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Sardinhas em aquacultura? Sim, no Algarve

Sardinhas em aquacultura? Sim, no Algarve

Miguel Silva Sónia Peres Pinto 03/10/2020 11:59

O i esteve a acompanhar o trabalho que está a ser feito na Estação Piloto de Piscicultura, em Olhão. A aposta, agora, são as sardinhas, que aguardam investimento privado. Para breve poderá estar a produção de cavalos-marinhos.

A falta de sardinhas pode ter os dias contados, já que a produção das mesmas em aquacultura está pronta para ser comercializada em grande escala, só sendo necessário aparecerem os industriais dispostos a apostar no negócio.

O projeto começou na Estação Piloto de Piscicultura (EPPO), do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, em Olhão e veio juntar-se a outras espécies que já existiam nesse espaço, desde o robalo à dourada, passando pela corvina e linguado. Mas se ao início, a ideia era estudar o stresse das sardinhas – depois de serem apanhadas, os investigadores tentavam perceber o seu comportamento após serem libertadas no mar e a sua taxa de sobrevivência – ganhou novo fôlego com o desafio da anterior ministra do Mar, em 2016, que tinha como objetivo combater a escassez da sardinha.

“Começámos a trabalhar a sardinha em 2005/2006. Se uma traineira tivesse atingido a quota, a sardinha era deitada outra vez ao mar, mas havia o receio de que o animal não sobrevivesse. Nessa altura, captámos sardinhas para tentar perceber como é que olhavam para o alimento e como se comportavam depois de serem libertadas. Mas ainda não havia esta pressão sobre as quotas. Tivemos cá as sardinhas uns anos, engordaram em aquacultura, puseram ovos, mas não enveredámos por esse caminho”, conta ao i, Pedro Pousão, responsável da EPPO.

O projeto começou a ganhar novas dimensões com o desafio de repovoamento por parte de Ana Paula Vitorino. Uma ideia que rapidamente foi posta de parte, já que para isso seria necessário existirem milhares desta espécie. “Fizemos durante muitos anos repovoamentos experimentais com dourada, sargo, robalo, linguado, corvina, são espécies um pouco diferentes, mas sempre do ponto de vista experimental para tentar perceber se a espécie morria, se aguentava, se fugia. Não era para encher o mar de peixe porque para isso teriam de existir milhões de peixes para ter algum significado”, refere o responsável.

A partir daí, o passo a dar seria a produção para consumo. E é neste patamar que está a aquacultura de sardinhas. Pedro Pousão garante que a espécie adapta-se perfeitamente ao cativeiro. E para os mais desconfiados, o responsável da EPPO diz apenas que o único cuidado que é preciso ter diz respeito à forma como são transportadas, mas isso aplica-se a todas as espécies. “As sardinhas adaptam-se perfeitamente ao cativeiro, é evidente que perdem um bocadinho de escama e tem de se manipular com mais cuidado. Mas manipular douradas e robalo é totalmente diferente. Se transportar para as gaiolas da mesma forma as douradas e os robalos, a minha taxa de mortalidade é de 80% no robalo e na dourada é zero. Têm de ser transportados consoante a especificidade da espécie”, acrescenta.

 

O que falta para ir para o mercado

Para já ainda não foi nenhuma consumida, mas apenas por opção. “Já tivemos aqui sardinhas que morreram de velhas. Nenhuma foi consumida porque não quisemos. Temos aí aos milhares, mas qualquer dia temos de fazer uma prova cega com os especialistas de sardinhas para tirar as teimas aos mais desconfiados. Comer os animais que cá temos não é fácil”.

Então o que falta? Pedro Pousão é claro: afinar algumas técnicas e, acima de tudo, aparecer um investidor que queira produzir esta espécie em cativeiro. “Quando se trabalha em aquacultura a ideia é produzir qualquer coisa que se venda para o mercado”. E vai mais longe: “Temos de produzir aquilo que comemos. Já ninguém discute se come salmão de cultivo ou salmão selvagem. E ninguém anda a discutir se come robalo selvagem ou de cativeiro. E quando se discute isso é porque as pessoas gostam de dizer que os peixes de aquacultura não são bons, quando 99% é isso que consome. Na aquacultura, produz-se peixe de todos os tamanhos e feitios. Tenho corvinas nascidas cá com 20 e tal quilos, robalos com cinco quilos e douradas com três”.

