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José Alberto Oliveira. A melancolia do poeta

José Alberto Oliveira. A melancolia do poeta

Carlos Fiolhais 06/08/2020 13:15

No seu último livro, Rectificação da Linha Geral, o cardiologista e poeta José Alberto Oliveira traça em alguns poemas a sua autobiografia sumária. 

 

Numa recensão recente, no i, de um livro de Jorge Sousa Braga, alinhei os nomes de alguns outros médicos escritores. Venho juntar mais um a essa lista, o do cardiologista José Alberto Oliveira, que publica poesia desde 1992 (Por Alguns Dias, Assírio & Alvim). Acabo de ler o seu último livro, Rectificação da Linha Geral, saído este ano na mesma editora. Acabada a leitura, para me redimir da minha ignorância a respeito do poeta, fui logo comprar o livro anterior (Passagem, 1998), que também sorvi rapidamente.

Quem é o autor? Ele próprio se apresenta num poema: “Eu sou José,/ o que me pesa,/ e de Oliveira,/ nascido na Beira/ mais baixa (…)” (in “Je suis François…”) . É natural de Souto da Casa, no Fundão (não longe da Póvoa da Atalaia, a terra natal de Eugénio de Andrade), vivendo hoje em Lisboa. O seu dia de nascimento é revelado noutro poema: “Há cinquenta anos/ Neil Armstrong pôs a pata na Lua;/ vinte e cinco anos antes,/ Stauffenberg tentou rebentar/ os cornos de Hitler;/ Petrarca nasceu em tal dia/ de tal mês;/ há sessenta e sete anos,/ às três da tarde,/ nos anexos da escola primária,/ rebentou, de cu para o mundo,/ este que se assina (…)” (in “20 de Julho de 2019.”) O seu signo é, portanto, Caranguejo, como ele próprio confirma noutro poema: “Dragão no zodíaco do Oriente,/ mais comezinho Caranguejo/ (ignoro o ascendente) neste/ mais comezinho Ocidente (decadente,/ talvez pela rima), a sina/ ditada pelos astros, que faço// aqui, com três dedos (polegar,/ médio e indicador da mão/ direita) agarrando a esferográfica? - escrever o que os astros ditam?/ - por que não o fazem eles/ e me deixam ir à vida?” (in “Horóscopo”). O seu primeiro berro está documentado em versos onde diz: “(…) Desde aí/ berrei mais do que devia -/ ninguém pareceu reparar,/ o que revela/ sabedoria” (in “Certidão de nascimento”). Os seus sonhos juvenis são elencados num poema breve: “Ser guitarrista de banda rock,/ monge budista,/ recordista dos quatrocentos/ metros barreiras,/ palhaço pobre/ ou mulher das barbas;/ José Alberto Oliveira, /antes de saber/ quem ele era” (in “Ambições”). No fim foi outra coisa, médico e poeta desiludido com o mundo: “(…) respondi ao censo: que tinha/ uma profissão honrada, mulher,/ dois filhos, alguns gatos/ (a cadela já tinha morrido)/ e, em matérias de religião/ não praticava. Quanto a salvar a pátria// que me perdoassem, mas não queria -/ como a maioria da população/ lamentava as depredações do capitalismo/ e, em momentos mais cismáticos,/ ponderava reavaliar as conjecturas/ do marxismo, mas também disso/ desistia. Os pobres continuariam/ pobres e nem adianta falar disso” (in “Censo populacional”). O poeta deixa no livro uma autobiografia sumária: “(…) fez o que pôde; sendo pouco,/ foi ainda menos do que poderia” (in “Resenha”).

Já em Passagem era patente o seu impulso de autoapresentação, uma “fala do homem nascido”, por vezes de uma forma literalmente lapidar, como no poema “Jao (1952- ).” Quer a Biblioteca Nacional quer a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra confundem-no com José Alberto de Oliveira (1945-), natural de Santo Tirso, também poeta mas que cursou Teologia, e não Medicina. Além dos três livros já referidos, Jao (1952-) tem mais sete livros de poesia: por ordem cronológica, O Que Vai Acontecer? (1997), Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000), Mais Tarde (2003), Bestiário (2004), Nada Tão Importante, Que Não Possa Ser Dito (2007), Tentativa e Erro (2011) e Como se nada Fosse (2015). Além disso, fez traduções, a maioria delas na Assírio & Alvim: por ordem alfabética, W. H. Auden, Russel Edson, Frank O’Hara, Edgar Allan Poe, Li Shang-yin, Charles Simic, Mark Twain e os vários autores dos Poemas da Antologia Grega (2018). As suas influências são, portanto, os anglo-saxónicos e os clássicos, ocidentais ou orientais. O seu sentido de crítica social pode vir de Auden. A ironia pode ter sido bebida em Edson ou Twain. O gosto pela introspecção, em O’Hara. Alguma fantasia, em Poe. A subtileza, em Simic. 

O poema “Novembro” glosa a ilustração da capa, extraída do livro Les très riches heures do duc de Berry (um manuscrito iluminado francês do séc. xv), onde um camponês alimenta os porcos numa floresta, antes da matança. Rectificação da Linha Geral é, todo ele, num certo sentido, um “livro de horas,” pois o tempo está omnipresente. Anoto alguns títulos: “25 de Abril”, “12 Maio de 2017”, “O que fiz no fim de semana”, “Diário,” “Novos apontamentos para um diário”, etc. O poeta interroga-se “O tempo tudo cura?” num poema onde diz que “(…) o Outono/ estende a passadeira de folhas/ proscritas à marcha insistente/ do Inverno” (in “Outra consideração do tempo?”). A verdade é que, para ele, o tempo nada cura.

