Teresa Rita Lopes. “Nada do que o Expresso apresentou pode ter saído da mítica mala de Mário de Sá-Carneiro.”

Teresa Rita Lopes. “Nada do que o Expresso apresentou pode ter saído da mítica mala de Mário de Sá-Carneiro.”


O Expresso fez a capa e a folia prometendo ter desvendado o último grande mistério do modernismo português: tinham achado a mítica mala de Mário de Sá-Carneiro, atolada de documentos valiosíssimos! Acontece que a montanha pariu um rato, e mesmo o rato cheirava a golpe. Teresa Rita Lopes põe tudo em pratos limpos.


Teresa Rita Lopes é um nome de forte ressonância para todos os que se interessam pela figura e pela obra de Fernando Pessoa, que fica a dever-lhe boa parte da sua longa e póstuma vida editorial. Sem os seus gestos dinâmicos, o espólio do poeta dos heterónimos poderia estar a morar hoje entre paredes britânicas. Foi por pouco. A ela se devem também alguns dos melhores ensaios que sobre a obra de Pessoa e a de Mário de Sá-Carneiro se produziram. A destacadíssima investigadora, “mulher de esquerda interior”,  continua atenta. E não lhe passou ao lado o  penúltimo número da Revista do Expresso, que fez capa da história dos papéis que o poeta Mário de Sá-Carneiro teria deixado numa mala, em Paris, no quarto de hotel em que se suicidou a 26 de Abril de 1916 com cinco frascos de estricnina.

A grande descoberta do Expresso aponta para inéditos de Sá-Carneiro, saídos da famosa mala nunca recuperada, e agora aparecidos em lugar improvável – o espólio de Aquilino Ribeiro, que se encontrava na capital francesa nos anos que foram conduzindo Sá-Carneiro ao desfecho fatal. Na opinião de Teresa Rita Lopes, é caso para dizer que a montanha de “emaranhada prosa” publicada naquele semanário pariu um rato, sem pernas para andar, inválido.  

Debaixo das fugazes luzes da ribalta cultural, acima da literatura, alvo da curiosidade dos leitores que, vendo agitar-se num jornal a mítica mala perdida, correram a comprar a Revista do Expresso. Assim nos surgiu há dias o poeta de “Indícios de Oiro”. O ruído poderia ser interpretado como o regresso a um tempo em que o debate literário era fundamental, mas na verdade vem comprovar o contrário: a perda da centralidade da coisa literária no discurso cultural, entretanto substituída pelo culto da personalidade literária e pelo fetiche, no seu sentido literal – a substituição de um todo por uma parte simbólica; no caso, a mítica mala de Mário de Sá-Carneiro.
   
Quando é que chegou ao espólio de Fernando Pessoa?
No início de 1970, quando pude vir a Portugal, aproveitando a queda de Salazar (da cadeira ou na banheira) e a consequente primavera marcelista. Estava desde Novembro de 63 exilada em Paris, fugida à PIDE. O Espólio estava a ser inventariado por bibliotecárias designadas para o efeito, em casa da irmã de Pessoa, onde se encontrava a célebre Arca. Uma teósofa, poeta também, que conheci então porque consultei a biblioteca do Centro de Teosofia de Lisboa, Beatriz Serpa Branco, quando lhe contei o meu (casual) papel na manutenção da Arca em Portugal, disse-me, abrindo muito os olhos, que Pessoa me tinha incumbido de lhe preservar o espólio. Ri-me mas nunca mais me esqueci desse vaticínio – que se tornou uma responsabilidade.