 

Preservar o ícone português

Para o responsável da EPPO, se a sardinha é o ícone de Portugal e é uma das espécies mais populares em termos de consumo então terá inevitavelmente de ser produzida em cativeiro. E se mesmo com as quotas mais baixas ainda há oferta no mar, Pedro Pousão garante que essa questão poderá ser posta em causa daqui a uns anos e o trabalho que está a ser feito agora em Olhão dará resposta nessa altura.

“A quota da sardinha baixou e vai-se manter baixa durante muitos anos, no entanto, a população mundial cresce. Os consumos de pescado crescem. Há aqui duas coisas: cada vez há menos peixe do mar, mas as bocas para o comer são cada vez mais. Se a sardinha é um peixe interessante e tem valor então deve ser produzido”.

Mas já há falta de sardinhas que exija produção em aquacultura? Para o responsável não há dúvidas: “Em aquacultura não resolvemos os problemas de produção de um animal num ano ou em dois. Precisamos de quatro, cinco ou seis anos para afinar técnicas, mesmo herdando técnicas de outras espécies. E quando o mercado precisa, exige sempre toneladas. Isto aplica-se também à sardinha”.

Pedro Pousão admite, no entanto, que há umas espécies que precisam de ser mais trabalhadas do que outras. E dá como exemplo, o atum. “Anda-se a tentar fazer atum de aquacultura há muitos anos, mas faz-se com grandes dificuldades. Houve espécies que começaram depois e estão muito mais à frente. O polvo, por exemplo, levou 20 anos para ter sucesso na sua reprodução e, mesmo assim, é um sucesso limitado”.

O mesmo não acontece à sardinha que, de acordo com o responsável, dá-se bem em cativeiro, apesar de ainda haver algumas reservas até que possa ser produzida em grandes quantidades. E dá uma justificação: “A partir do momento em que é para produzir em massa tem de ser standartizada. E quando passa a indústria, esta precisa de saber quanto é que se pode produzir, quanto tempo demora a crescer, quantos sobrevivem, o que podem comer e qual o seu custo final”.

No caso das sardinhas, há questões que já têm resposta, mas outras não e, daí defender que é um caminho que tem de ser feito agora porque demora alguns anos. “Vamos de ensaio a ensaio e como temos uma equipa pequena chega-se ao fim de um ano e fizeram-se dois ou três ensaios. Até porque não trabalhamos só com a sardinha, trabalhamos também com a corvina, com o robalo e dourada, linguado, ouriço-do-mar”. Ainda assim, chama a atenção para o facto de já existirem neste espaço sardinhas de segunda geração. “São animais que nunca souberam na vida o que era o mar, nem pais. O que estamos neste momento a estabelecer? Primeiro a questão da reprodução. Conseguimos reproduzir bem a sardinha, mas não conseguimos ainda standartizar o número de juvenis como em outras espécies por duas razões: pela colheita dos ovos, a sardinha é um animal que come os seus próprios ovos; depois o alimento para o reprodutor”.

No entanto, lembra que esse é um caminho natural a percorrer e que se assistiu nas outras espécies. “Demorámos 12 anos para a corvina e 20 anos para a dourada. Agora levámos menos tempo porque aprendemos com outras espécies, mas a dourada ainda hoje está a ser estudada e produz-se desde os anos 80, o mesmo acontece com o robalo. Também produzimos aqui corvina há 12 ou 14 anos, já temos tudo muito apurado mas não paramos de investigar”.

E lembra: “Como estação piloto só passamos as coisas para o mercado quando elas estão já afinadas em todos os seus pontos. Hoje dominamos perfeitamente a corvina como se domina o robalo e a dourada”.

Como a sardinha “come tudo o que cai no tanque” – ovos de outros peixes, rações de peixe (farinhas de peixe, de vegetais e de restos de matador de animais não ruminantes) – o desafio agora é não deixá-la engordar demais. “Temos de ter uma dieta para que cresçam com um determinado perfil. E uma das coisas que estamos a fazer – e vamos começar o ensaio já em breve – é definir qual o nível de proteína da ração de uma sardinha. Um dos problemas que temos com a sardinha é que ela come demais e come em baixas temperaturas, por isso é que é uma espécie interessante. Enquanto um robalo, uma dourada ou uma corvina a 15 graus pouco come, a sardinha é uma espécie que cresce a estas temperaturas, o que é interessante para se produzir em sítios com águas mais frias como é a nossa costa”, refere ao i.