E para onde vai o tempo? Para o máximo da entropia, como manda a Segunda Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia. O poeta descreve a silenciosa degradação: “Está aí a Primavera,/ neste mês de Março, quase todo Inverno/ (…) Que ruído é este? -/ juntas que cederam a caruncho/ e estalam com a renovação dos parasitas” (in “Selecção natural”). Noutro poema vê-se: “a caminho da podridão,/ da restituição de moléculas/ ao húmus negro da terra” (in “Segunda página”). E, noutro ainda, fala da “(…) resignação e declínio escondidos nas pregas/ dos lençóis, nas engrenagens da entropia/ e no resto zero da prova dos nove” (in “Resistência de materiais). “Prova dos nove” é, de resto, o título da segunda parte do livro (“Rectificação da linha geral” é a primeira), que tem duas óbvias secções: “Novas fora” e “Nada.” 

Enquanto o tempo passa, há que suportar o tédio e a melancolia. Na poesia portuguesa existe uma longa tradição de melancolia que vem de Sá de Miranda e que, passando por Cesário Verde, António Nobre e Fernando Pessoa, chegou à actualidade. José Alberto Oliveira é fiel a essa tradição: “(…) Já não pretendo/ entender nada/ e as perguntas escasseiam;// talvez esteja sentado,/ a puir tédio, em apeadeiro,/ que os comboios ignoram” (in “The little house I used to live in”, um título de Frank Zappa). E, noutra página: “Resigno-me a não buscar/ alívio no tédio, consolação/ na melancolia; nem me dói/ ser quem sou, outro/ caminho não havia” (in “Balada”).

A revolução falhou, como é claro num poema em que o autor, depois de falar do barulho do Maio de 1968 (tinha ele 15 anos), diz: “(…) A minha juventude/ não resistiu a tal ruído./ Sepulto-o/ em quadras nostálgicas,/ amargas/ e com péssima consciência (…)”. E, num poema sobre o nosso 1974 (tinha ele 21 anos): “(… ) Entre o Verão/ quente e o Novembro frio, quase// toda a gente pôde imaginar ser/ quase feliz. Foi quando alguns/ (terei de me incluir?) descobriram/ que a política não era feita// de ideias, nem para ideias, mas/ de conjecturas, cálculos de lucros/ e taxas de juros - uma lição íngreme,/ se comezinha: a desilusão acaba por chegar” (in “25 de Abril”).

O poeta mostra-se nostálgico: “(…) A nostalgia extravasa o poema,/ arruína o ritmo, azeda-o/ com emoções, como canção perdida// na rádio desse tempo. Tropeça na razão,/ essa bizarria do século/ dezoito, quando Deus morria,// e ainda não era legítimo duvidar/ da bondade da tecnologia” (in “Don’t look back,” de novo a música). Verifica a dureza da vida, com a aparente impotência divina: “Sob o mandato/ de Deus Omnipotente/ a criatura afocinha/ no alimento, na fornicação,/ no empenho de salvar/ a pele/ e aquecer os ossos (…)” (in “Trabalho de campo”). Ao ver os peregrinos de Fátima, escreve: “(…) Se não caminho/ convosco não é porque não carregue a cruz// que me pertence, nem porque garanta/ não recear a morte; rezaria a Deus, até /ao Papa, se não conhecesse a minha sorte.” E acentua a sua decepção com o presente: “Já não quero viver neste tempo/ em que a decência deu o peido-mestre/ e o futuro não tem utopia/ que o resguarde. Talvez/ (se for pedido com carinho) /aceite viver mais alguns dias,/ desiludido, mas acomodado” (in “Um país estrangeiro”).

O poeta sabe que o tempo prossegue a sua marcha irrevogável: “(…) Quando acordares/ estremunhado e indisposto/ o mundo terá girado/ mais uns graus/ negando soluções/ que sabes que não procuras” (in “Equação a várias incógnitas”). E não vê lugar para a esperança: “(…) Vem Maio,/ renasce a fé no progresso,/ aumenta a esperança na bruxaria/ tecnológica, até a caridade/ para todos os que já estão fodidos/ e assim irão permanecer/ - os anjos garantem-no” (in “Louvor de Maio”).

O poeta ironiza quanto às contas para pagar: “Houve tempos/ em que se descobriram mundos à custa de pilhagens e kwashiorkor,/ agora, se com algum esforço, cada um/ cumprir o pagamento da apólice/ de seguro, já terá feito muito” (in “A insónia da razão”). Ou, noutro lado: “(…) Até creio no progresso/ se for caso disso. Serei/ um tanto céptico quanto/ à equanimidade da Direção-Geral/ de Finanças, mas quem não é? (…)” (in “Prece pela salvação da minha alma, ainda que seja fátua”).

Convido o leitor a ler o livro. Gostei particularmente dos seguintes poemas (os títulos, alguns inspirados na ciência, são muito bons): “Teoria do conhecimento” (p. 63), “Manual de auto-ajuda” (p. 106) e “A finalidade das espécies” (p. 114).

O livro termina com o poema “Antes que acabe”, onde o autor, em vez de concluir, deixa uma pergunta retórica: “(…) dada a inconsistência do clima/ e a descoberta de novas falhas sísmicas/ nos socalcos meridionais do Atlântico/ Norte (quem antes estava atónito,/ imaginem depois) será decoroso,/ ou mesmo legítimo, exigir conclusões?” Não, não é, concluo eu.

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