Logo a partir daí?
É que lhe contei que, um dia em que fui à Biblioteca do Centro da Gulbenkian, em Paris, soube pelo seu director, o Prof. Veríssimo Serrão, que o espólio pessoano ia ser vendido para Inglaterra! Num terramoto mental, falei com o António José Saraiva, também lá exilado, por sorte irmão do então ministro da Educação José Hermano Saraiva – irmãos muito amigos embora ideologicamente opostos – que, posto ao corrente, mandou imediatamente arrolar o dito espólio, impedindo-o assim de sair de Portugal. Posteriormente, o José Hermano falou disso num dos seus programas televisivos e, com medo que o não acreditassem, acrescentou: “Perguntem à Teresa Rita!” Aqui estou a confirmar gostosamente: foi graças a essa medida que o espólio cá ficou. A família de Pessoa também me confirmou que essa transacção esteve iminente.

E o que aconteceu depois?
Na sequência dessa iniciativa do José Hermano Saraiva, três ou quatro bibliotecárias foram para a casa da irmã de Pessoa tentar catalogar os 27 mil e tal papéis que constituem o espólio. Vim então de propósito a Lisboa, depois de sete anos de exílio, e fui autorizada pelo então ministro Veiga Simão a frequentar esse templo. As pobres bibliotecárias empunhavam os papéis soltos que maioritariamente o constituem, liam-nos em voz alta, e concluíam, desalentadas, sem saber como os catalogar: “O homem era mesmo doido!” Arrumaram-nos em dossiês, com vagos títulos, pelo que, para encontrar o que quer que seja e refazer qualquer conjunto, é preciso percorrê-los a todos, um por um! Mas preservaram-nos – valha-nos isso!

Como é que foram os primeiros contactos com a irmã de Pessoa?
A Sra Dona Henriqueta Madalena era uma senhora delicadíssima, encantadora, que me dizia enternecidamente: “Quem havia de dizer que o Fernando viria a ser tão importante!” – desculpando-se de não terem guardado as cartas que ele regularmente escreveu à Mãe para a África do Sul, desde o seu regresso a Portugal, em 1905, até ao dela, em 1919.

E as dificuldades nesse tempo, eram mais que muitas?
Tive que comprar uma máquina de fotocopiar – uma bisarma, nessa altura – que funcionava em duas etapas: primeiro fazia-se um negativo que, posteriormente, se imprimia. E só estava autorizada a fotocopiar as partes do espólio em relação com a minha tese de doutoramento em curso, na Sorbonne, “Fernando Pessoa et le drame symboliste: héritage et création”, mais tarde publicada, cá e em Paris, com esse título. Todas essas fotocópias se desvaneceram com o tempo. Depois, já em Portugal (para onde vim definitivamente em 1976), continuei a frequentar o espólio, já na B.N., mas ainda directamente os dossiês do material autógrafo. Os microfilmes só apareceram muito mais tarde! O problema-mor então levantado pela abordagem do espólio é o mesmo, então e agora (comodidade à parte de dispor hoje do material microfilmado): 1º: ler a caligrafia do Pessoa, por vezes só adivinhável; 2º: identificar o texto, normalmente em folhas soltas, e integrá-lo no seu conjunto. Quando aparece um texto dactilografado é uma festa! Acontece que Pessoa nunca teve dinheiro para comprar uma máquina: usava as dos escritórios onde trabalhava, enquanto lá estava. A que, nas exposições, mostram como sua era do escritório do seu principal empregador, Moitinho de Almeida.

Quando é que foi a última verdadeira descoberta sobre Pessoa e os seus papéis?
A última ainda deve estar por vir! Não me canso desse rapaz porque continua a surpreender-me.

Pessoa faz algumas aparições no seu muito povoado universo poético. Da leitura da totalidade dos poemas que acolhem Pessoa, fica a sensação de que ele é uma espécie de sujeito de culpa, quer da sua tardia revelação poética, quer da intermitência com que os seus livros de poemas têm vindo a público. Pessoa é, aliás, responsabilizado pelo facto de as suas próprias arcas, com muitos inéditos sequer passados a limpo, terem ficado encostadas por causa da Arca. Pessoa deu-lhe cabo da vida poética?
Não farei como as velhas esposas que dizem ou pensam que desperdiçaram a vida com alguém que as não mereceu. Até porque ele – o meu “ele”! –  me incita a editar e reeditar todos os textos escritos ao longo da minha já longa vida: dele, sobre ele, e meus, somente meus. É o que vou fazer!

