os pais não os incentivam à leitura. Mas todos os anos, além das prendas que pedem, junto uma história ou um conto ao embrulho.

Tem algum sonho específico para a Sol Fraterno?

No futuro queria ter uma sala de leitura, trazer um grupo de idosos, avós, e um grupo de netos, crianças. Seria lindíssimo, falta isto, para juntar as camadas mais jovens às mais velhas. Falta muito esta ligação. E adoraria escrever um livro com a história da minha vida, transmitindo o legado da Sol Fraterno às próximas gerações.

 

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