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Eduardo Oliveira e Silva 14/10/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

António Costa, o implacável

Como uma mancha de óleo, o poder vigente está a expandir-se e a ocupar todos os lugares disponíveis.

1. Aos poucos, António Costa vai expurgando implacavelmente o poder daqueles que não lhe são submissos, com uma ou outra pequena exceção de gente que mantém no Governo ou na sua esfera de influência para melhor a controlar. O episódio de substituição do presidente do Tribunal de Contas, em que fez gato-sapato de Rui Rio e encostou Marcelo às cordas, é apenas mais um de muitos episódios.

A somar ao poder pessoal de Costa há, por todo o lado, o insaciável aparelho do PS, disfarçado com alguns sociais-democratas, bloquistas e comunistas úteis, colocados pontualmente. É uma rede enorme e em expansão, ocupando o mais que pode de lugares de poder e benesses. Alastra como uma mancha de óleo derramado no mar.

A lista é enorme. O Governo tem 70 membros (mais do que o dos Estados Unidos!). Ao todo, os adjuntos dos governantes são 1236, segundo dados de segunda-feira – isto, apenas no Executivo. Imagine-se agora o que por aí vai entre autarquias, empresas do Estado, administração central, institutos, reguladores e grupos privados onde dá jeito ter uns sujeitos com acesso ao poder – bastas vezes com o beneplácito do PSD, como se vê por uma espécie de Tratado de Tordesilhas preparado para as CCDR.

O retrato mais fiel do clientelismo cacique (que também não exclui o PCP nas terras onde manda) tem como paradigma os inúmeros socialistas que ocupam lugares em Reguengos, uma terra alentejana, onde um surto de covid ceifou quase duas dezenas de vidas. Mais parecia uma autarquia da República Popular da China. Tanta gente. Tanta política e tanta incompetência!

Esta invasão retira a credibilidade das instituições, impedindo que cumpram aquilo para que foram criadas. Pode, por exemplo, ser o caso do Conselho de Finanças Públicas, do qual foi chutada recentemente Teodora Cardoso, que nem sempre era simpática para o Governo nas suas apreciações. Se é para serem decorativos, é melhor acabar com certos órgãos que, ainda por cima, custam caro.

2. Nesta trama de ocupação, muitas instituições são objeto de cobiça pela clientela de largo espetro da geringonça. Veja-se o caso da ADSE, cujo conselho diretivo está nas mãos de gente afeta a essa área, detendo um poder enorme sobre um sistema de saúde e verbas gigantescas. E como foi possível? Simplesmente porque se arranjou uma metodologia que elegeu, através de um núcleo restrito e facilmente controlável, um conselho geral que depois indicou um administrador. Curiosamente, no universo da ADSE pontificam agora algumas figuras que noutra instituição, concretamente o Montepio, contestaram os métodos de Tomás Correia. Mas, se formos ver, a ocupação na ADSE está a ser feita de forma mimética da do Montepio. João Proença, que liderou a UGT, é presidente do tal conselho geral e foi eleito pelos beneficiários (qual é, já agora, a percentagem dos utentes que votaram?). Outros membros foram nomeados por gabinetes ministeriais. Na área executiva há inúmeras atas de reuniões do conselho diretivo que ficaram por fechar, depois de a anterior presidente deixar funções e regressar à sua universidade, o ISCTE. Há também expetativas e interrogações sobre concursos de recrutamento de dirigentes em curso, face a casos recentes. O que se passa ali?

3. Ainda o dinheiro da bazuca europeia não chegou e já Portugal inteiro grita “à cidade e ao mundo” que ele vai ser roubado, desviado ou, no mínimo, mal utilizado. Apela-se a mecanismos de salvaguarda para evitar abusos e desvios que – dizem – vão sempre parar aos mesmos bolsos, ninguém citando nomes de trafulhas. Um estrangeiro sério que chegue cá e ouça isto só pode dar uma recomendação a Bruxelas: não mandem dinheiro para aqueles tipos, até que se organizem ou se prendam os malfeitores. Ironias à parte, haveria uma coisa que talvez se pudesse fazer: publicar os nomes de todas as empresas, organizações, consultores e entidades que receberem ou pagarem um cêntimo desses dinheiros, permitindo simultaneamente o acompanhamento online dos processos. É uma metodologia potencialmente melhor do que criar mais organismos ou um observatório.

4. Aí está o Orçamento do Estado. Ou melhor, o orçamento para o Estado. Para amansar Catarina Martins e as maninhas Mortágua, não consta nenhum pagamento ao Novo Banco (NB). Sucede que se o dinheiro não sair pela porta da frente, sai pela das traseiras. Ou será que vai aparecer, novamente, Pedro Nuno Santos a falar com voz grossa e a gritar que vamos pôr os credores de joelhos e não pagamos a dívida da bancarrota? Depois foi o que se viu. Pagámos, pagamos e continuaremos a pagar, estejam ou não inscritas as verbas no OE. O homem, agora, até compra carruagens velhas, inúteis e com amianto aos espanhóis. Os bancos e o Fundo de Resolução sabem bem como tornear a circunstância de o NB não ter verba inscrita no OE: basta aumentar ainda mais as comissões. Contribuinte ou cliente bancário é igual ao litro. Outra constatação do OE é que as classes médias em Portugal voltam a ser vergastadas. Continua o massacre de quem trabalha e ganha pouco mais de mil euros limpos. Em contrapartida progridem os rendimentos mais baixos, multiplicam-se alguns duvidosos apoios sociais. No topo beneficiam-se os que podem recorrer a consultores financeiros. Os muito ricos têm sede na Holanda ou noutro país facilitador.

5. A propósito de transparência, soube-se há dias que o Governo assinou, pela mão do ministro Siza Vieira, um contrato com uma consultora internacional para criar finalmente o Banco de Fomento que, antes de o ser, já custou milhões em salários. O preço do contrato foi de 749 mil euros. Exatamente mil euros a menos do que o limite a partir do qual teria de ter o visto prévio do Tribunal de Contas. Palavras para quê?

6. Esquecida durante dezenas de anos, uma fita magnética contendo o registo de uma entrevista de Amália Rodrigues feita, antes do 25 de Abril, pelo escritor comunista Manuel da Fonseca foi agora publicada em livro. O registo do encontro estendeu-se por dez horas. Ao noticiar a saída do livro no centenário do nascimento da fadista, a comunicação social assinalou que a encomenda foi feita pela editora Arcádia, mas ignorou o facto de ter sido Waldemar Paradela de Abreu qxuem se lembrou de juntar tão improváveis figuras, ainda em ditadura. Paradela de Abreu foi o editor de Portugal e o Futuro, o livro de Spínola que abriu portas à queda do Estado Novo. Oposicionista convicto antes da revolução, foi depois dela um lutador contra o avanço descontrolado da extrema-esquerda e do comunismo ortodoxo, através do movimento Maria da Fonte. A vida de Waldemar Paradela de Abreu dava um filme sobre alguém que esteve sempre do lado da liberdade de expressão, mesmo contra o politicamente correto das épocas.

Escreve à quarta-feira

 

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