Se calhar, brincando, brincando, levei mesmo a sério a tal teósofa que me quis convencer que o Pessoa se tinha servido de mim para fazer com que o seu espólio se conservasse em Portugal. A verdade é que constato que tenho atendido, na vida, primeiro às obrigações e só depois às devoções – e Pessoa, Sá-Carneiro e arredores orfeicos tornaram-se a minha fulcral “obrigação”. Antes de ser pessoana e de partir para o exílio, Pessoa era apenas uma ocasional paixão: era conhecida como autora de peças, representadas e sobretudo proibidas (no Teatro Nacional, em 1962), e também de poemas, nas páginas literárias dos jornais e em colectâneas várias (“Poesia e Tempo”, em 61, com Ramos Rosa e outros do tempo). A “Poesia de cada dia”, como vou chamar à minha “poesia reunida” (que vou editar assim que o Vírus Coroado deixar) foi sempre, ao longo de toda a vida, o diário que nunca escrevi. E os diários a valer não se publicam: não faço esse streap-tease…

Como era a relação entre Pessoa e Sá-Carneiro?
Quando se fala de Sá-Carneiro, Pessoa vem logo à baila: “Ah, o amigo de Pessoa!” Tenho-me manifestado longamente sobre essa relação, essencial para entender Pessoa, que teria sido outro se esse amigo não lhe tivesse acontecido na vida. Para já, Álvaro de Campos não teria nascido: foi para mostrar ao amigo que era capaz de ser mais futurista que os futuristas que lhe enviou, em junho de 1914, a “Ode Triunfal”, logo por ele considerada a obra-prima dessa escola, então na berra, que tinha escolhido Paris para se manifestar. Também o Caeiro, nunca olhado por esse ângulo, foi criado para fazer poemas modernos, até futuristas, como constam numa lista de títulos, que em seguida passou a Campos, depois de o ter inventado, só 3 meses mais tarde (não no mesmo “dia triunfal” como Pessoa fez crer). O facto de ter feito o horóscopo do Orpheu harmonizando os de ambos exprime bem essa interaccção. A obra poética de ambos foi-se manifestando em diálogo, através das cartas trocadas: Sá-Carneiro dizia, no início, considerar-se apenas um novelista e Pessoa tinha-se estreado, na “Águia”, como crítico – o amigo instava-o para que se revelasse o poeta que era.

A história literária chega a apresentar Sá-Carneiro como um epígono de Pessoa…
Não foi, não senhor. Sem o empurrão de Sá-Carneiro, quem sabe se o Pessoa não teria continuado amalhado sob as asas da Águia, nacionalista e saudosista, admirador de Pascoais e Junqueiro! É Sá-Carneiro que o afasta deles: considera-os dois provincianos e ri-se deles. Mal inventa Alberto Caeiro, antes do nascimento de Campos, Pessoa põe esse poeta, então futurista, a dar uma entrevista no Casino de Vigo em que mete a ridículo os seus dois anteriores mestres. Vê, são descobertas como estas que me mantêm fã do “rapaz”. Aliás, já parcialmente feitas no meu “Pessoa por Conhecer”, em1990.

Visto assim, então Pessoa é que sofreu a influência de Sá-Carneiro?
Sim, não no estilo, cada um tem o seu, mas nas opiniões estéticas e até na aceitação dos caprichos do amigo. Aceitou-o como o menino mimado que era – escreveu, quando se suicidou: “Pobre criança!”. Pouco antes de se suicidar, Sá-Carneiro – imagine! – suplicou-lhe que fosse pedir à sua dedicada ama que lhe desse o cordão para ele pôr no prego!

E o Pessoa?
E ele assim fez, para lhe poder enviar com que pagar as suas últimas extravagâncias. “É tão belo fazer asneiras!” comenta numa dessas cartas. E pede-lhe assim desculpa depois de lhe dizer que se vai matar: “Não se zangue comigo!”

