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Rodrigo Alves Taxa 07/08/2020
Rodrigo Alves Taxa

opiniao@newsplex.pt

Vão destruir o Ministério da Agricultura

Os ambientalistas por excelência são os agricultores. Seja no desenvolvimento agrícola, agroalimentar, no desenvolvimento rural, no bem-estar animal, no equilíbrio dos ecossistemas, mas também no que diz respeito ao ordenamento do território, clima e conservação da natureza...

Nos últimos anos venho acompanhando com especial preocupação e perplexidade a pouca importância que os Executivos de Costa têm dispensado ao Ministério da Agricultura, que deveria apenas e tão-só ser uma das áreas tutelares de maior excelência.

Mas não sejamos ingénuos. Esta é uma matéria cuja análise deve ser bem mais profunda que aquela que lhe tem sido dispensada pela maior parte dos opinadores políticos nacionais, sobretudo porque o que está em causa não é um mero abandono ou desleixo setorial governativo, mas antes um constante e negligente desinteresse político-programático assente, quanto a mim, em três vetores essenciais.

O primeiro assenta na reduzida importância política que os distritos eminentemente agrícolas têm face aos distritos urbanos, naquilo que concretamente tem que ver com o número de deputados que elegem. Quando temos distritos da dimensão do de Portalegre a eleger dois deputados, Évora e Beja, três deputados, e mesmo o de Santarém apenas nove deputados, essa é a primeira circunstância que leva o Estado central a negligenciá-los face a todos os outros. 
Traduzido por miúdos, como dão menos deputados que as grandes malhas urbanas, tudo quanto diga respeito ao campo e à agricultura fica irremediavelmente remetido para segundo ou terceiro plano, sobretudo em Executivos socialistas.

Como os deputados eleitos por estes círculos são poucos e, muitas vezes, além de poucos são visivelmente incompetentes na matéria, dado que só lá foram parar porque não cabiam nos lugares elegíveis das listas dos círculos com mais mandatos para distribuir, os distritos agrícolas e a agricultura são mal representados, têm pouca influência no Parlamento e ainda menor importância nos Executivos.

Já sei que alguns me vão responder que é assim pela forma como o sistema eleitoral está montado, porque está ligado a esta ou aquela variável, etc. Eu compreendo e sei isso tudo. Mas não é desculpa. Está errado e há que passar a estar certo, sendo certo também que vou deixar essa matéria para outro artigo.

Continuando no que neste interessa, o segundo vetor de análise assenta numa cada vez mais pronunciada confusão entre o que deve ser um Ministério da Agricultura e um Ministério do Ambiente. E digo que a confusão é esta para não ir mais longe, porque considero que havendo um Ministério da Agricultura devidamente capaz e dotado dos meios técnicos e humanos, bem como de verbas bastantes para tutelar a área como deve ser, não há necessidade absolutamente nenhuma de haver um Ministério do Ambiente.

Os ambientalistas por excelência são os agricultores. Seja no desenvolvimento agrícola, agroalimentar, no desenvolvimento rural, no bem-estar animal, no equilíbrio dos ecossistemas, mas também no que diz respeito ao ordenamento do território, clima e conservação da natureza – e, atualmente, as três últimas dinâmicas que elenquei estão afetas ao Ministério do Ambiente, e não ao da Agricultura, o que, a meu ver, é um disparate absoluto.
O terceiro e último vetor, que no fundo resulta da confluência dos dois anteriores, é a pressão política e social exercida nos Executivos por derivas puramente ideológicas e radicais que assentam a sua visão do mundo em entendimentos contranatura, isto para não os classificar como integrantes do foro patológico.

Estas visões, aproveitando-se das fraquezas políticas do setor anteriormente explanadas, pretendem enfraquecer cada vez mais o Ministério da Agricultura. 

Fazem-no esvaziando as competências que sempre sobre a sua tutela se encontraram, dando antes força à tal pseudodenominada visão ambientalista do mundo que tem como interesses, apenas e só, menorizar o agricultor e o seu papel na sociedade, complicar/impedir o cultivo e produção agrícola de determinadas culturas, destruir o tecido agrícola, destruir a indústria da carne, da caça, da indústria taurina e de tudo quanto envolva animais desde que a sua existência não seja encarada, como deve, para servir o homem.

Tanto é que o episódio a que recentemente assistimos em Santo Tirso, e que teve como expoente máximo o anúncio, feito pela ministra da Agricultura, de que a tutela dos animais de companhia passaria para o Ministério do Ambiente e da Ação Climática (nome socialista pomposo mas que ninguém sabe o que significa na prática), é a mais clara demonstração de um aproveitamento político que serve todos os objetivos antes expressos.

Se tal vier realmente a verificar-se, estamos perante um claro atentado contra o Ministério da Agricultura e, muito em particular, contra a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, lamentando eu, desde já, a demissão do diretor-geral de Veterinária, Fernando Bernardo, dado que quem devia demitir-se não era ele, mas a cambada de incompetentes que nos governam.

O que se passou em Santo Tirso foi aflitivo? Foi. Foi triste? Foi muito triste. Mas foi sobretudo o pretexto ideal para que os tais ambientalistas e animalistas raivosos e doentios (de que o PS está também refém) retirassem do Ministério da Agricultura a tutela dos animais de companhia. Se não fosse esta tragédia, não teriam forma de o fazer. 

No entanto, esquecem-se de que os animais não morreram por alguma falha ou negligência do Ministério da Agricultura ou da DGAV. Morreram por culpa de um Estado central podre e bafiento, preso a derivas ideológicas absurdas, que insiste em atribuir competências às suas instituições sem lhes garantir a forma de as executar. 
Havendo problemas, a sua resolução é à socialista – das duas, uma: manda-se dinheiro à fartazana para cima da mesa para calar o pessoal ou cortam-se umas cabeças menores, baralham-se as cartas e volta-se a dá-las a jogadores distintos mas com menos conhecimento sobre o jogo que os que antes as tinham. 

Como o dinheiro está escasso, nesta circunstância optou-se pela segunda solução, mas que ninguém se deixe enganar porque o objetivo é claro: destruir a ruralidade, o campo, os ideais do campo, o universo do campo, a multidisciplinaridade do campo, a importância dos agricultores e dos trabalhadores rurais independentemente de terem maior ou menor dimensão, dar mais importância ao animal e cada vez menos ao homem – e aqui, muito concretamente, iniciar, ainda que de forma encapotada, a destruição do Ministério da Agricultura e a inversão total dos princípios da vida.

 

Escreve à sexta-feira

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