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"Não percebo porque é que a saúde pública há de ser gerida com este amadorismo"

"Não percebo porque é que a saúde pública há de ser gerida com este amadorismo"

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 02/07/2020 09:03

O Presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública alerta para a necessidade de planear e melhorar a comunicação, incluindo nesta fase em que Lisboa é o foco. “Mesmo nos sítios com menos casos não podemos facilitar. Não se pode achar que está tudo resolvido. No fundo foi o que aconteceu em Lisboa e estamos a pagar a factura”, diz.

Quatro meses depois de terem sido detetados os primeiros casos de covid-19 no país, Portugal passou a barreira dos 42 mil casos confirmados e regista 1576 vítimas mortais, a maioria idosos com mais de 70 anos. Nas últimas semanas a grande Lisboa dominou as preocupações e foram detetados novos surtos. Para o presidente da Associação Nacional Médicos de Saúde Pública, houve falhas no planeamento do desconfinamento e nas mensagens à população. Ricardo Mexia identifica as celebrações do 25 de Abril e 1o de Maio, no final do estado de emergência, como o momento de viragem. Defende mais transparência nos dados, um reforço das equipas de saúde pública que não seja uma “manta de retalhos” e equipas de intervenção rápida para responder a surtos. Lamenta a desvalorização que houve da situação em Lisboa e recusa agora a ideia que se passou de estar tudo bem a estar tudo mal. “Não correu assim tão espetacularmente na fase inicial nem agora é uma catástrofe”, diz.

Passam quatro meses desde que foram detetados os primeiros casos de covid-19 em Portugal. Disse-me que lhe pareceram quatro anos. O que tem sido mais exigente ao longo deste período?

Julgo que houve questões profissionais e pessoais que nos obrigaram a todos a uma adaptação muito grande. Na saúde pública houve uma pressão muito grande em termos de solicitações e isso tem levado a um grande desgaste das equipas. Muitos dos colegas estão a trabalhar há quatro meses de forma quase ininterrupta, com poucas ou nenhumas folgas e com uma pressão enorme para responder a todas as solicitações.

Havia avisos para pandemias, tem sido dito no entanto que nenhum país estava totalmente preparado. Cá o edifício da saúde pública era especialmente frágil?

Isso é verdade, nenhum país teria resposta ao nível do que é exigível para algo deste género. Mas em Portugal de facto a saúde pública tem uma estrutura frágil. Existe uma grande escassez de recursos humanos. Temos poucos médicos de saúde pública, temos poucos enfermeiros de saúde comunitária.

E isso já se sentia no dia a dia?

Mesmo sem se estar no contexto pandémico essa já era a realidade. Basicamente fruto de uma tarefa que pouco ou nada tem a ver com a saúde pública, que são as juntas médicas, os colegas foram sendo absorvidos para isso. Em alguns sítios, 60% ou 70% do tempo de trabalho dos médicos de saúde pública está, ou estava, votado às juntas de médicas de avaliação de incapacidade. Portanto tudo o que são tarefas de vigilância e promoção da saúde acabavam por ficar prejudicadas, seja questões de promoção da vacinação ou a identificação de problemas na comunidade. Se tivéssemos recursos e disponibilidade temporal, poderíamos fazer mais e melhor pelo país e contribuir para a sustentabilidade do próprio sistema de saúde. Sabemos que além de termos capacidade para tratar as doenças é importante que consigamos evitar que surjam e é aí que entra também a saúde pública.

A pandemia expôs essa lacuna ao nível da prevenção?

Acabamos por ter carências de recursos humanos em volume mas também em diferenciação. As pessoas acabaram por não seguir esse caminho e ficaram circunscritas a essas tarefas. Depois não temos sistemas de informação adequados ou até meios de deslocação adequados e às vezes temos unidades responsáveis por territórios com uma grande dispersão geográfica.

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