Se há suicídios rodeados de preparativos, o de Mário de Sá-Carneiro é um deles.  
O suicídio do Mário foi caso longamente pensado – isto é, preparado e encenado. Vestiu o seu melhor fato, tratou das unhas, emborcou os frascos de estricnina  e deitou-se na cama, à espera do efeito e do amigo Araújo que tinha convocado para ir ter com ele ao Hotel de Nice, a essa hora precisa. Fez tudo como se estivesse a escrever o desfecho duma novela sua. Só não contou com as tremendas cólicas que o acometeram e até o fizeram gritar por socorro. O amigo ainda tentou socorrê-lo, em vão. Não teria gostado de se ver no caixão, desfigurado, a elegante farpela estoirada por todas as costuras.

A posteridade literária, tantas vezes amnésica, também não foi deixada aos cuidados do acaso…
O que ele queria ainda publicar enviou pelo correio ao amigo Pessoa, arrecadado num caderninho – que encontrei e fotocopiei quando mergulhei no espólio, na arca, em casa da família, ainda nos anos 70. Se quisesse que mais algum texto lhe sobrevivesse, Sá-Carneiro tê-lo-ia aí incorporado ou acrescentado. Tive a intenção de fazer uma edição fac-similada desses poemas preparados para a edição de “Indícios de Oiro”, em escrita quase desenhada, mas quando ingressei na Universidade Nova, em 1976, acabei por dar cópia desse caderno ao então meu assistente, Fernando Cabral Martins, que sobre o Mário de Sá-Carneiro fez a tese de doutoramento, que dirigi e, mais tarde, uma edição dessa obra para a Assírio & Alvim.

Na arca do Pessoa havia mais alguma coisa de Mário de Sá-Carneiro?
Também nessa arca encontrei o bilhete que escreveu a Pessoa antes de emborcar a estricnina, de que o Expresso fala: “Um grande, grande abraço do seu pobre Mário de Sá-Carneiro” –  deixado bem à vista do amigo que convocou para assistir à sua agonia e fazer esses recados. Publiquei-o pela primeira vez na exposição pessoana que organizei em 1981, na Fundação March, em Madrid, e foi, depois, itinerante por toda a Espanha: “F. Pessoa, el eterno viajero” (título também do catálogo). A seguir, em 1983, viajou pelo Brasil: traduzi o título da exposição e do catálogo para “ F.P. Hóspede e Peregrino”.

E Portugal, não teve direito a essa exposição?
O Vasco Graça Moura, então à frente da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, impediu que a exposição fosse feita em Portugal para não ofuscar a edição da “Fotobiografia” de F.P., da sua amiga M.ª José de Lencastre então publicada, por sinal elaborada com material recolhido por mim directamente na arca e a ela fornecido clandestinamente pelo fotógrafo José Fabião que o Instituto Português do Livro tinha posto ao meu serviço para fotografar o material da arca, a usar na exposição e no respectivo catálogo… No comment!

No seu penúltimo número, a Revista do Expresso agitou a famosa mala perdida de Mário de Sá-Carneiro e diz que, afinal, nem tudo é perdido. Há papéis agora aparecidos no espólio de Aquilino Ribeiro. Como é que lá terão ido parar?
Não importa saber quem confiou essas peças a Aquilino, alguém lhas deu, é tudo! É apenas evidente que nada disso poderia ter saído da mítica mala. Da mesma forma que se vestiu elegantemente e até tratou das unhas e do cabelo antes de se estender na cama a esperar pelo efeito da estricnina, Sá-Carneiro cuidou da apresentação para a posteridade de toda a sua obra. Só não teve tempo de publicar o seu segundo livro de poemas, “Indícios de Oiro”, que para isso enviou, pelo correio, a Pessoa, pouco antes do agendado suicídio, prontinho para publicação. Se quisesse que algo mais lhe sobrevivesse, tê-lo-ia igualmente confiado a Pessoa, até pelo mesmo correio.

