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David Quammen. Um profeta do contágio

David Quammen. Um profeta do contágio

Carlos Fiolhais 13/08/2020 22:22

O novo coronavírus tornou Quammen famoso porque, em Contágio, ele tinha, de certo modo, previsto a “Próxima Grande Epidemia,” isto é, a que hoje grassa.

Acaba de sair na editora Objectiva o livro Contágio, uma história dos vírus que estão a mudar o mundo (no original, Spill-over: Animal Infections and the next human pandemic, W. W. Norton, 2012), a mais proeminente das obras do norte-americano David Quammen, 72 anos, autor de 11 títulos de não ficção sobre temas de ciência, natureza e viagens, e de cinco de ficção. Nas obras de não ficção já tinha escrito sobre o vírus ébola, que causa a doença com o mesmo nome, e sobre o VIH, que causa a sida. De entre os livros de ficção distingue-se Walking Out, por ter sido guião de um filme. A sua escrita é muito apelativa, pela proximidade que revela e suscita em relação à ciência e à natureza. Ele é um dos autores da National Geographic que, há muitos anos, muito mais do que um magazine popular, é uma instituição que zela pela nossa consciência planetária. Quammen é um grande viajante: tem corrido as sete partidas do mundo, incluindo os lugares mais recônditos, para poder ser testemunha direta dos fenómenos que relata. 

O novo coronavírus tornou Quammen famoso porque, em Contágio, ele tinha, de certo modo, previsto a “Próxima Grande Epidemia,” isto é, a que hoje grassa. A covid-19, com mais de 700 mil vítimas mortais até à data, situa-se entre o ébola, cujo surto em 2014-2016 causou 11 300 mortos, e o VIH, que já causou, desde 1981, mais de 30 milhões de mortos. Mas, no livro agora saído em português, Quammen discutiu, além dessas duas epidemias, várias outras, como a SARS, que em 2002-2003 causou 800 mortos, e outras menos conhecidas, como as causadas pelo vírus Hendra, que surgiu na Austrália em 1994, e pelo vírus Nipah, que surgiu na Malásia em 1998. Todas elas são exemplos de zoonoses: a passagem, ou spillover, de microrganismos de animais para humanos. Dada a previsão feita em Contágio, o New York Times solicitou a Quammen, em janeiro passado, um artigo de opinião sobre o novo coronavírus que começava então a grassar na China, artigo este que foi incluído na edição portuguesa. O autor estava nessa altura a escrever um livro sobre o cancro, mas o seu editor pediu-lhe para pôr esse tema de lado e começar a escrever, a todo o vapor, um livro sobre a pandemia causada pelo SARS-CoV-2. Estou certo de que o novo livro, agora em elaboração, vai sobressair na lista, a aumentar todos os dias, de obras sobre vírus e infeções virais. 

Vale a pena ler Contágio porque está muito bem escrito e traduzido (não se nota a heterogeneidade que se poderia recear de haver quatro tradutores e dois revisores). Impressiona o rol de referências e de pessoas que ajudaram o autor nas suas pesquisas. O livro tem a mais-valia de um prefácio de Pedro Simas, o virologista português que ganhou visibilidade nos últimos meses, no qual é identificada Odette Ferreira, a cientista portuguesa de quem Quammen fala, embora por alto, no cap. viii, ao referir a descoberta do VIH de tipo 2.

Contágio não é bem uma história, como vem no subtítulo português, mas diversas histórias, entrelaçadas pelo fenómeno da zoonose. Algumas delas são trepidantes não só pelo grau de destruição viral e pelos dramas humanos associados, mas também, e sobretudo, pelos avanços no conhecimento conseguidos por médicos, virologistas e outros cientistas em vários sítios do globo. As conversas com esses cientistas são muitas vezes reproduzidas ipsis verbis, em diálogos que parecem cinematográficos. Ao ler Contágio sentimo-nos na linha da frente, ansiosos, como o próprio autor, por saber mais. Ficamos inteirados, em direto e ao vivo, das catástrofes acontecidas ou a acontecer. É raro encontrar autores de ciência que escrevam com tanta vivacidade.

Como previu Quammen, no seu livro de há oito anos, a atual pandemia? No seu website diz, com alguma modéstia, que não foi ele, mas sim os especialistas com quem falou. Tem razão. Mas o seu mérito foi ter estado com as pessoas certas nos lugares certos. Sim, a probabilidade era grande de haver uma nova pandemia causada por um vírus passado de animais para humanos, uma mensagem, bem clara no livro, que o autor resume no seu site do seguinte modo: “Sim, haverá uma Próxima Grande Pandemia. Será causada por um vírus. Esse vírus será novo para os seres humanos, saindo de um animal selvagem. Que tipo de animal? Muito possivelmente, um morcego. Que tipo de vírus? Muito possivelmente, um vírus influenza ou um coronavírus. Sob que circunstâncias o vírus entraria nos seres humanos? Alguma situação de contacto próximo e desastroso entre humanos e animais selvagens – como no interior ou perto de um mercado de animais vivos na China, por exemplo”.

