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Duarte Miguel Prazeres 04/08/2020
Duarte Miguel Prazeres

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Haja sangue

A transparência e o cuidado na gestão de recursos e negócios do plasma devem ser primordiais como forma de garantir aos doadores que o seu sangue e plasma serão usados, de facto, para salvar vidas.

Ao longo dos tempos, o sangue sempre foi considerado sinónimo de vida. Este simbolismo ganhou expressão concreta no último século com a criação dos derivados do sangue. O desenvolvimento do fracionamento do plasma, em particular, colocou à disposição da medicina produtos hoje imprescindíveis no tratamento das mais diversas condições. Transações de milhões são efetuadas anualmente por uma indústria cuja matéria-prima depende, paradoxalmente, das doações voluntárias e, muitas vezes, graciosas de cidadãos altruístas. 

Metáfora de vida e de morte, o sangue encerra em si um forte valor simbólico. O seu caráter misterioso e místico permeia culturas, tradições e religiões que desde sempre celebraram os seus poderes divinos e curativos. Esta reverência foi-se desvanecendo à medida que a biologia do sangue foi sendo desvendada. Graças ao esforço da ciência, o papel da maioria dos componentes do fluido vital não oferece hoje grande mistério. Uma fração do sangue é ocupada por células especializadas: os glóbulos vermelhos transportam oxigénio, os glóbulos brancos combatem infeções e as plaquetas produzem coágulos que impedem hemorragias fatais. Separadas as células, sobra a parte líquida ou plasma, que contém proteínas (incluindo albumina, imunoglobulinas e fatores de coagulação), sais minerais e outras substâncias dissolvidas em água. Distribuídos pelo corpo por uma rede imensa de artérias, veias e capilares, os nossos seis litros de sangue percorrem num dia uma distância equivalente à que separa Lisboa da Nova Zelândia.
O desenvolvimento do fracionamento de plasma está intimamente ligado à ii Guerra Mundial [1]. Cientes de que a maioria das mortes em campo de batalha resultam da perda de sangue, as forças armadas americanas encetaram a procura por derivados de sangue que fossem estáveis, seguros e compactos, e pudessem substituir o sangue inteiro. Neste contexto, solicitaram em 1940 ao dr. Edwin Cohn, um bioquímico da Universidade de Harvard, que identificasse no plasma bovino uma matéria-prima abundante, um substituto transfusível alternativo. À época, a investigação de Cohn em química-física de proteínas era de cariz fundamental, com foco clínico mínimo. Porém, o saber científico acumulado permitiu à equipa de Cohn criar um método inovador que produzia frações ricas em albumina, a proteína dominante no plasma. Face às semelhanças com a sua congénere humana, a albumina bovina surgia, assim, como um substituto ideal para o plasma total. No entanto, e apesar de resultados clínicos iniciais promissores, reações adversas nos recipientes de albumina bovina acabariam por condenar o projeto de fracionamento de plasma bovino.

Face ao insucesso clínico da albumina bovina, Cohn orientou os seus esforços para o plasma humano. Utilizando o mesmo método, obteve uma albumina humana pura que apresentou efeitos notáveis quando injetada em pacientes com elevadas perdas de sangue. O facto de uma unidade de transfusão de albumina pesar cerca de um sexto de uma unidade equivalente de plasma seco constituía uma propriedade particularmente útil em termos logísticos. A explosão da procura militar pelas frações de albumina que se seguiu levou à criação de toda uma estrutura de recolha de sangue assente em milhões de doações civis. No final da guerra, milhares de soldados tinham sido salvos por transfusões com albumina humana. Para além da albumina, o método de Cohn viria a ser adaptado para obter do plasma outras proteínas clinicamente úteis, incluindo o fibrinogénio e imunoglobulinas. Nascia assim a indústria de fracionamento do plasma, que rapidamente se tornou global e cujos produtos viriam a ter um impacto impressionante na medicina civil. [1]

O fracionamento do plasma assenta na dádiva. Sem doações, a matéria-prima não existiria. Hoje em dia são fracionados perto de 40 milhões de litros de plasma por ano, com os produtos gerados por cada litro a valer cerca de 700 dólares. O valor terapêutico dos derivados do plasma criou, assim, um mercado de 30 mil milhões de dólares. [2] A tecnologia de fracionamento, herdeira do método de Cohn, está hoje bem estabelecida e encontra-se ao alcance de qualquer sociedade tecnológica medianamente desenvolvida. Apesar disso, o negócio é dominado por uma mão-cheia de empresas poderosas que atuam a nível mundial, fracionando o plasma angariado nacionalmente e devolvendo os seus derivados. Sendo certo que esta dependência radica muito na falta de iniciativa empresarial e de vontade política, a verdade é que os contornos dos negócios do plasma são, de um modo geral, pouco claros. No meio desta turvação, milhões de litros de plasma são desperdiçados de forma leviana perante a apatia generalizada. 

Os derivados do plasma são fundamentais no tratamento de anemias, imunodeficiências, hemofilia, queimaduras e traumas, entre outras condições. Mas estes produtos dependem da existência de grandes quantidades de plasma seguro e de qualidade, obtidas com recurso à doação. A transparência e o cuidado na gestão de recursos e negócios do plasma devem, por isso, ser primordiais como forma de garantir aos doadores que o seu sangue e plasma serão usados, de facto, para salvar vidas.

[1] Creager, A.N.H., “What Blood Told Dr Cohn”: World War II, Plasma Fractionation, and the Growth of Human Blood Research, Stud. Hist. Phil. Biol. & Biomed. Sci, 30 (1999) 377-345.
[2] Trias, D., Introducing Plasma Fractionation, Altran Switzerland AG (2019).

 

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