Então, nada do que estava no interior da famosa mala pode ter reaparecido no espólio de Aquilino Ribeiro, como diz o Expresso?
Os documentos relacionados com Mário de Sá-Carneiro que agora apareceram no espólio de Aquilino não estavam certamente na célebre mala, retida em Paris, no Hotel de Nice, pelo respectivo gerente que reclamava o pagamento da conta em dívida. O articulista do Expresso [João MCDonald] embandeirou em arco afirmando que “este espólio é uma evidência material que acresce à tese de o contido na mala não ter desaparecido na totalidade”. Acontece que as peças por ele aí apresentadas é que são a própria “evidência material” de que não podem ter pertencido ao dito espólio.

E porquê?
Comecemos pelo “certificat d’inhumation” do cemitério em que foi enterrado, fornecido 21 anos depois, em 2.11.37. Inútil explicar essa impossibilidade material! Esse certificado e um B.I. apareceram no dito espólio do Aquilino bem acomodados dentro de um exemplar de “A Confissão de Lúcio”, dedicado a Carlos Alberto Ferreira em 11.12.1913, que também não tem qualquer sentido que estivesse na Mala: é evidente que teria sido então entregue ao amigo por Sá-Carneiro, na data EM QUE O DEDICOU, estavam ambos em Paris e em contacto. Note-se que assim continuavam na data da morte. Tudo indica que foi Carlos Alberto Ferreira, ou alguém por sua indicação, que posteriormente entregou esse livro a Aquilino, em data posterior a esse certificado de 1937, assim como os outros documentos fotografados no Expresso.

Que interesse têm esses documentos que foram publicados na Revista do Expresso? Há alguma coisa inédita?
São cópias de dois poemas conhecidos, uma lista de obras escritas entre 4.9.13 a 31.8.14, e um envelope, tudo sem qualquer interesse também. Consta ainda, nesse espólio, um caderno escolar, dos tempos do liceu, onde  Sá-Carneiro colou textos seus por si publicados em jornais e revistas, em 1908-9. Paremos para pensar. Não tem qualquer sentido que Mário de Sá-Carneiro tenha levado consigo para Paris, para os sucessivos quartos de hotel que ocupou de 1912 a 1916, com muitas idas e voltas à casa de Lisboa, essas ingénuas e antiquíssimas produções de 1908-9, todas já por ele publicadas. Aliás, repare que já todas foram dadas a conhecer anteriormente por alguns estudiosos como curiosidades da juventude, com excepção de cinco: aquelas que o Expresso erradamente indica como “INÉDITOS”, embora o próprio autor do artigo diga que os versos foram publicados pelo Sá-Carneiro em “Os Ridículos”. São poemas satíricos e uma prosa, da mesma altura e índole, esta em jornal não identificado. Pena que não nos dê a conhecer, apenas os fotografem, em tão pequeno tamanho que se tornam ilegíveis.

Não faz, pois, nenhum sentido que os tivesse consigo quando se matou?

E por que carga de água o Mário os teria consigo?! É evidente que essas jocosas versalhadas e o conto de uma página, sobre “uma récita de amadores”, estariam acomodados em Portugal, na casa familiar. Se lhes tivesse dado valor, Sá-Carneiro tê-los-ia publicado em livro, como fez com as suas três obras de ficção e o volume de poemas “Dispersão”, ou tê-las-ia confiado a Pessoa, juntamente com o manuscrito de “Indícios de Oiro”, que lhe enviou de Paris, pelo correio, antes de se matar. As únicas coisas de valor que desapareceram com a dita mala foram as 8 a 10 páginas de um conto, “O Mundo Interior”, que tinha lido a Pessoa, e as preciosas cartas que este lhe escreveu – mais de uma centena.