Quando questionado se para o próximo ano já será possível fazer aquacultura de sardinha, Pedro Pousão não hesita: “Tudo depende da procura. Quando começámos a produzir linguado a procura demorou 20 anos. Estamos a fazer corvina há 12 ou 14 anos e só há dois anos é que passou a existir uma procura louca pela corvina, quando nos primeiros 10 anos até me chegaram a questionar para que é que estava a produzir esta espécie, porque o mercado só queria dourada e robalo. De repente houve um boom e mandámos reprodutores para Espanha, para a Croácia, Grécia, Chipre”.

 

Qual o tamanho ideal?

Pedro Pousão lembra que tudo depende do seu destino, já que pode ser produzida para todos os gostos. Se for para consumo no prato terá de ser maior, mas se for para a indústria conserveira terá de ser mais pequena. “A sardinha aqui ao fim de um ano atinge um tamanho que no mar demora 18 ou 19 meses”.

E para o responsável um dos principais destinos destas sardinhas poderão ser as conserveiras e, com isso, deixam de estar dependentes da pesca tradicional. “A indústria conserveira pode viver de uma indústria de aquacultura. Pode fazer a sardinha que quiser, com o tamanho que quiser e com a qualidade ou gordura que quiser porque ela a seguir vai ser cozinhada, é posta dentro de uma lata e se for preciso ainda tem molho de tomate picante”.

Pedro Pousão admite, no entanto, que esta indústria pode não precisar deste produto agora, mas quando chegar essa altura terá de haver uma resposta. “Nunca trabalhamos para o momento, mas quando esse momento chega temos de ter uma resposta. Não estou preocupado em saber se para o ano vamos produzir sardinha de aquacultura. Estou preocupado é em produzir comida e se a sardinha faz parte do alimento dos portugueses então é uma questão de tempo até precisarmos dela”, diz ao i.

E dá como exemplo, o que aconteceu com o linguado. “Comecei a trabalhar com o linguado em 1985, mas só há dois ou três anos é que assistimos ao boom da sua produção. No entanto, a investigação foi sendo feita ao longo de vários anos e até foi mais lenta porque não era considerada uma espécie prioritária. Agora temos um crescimento enorme da produção do linguado, incluindo em Portugal”.

Mas apesar desta aposta, o responsável garante que vai continuar a existir no mercado a sardinha do mar. “Quando se começou com o robalo e com a dourada as pessoas perguntavam o que é que ia acontecer aos pescadores, não aconteceu nada. Vão continuar a pescar porque Portugal produz 3 mil toneladas de dourada e robalo e consome 25 mil. Temos sempre de importar”. Um cenário que, segundo o mesmo, irá repetir-se com as sardinhas. “A sardinha do mar vai continuar a ser vendida e se pescarmos mais também vamos comer mais”.

 

Atrair investidores

Para o responsável da EPPO agora só falta atrair investidores. Mas para isso, defende que não se pode “complicar a vida com 50 mil burocracias como se faz em Portugal quando alguém quer fazer o quer que seja”.

Além disso, lembra que a aquacultura é uma indústria de capital intensivo, em que nos dois primeiros anos exige muito investimento e, como tal, têm de aparecer empresas com fôlego para conseguirem manter esse negócio de pé.

Ao mesmo tempo, dá resposta para as necessidades. E dá como exemplo, o investimento levado a cabo pelo grupo Jerónimo Martins que está a investir em aquacultura na Madeira, em Sines, em Aveiro e vai entrar no Algarve. O mesmo exemplo está a ser seguido pelo grupo Sonae que assinou um convénio com uma grande empresa que se instalou em Olhão para comercializar 90% da produção da dourada. “As grandes superfícies é que sabem onde vão comprar o alimento e as dificuldades que têm em comprar e a procura que têm”.

Ainda assim, confessa que não é necessário apostar em todas as espécies e defende a aposta em meia dúzia. “Temos a dourada, o robalo, a corvina, o lírio – que é uma espécie que já está a ser estudada e atualmente tem um preço alto, mas com o aumento da produção é natural que o valor tenda a regulariza-se e é muito interessante para os Açores e para a Madeira, principalmente porque não têm douradas nem robalos, mas do ponto de vista comercial ainda apresenta algumas deficiências”.