Portanto, embora a data, local e circunstâncias exatas fossem de todo imprevisíveis, o início da atual pandemia foi prevista, não só por Bill Gates e por especialistas da Organização Mundial da Saúde, mas também por escritores de ciência. Vejamos o que Quammen escreve no final do cap. iv, “Jantar na quinta dos ratos” (o título remete para um jantar que lhe foi oferecido por uma família chinesa), um capítulo dedicado à SARS: “A história muito mais sombria ainda está por ser contada, provavelmente não sobre este vírus, mas sobre outro. Podemos adivinhar que, quando a Próxima Grande Pandemia chegar, agirá provavelmente em conformidade com o mesmo padrão perverso, com uma alta infecciosidade a preceder sintomas percetíveis. Isto vai ajudá-lo a percorrer cidades e aeroportos como um anjo da morte”.

Hoje, os contágios por casos assintomáticos soam-nos, infelizmente, familiares. Quammen estava muito bem informado. Falou com muita gente nas suas viagens à volta do mundo: a África, em busca do ébola; à China, em busca do SARS; à Austrália, em busca do Hendra; e à Malásia, em busca do Nipah (as únicas figuras do livro são mapas que ajudam a localizar a ação). 

Como os capítulos são mais ou menos independentes, comecei pelo último, intitulado “Depende – Comportamento humano e epidemias”, onde, para além de tratar brevemente dos vírus influenza – em poucas páginas está o essencial da informação científica sobre uma terrível doença que nos aflige há séculos (o livro já ia em mais de 500 páginas) –, Quammen fala dos malefícios da ação humana. A sua tese é que a espécie humana está a aumentar de um modo muito rápido (já somos mais de sete milhões) e a ocupar zonas do planeta que eram selvagens, aumentando com isso as probabilidades de zoonoses. Ele diz que a espécie humana é um surto, uma expressão que se pode usar tanto para doenças como para espécies em crescimento explosivo. Seremos uma doença para o planeta, que é como quem diz para nós próprios. 
Vamos todos morrer. Como diz o autor, com ironia: “Sim, vamos todos pagar impostos e vamos todos morrer”. Mas não vamos morrer de varíola nem de poliomielite, doenças para as quais já desenvolvemos vacinas (curiosamente, essas não são zoonoses). Mas poderemos morrer com um vírus novo recentemente saído de uma ave (a gripe pode vir das aves), de um macaco (a sida veio de um macaco) ou de um morcego (a SARS, tanto na primeira como na atual forma, veio provavelmente de morcegos). Quammen escreveu profeticamente: “Quando o próximo vírus novo passar de um chimpanzé, morcego, murganho, pato ou macaco para um ser humano, e talvez desse humano para outro humano, e começar assim a causar um pequeno número de doenças letais, eles, os cientistas, vão dar por isso (….) e fazer soar o alarme. O que quer que aconteça depois disso vai depender da ciência, da política, dos hábitos sociais, da opinião pública e de outras formas de comportamento humano. Vai depender de como nós, cidadãos, reagirmos”.

Que lição podemos aprender com os vírus vindos de animais? Quammen responde: “As doenças zoonímicas lembram-nos, como fez São Francisco, que nós, humanos, somos inseparáveis do mundo natural. Na verdade, não existe um ‘mundo natural’, trata-se de uma expressão má e artificial. O que existe é apenas o mundo. A Humanidade faz parte desse mundo assim como o vírus Ébola, assim como as influenzas e o VIH, assim como o Nipah, o Hendra e a SARS, assim como os chimpanzés, os morcegos, as civetas e os gansos-de-cabeça-listada, assim como o próximo vírus assassino – aquele que ainda não detetámos”. Concordo com o autor que as possibilidades de infeções virais estão a aumentar, mas penso que essa é uma tendência que vem de há muitos anos. Com a Revolução Neolítica, há 10 mil anos, passámos a viver próximo dos animais que domesticámos. E, depois disso, espalhámo-nos pelo planeta, designadamente na “primeira globalização”, quando viajávamos em barcos à vela, na “segunda”, quando viajávamos em barcos a vapor, e na “terceira”, em que viajamos de avião. Não vejo como voltar atrás.

Vale-nos alguma margem de livre-arbítrio. Podemos fazer escolhas: “Um ser humano individual pode escolher não beber a seiva da palmeira, não comer o chimpanzé, não construir a pocilga debaixo do mangue, não limpar a traqueia de cavalo sem luvas, não fazer sexo desprotegido, não partilhar a agulha ao consumir droga, não tossir sem tapar a boca, não apanhar um avião se estiver a sentir-se mal ou não abrigar as galinhas juntamente com os patos”.
Acrescentaria, nos dias e no contágio que hoje vivemos, que podemos usar uma máscara, manter o distanciamento social, lavar as mãos com frequência. “Tudo depende”, são as últimas palavras do livro. O início de um novo vírus depende, de facto, do acaso, uma vez que vem da lotaria genética. Mas o seu espalhamento já depende principalmente de nós. 

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