No meio de tudo isto, que papel cabe ao leitor que, de olho na mala, correu a comprar o Expresso?
De fazer a sua opinião, ora essa! Para isso me apurei a pôr em pratos limpos quatro emaranhadas páginas de prosa.

Que será feito dessa mala?
A mítica mala foi seguramente posta no lixo ou pelo gerente do Hotel de Nice, em que se matou, quando desesperou que lhe pagassem a conta, ou pelo que lhe sucedeu, quando o hotel foi vendido. Nem o pai nem o avô de Sá-Carneiro quiseram pagar os duzentos e tal euros da dívida! O Pessoa bem escreveu à direcção do Hotel de Nice a reclamar a tal novela em embrião…mas sem resultado. O que o gerente esperava era o dinheiro em dívida – e desse o Pessoa não dispunha. Por mim, lamento profundamente a perda das cartas. Ainda em Paris, dediquei-me longamente, em francês (na revista “Europe” e no prefácio à tradução da poesia de Sá-Carneiro), a um assunto a que estou agora a voltar: o “Diálogo numa alma”, expresso nessa correspondência, entre 1912 e 1916. A expressão é de um dos últimos poemas de Pessoa, de 11.12.34, dedicado a Sá-Carneiro, em que com ele marca encontro para se consagrarem a um novo “número de Orpheu”. Como o pintor,  meu grande amigo, Mário Botas previu, num dos seus maravilhosos quadros, Mário de Sá-Carneiro é presença indissociável da família heteronímica pessoana.

Que lhe parece, este caso do Expresso? Mera desatenção? Encenação? Avidez?

Não tenho o hábito de adjectivar procedimentos alheios, limito-me a tentar esclarecer o leitor, que fará a sua opinião. Quando se trata de denunciar a desfiguração do texto pessoano, como acontece com as edições da Imprensa Nacional, pagas pelo erário público, desde 1990, sob a orientação de Ivo Castro, continuadas por Jerónimo Pizarro, seu discípulo nesse malfadado método “critico-genético”, e outros seus associados, ah sim, aí denuncio de dedo espetado o que é um crime de lesa-cultura. Ivo castro declarou num opúsculo, “Editar Pessoa”, que quem já tenha escrito ou dado aulas sobre Pessoa  não terá a objectividade necessária para se dedicar a essas edições! (isto para justificar  a sua total ignorância do assunto!). Jerónimo Pizarro, que foi meu aluno, e iniciei na leitura dos textos pessoanos, entrou para essa “Equipa Pessoa” e, como eles, anda por aí, agora na Tinta-da-China, a desfigurar os textos pessoanos, reescrevendo-os segundo esse malfadado método “crítico-genético” que tenho longamente – e inutilmente – denunciado.

No curso do rio das edições de Pessoa correu já muita tinta …  Podemos esperar ainda pelas suas próprias edições?
Tomara eu que alguém editasse os textos pessoanos, ainda inéditos em grande parte. Inicialmente não queria fazê-lo, o que gosto é de compor os conjuntos que Pessoa não chegou a constituir e de os interpretar. Fui, aliás, convidada para integrar essa Equipa-Pessoa (fiz parte, em 1985, da comissão que lembrou ao Ministério da Cultura a urgência de uma edição crítica), mas recusei. Como não quero morrer sem afastar o perigo dessas edições correntes vingarem (mais do que as “críticas”, da Equipa-Pessoa, para que o leitor comum não tem pachorra), vou criar uma editora “pessoal e pessoana” em que vou publicar, não só os seis volumes da obra essencial de Pessoa que fiz para a Global brasileira (já saíram quatro) mas tudo o mais que o tempo me permitir…e vou também reeditar os meus outros livros, pessoais e pessoanos, quase todos esgotados. Vamos a ver se mo permitirão as minhas “economias de uma vida”, como dizem os lesados do BES… Neste momento, em que o Pessoa é o que está a dar, há imensa gente a encher os bolsos à sua custa – mas eu, que nunca dele tirei proveito material, vou dedicar-lhe as minhas poupanças…