Já a produção do sargo é vista como sendo pouco atrativa do ponto de vista comercial, uma vez que o seu crescimento é lento. “Produzimos aqui sargos há 20 e muitos anos, mas não tem muito interesse para a aquacultura porque não cresce rapidamente, no entanto, usamos esta espécie para outro tipo de ensaios. Por exemplo, de contaminantes para perceber se o mercúrio que se acumula nos peixes fica no músculo ou se fica no fígado, para saber se as toxinas que existem na costa e que afetam os bivalves também afetam os peixes”.

Também o carapau e a cavala não são consideradas espécies estratégicas para esta indústria, uma vez que, são muito abundantes no mar. “A indústria não pode produzir tudo e mais alguma coisa. Há espécies que podem e devem ser produzidas consoante o interesse da indústria e de acordo com a procura e necessidade dos consumidores”.

Um cenário diferente é o que se assiste com o mero que também é produzido em Olhão, mas apenas para efeitos de repovoamento. “É uma espécie muito interessante para o mergulho porque é um peixe muito simpático e vai ter com o mergulhador. Houve uma altura em que o mero quase desapareceu da nossa costa. E quando produzimos meros aqui foi com a ideia de libertá-los. Temos feito a libertação de meros com clubes de mergulho porque é atrativo para quem mergulha: faz-se festas, tira-se fotos”.

 

Cavalo-marinho na mira

Apesar de ainda não ter começado a ser desenvolvido o cavalo-marinho em aquacultura, Pedro Pousão acredita que mais cedo ou mais tarde isso terá de acontecer para evitar que esta espécie desapareça. A “culpa” é da apanha clandestina na ria Formosa que está a pôr em causa a sua sobrevivência. “O cavalo-marinho neste momento vale muito porque tem muita procura, nomeadamente da China, por causa dos seus efeitos afrodisíacos e decorativos. Se não vamos conseguir parar esta apanha clandestina e se vale assim tanto dinheiro então o melhor é começar a produzi-lo, para deixar sossegados os que estão na natureza. E é possível? É e vai ter de ser esse o caminho”. E acrescenta: “Tudo o que vale dinheiro e que tem procura deve ser produzido”.

 

Aposta em força na produção

Para o responsável, a estratégia do país tem de assentar na produção de peixe e aponta mesmo como “uma corrida que Portugal não pode perder”. E lembra: “Somos dos países que mais come peixe no mundo. Tenho algum receio que as pessoas comecem a diminuir o consumo do pescado porque o preço sobe e deixa de estar acessível. Deve-se tentar produzir para que se possa disponibilizar o produto a um preço que seja acessível às pessoas”.

De acordo com o responsável, não faz sentido Portugal importar quase 400 mil toneladas de pescado, o equivalente a 70% do que comemos. “Ouvi António Costa Silva, durante a apresentação do programa de relançamento da economia, a dizer que 90% do peixe de aquacultura que comemos é importado. Mas isso faz sentido? Quando devia ser essa a indústria em crescimento. E a pandemia mostrou que não podermos estar dependentes de setores como o turismo porque se há problemas nessa atividade, a economia cai a pique”. E aponta o Algarve como a região ideal para apostar nessa estratégia.

“Não podemos produzir peixe em grande? Se produzimos neste momento 10/15 mil toneladas em aquacultura porque é que não podemos produzir 100 mil toneladas? Porque é que não podemos produzir um quarto daquilo que consumimos? Será um objetivo tão grande? Os noruegueses produzem mais do que toda a Europa comunitária junta. O salmão é a principal indústria deles. Porque é que Portugal não deve apostar em grande na aquacultura com tanta costa e com todas as tecnologias que existem e que nos permitem explorar? E tornar isso num desígnio para a recuperação económica?”, questiona.

O ideal, segundo o mesmo, seria produzir sardinhas de aquacultura para comer no inverno e quando não há pesca, por exemplo, ou produzir petingas já que a pesca destas está proibida. “Podemos ter uma produção nacional de comida, seja sardinha, seja corvina, seja dourada. O desafio é estender o conceito em vez de agrícola ser alimentar. Quanto mais se produzir, menos se importa, mais perto estás dos consumidores, logo tem maior frescura e tiro preço ao transporte. Ao mesmo tempo, estou a criar postos de trabalho, tanto diretos como indiretos e a criar riqueza para o país. Se temos uma indústria que pode alavancar o país porque não andar com ela para a frente?”.

 

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