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Pedro Russo. "A incerteza na ciência tem de ser comunicada"

Pedro Russo. "A incerteza na ciência tem de ser comunicada"

DR Marta F. Reis 18/11/2020 08:52

A comunicação de ciência, num ano marcado por um protagonismo inédito dos cientistas, é o mote de uma conferência transmitida esta quarta-feira à noite pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Pedro Russo, professor na Universidade de Leiden, astrofísico e divulgador de ciência, é um dos oradores. Em entrevista ao i, olha para o ano da covid-19 e também da controvérsia em torno das alegadas pistas de vida em Vénus. E fala do que a comunidade científica tem falhado em transmitir para fora.

Nunca se falou tanto de ciência, nunca houve tanta ciência a ser mostrada em tempo quase real e tanta a gente a questionar e interpretar ciência no espaço público de forma maciça. Quando chegar o balanço, este ano de pandemia ficará na história como um ano bom ou mau para a ciência e para os cientistas?

Acho que é quase impossível pensarmos em 2020 como um ano bom. Para a ciência é um ano bastante especial, mas do ponto de vista de comunicação de ciência tem sido um ano não muito positivo. Vieram ao de cima algumas falhas de comunicação. Penso que poderia ter havido um trabalho mais sólido e concertado na divulgação de informação sobre tratamentos, vacinas e todas as questões que têm sido colocadas. Falou toda a gente um bocado por si.

Fala de um trabalho pouco positivo do lado dos cientistas?

Acabámos todos por tentar ter uma voz em vez de pensar na mensagem-chave a passar. Vimos algum alarmismo, com alguns colegas que não são de áreas ligadas a doenças e que acabaram a fazer previsões. Os modelos matemáticos têm validade em epidemiologia mas podem ter de ser interpretados por virologistas, por exemplo. Conhecemos o vírus há um ano, pelo menos na China, e foi-se acompanhando esse processo de evolução, que seria sempre cheio de incerteza. Creio que falhámos na comunicação dessa incerteza e na comunicação sobre a falta de conhecimento que tínhamos sobre tudo isto para o público. Ao mesmo tempo, houve muita desinformação e cresceu o número de pessoas que acediam a essa desinformação na internet.

 

Já existiam movimentos a questionar a ciência em torno das alterações climáticas, mesmo das vacinas, mas surgiu aqui um novo confronto entre negacionistas e covidistas como agora se diz também pelas redes sociais. No final, havendo sempre boa e má ciência, pode haver descredibilização da ciência e do próprio método científico?

Acho que sim, há uma descredibilização dos cientistas e da forma como fazemos ciência. Temos de esperar para ver o impacto no final. Podemos até estar no pico da epidemia, mas são coisas que só se verão mais tarde. Daqui a uns anos, ao olhar para trás, poderemos ver o que falhou e como é que a comunicação da ciência podia ter ajudado melhor na informação do público e também a informar decisões políticas. Vimos por exemplo muitos trabalhos a serem divulgados sem serem revistos pelos pares, que é o sistema de validação de resultados que temos na ciência, o que de certa forma também tornou tudo mais confuso. 

Qual é a parte mais melindrosa para um cientista quando divulga resultados?

Na minha área, astronomia, acho que é mais fácil comunicar as descobertas. Não há um impacto tão próximo no dia a dia. Nas áreas da medicina e da saúde, tem sempre de haver cuidados acrescidos na forma como se comunica resultados, seja em desenvolvimentos, seja em tratamentos, para não criar falsas expectativas.

Ouvimos por vezes o desabafo dos cientistas de que os jornalistas simplificam ou são mais sensacionalistas. Não existe também pressão das instituições e dos financiadores para dourar um pouco os resultados? Os resultados podem ajudar a atrair financiamento...

Claro. Muitas vezes a forma como se obtém financiamento para a ciência tem muito a ver com a reputação e com o perfil dos investigadores, muitas vezes na comunidade científica mas também com o perfil público. E por isso há uma pressão muito grande das instituições científicas para comunicarem e mostraram o seu trabalho. Boa parte das instituições científicas a nível mundial querem comunicar mais, porque sabem que ter um perfil de excelência e saber-se que estão a contribuir e produzir pode ter impacto na forma de angariar financiamento. Sabemos que por vezes isso pode levar a alguma má comunicação, a alguma comunicação mais apressada. Uma boa comunicação tem de ser baseada em resultados validados pela comunidade científica e isso implica esperar que a revisão por pares aconteça, não saltar imediatamente para os meios de comunicação social.

Temos nos últimos dias um entusiasmo crescente em torno das vacinas da covid-19, que precisamente não têm até aqui resultados publicados. Parece-lhe que há um pouco dessa pressa ou como quer toda a gente ver uma luz ao fundo do túnel, é um pouco das duas coisas e salta-se essa parte por um bom motivo?

É um pouco das duas. Sabemos que há uma pressão muito grande, e também uma pressão política, para encontrarmos uma vacina rapidamente. Também sabemos que muitas vezes as empresas farmacêuticas, pela sua independência, não seguem o mesmo sistema de validação científica que exigimos à comunidade científica. Mas sem teremos publicações e resultados validados, torna-se difícil perceber se devemos estar muito entusiasmos ou manter-nos um bocadinho cautelosos. De facto há uma necessidade muito grande de pensar que há luz ao fundo do túnel, e pode existir, mas pode demorar mais tempo do que estaríamos à espera. Penso que é prematuro pensar que já está.

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