14/7/20
 
 
Da velha estante – o primeiro Lucky Luke

Da velha estante – o primeiro Lucky Luke

Ricardo António Alves 01/06/2020 19:28

Morris estava longe de imaginar que a personagem que criara para o Almanaque Spirou em 1946 viria a ser um dos maiores ícones dos quadradinhos mundiais

No fim da ii Guerra Mundial, o jovem Maurice de Bevère (1923-2001) trabalhava nuns estúdios de animação em Bruxelas, na companhia de outros futuros talentos da BD: Franquin (Spirou e Gaston), Peyo (Schtroumpfs) e Eddy Paape (Luc Orient). A concorrência dos grandes estúdios norte-americanos era avassaladora e a pequena empresa fechou. Os jovens viraram-se para a banda desenhada, atividade supostamente contígua; porém, como viriam a descobrir, a linguagem é outra e de outra natureza é a arte praticada.

Morris – nome artístico de Maurice, homofonia adotada para sempre – estava longe de imaginar que a personagem que criara para o Almanaque Spirou no fim de 1946, figurando numa breve narrativa intitulada Arizona 1880, viria a ser um dos maiores ícones dos quadradinhos mundiais no que respeita a difusão e popularidade. Chamava-se Lucky Luke, personagem de que nunca mais se desligou, sendo um dos raríssimos casos em autores de BD a trabalhar exclusivamente a mesma figura. Até Hal Foster, que não imaginamos a fazer outra coisa que não o Príncipe Valente, desenhou previamente um Tarzan…

Em 1948, Morris partiu para os Estados Unidos na companhia de Jijé e Franquin e por lá ficou seis anos a trabalhar. Em Nova Iorque, três anos depois, irá dar-se um encontro decisivo com René Goscinny, decisivo para ambos, pois será em consequência dele que o futuro criador de Astérix se lançará como argumentista de BD.

O Lucky Luke inicial tem ainda características de boneco para animação: traços muito arredondados, quatro dedos em cada mão, mas também já algumas das características que o distinguirão: tiro certeiro, um punch de aço, espírito abnegado e corajoso.

Este primeiro álbum, publicado em 1949, traz duas histórias: “A Mina de Ouro de Dick Digger” (1947) e “O Sósia de Lucky Luke” (1951). Na primeira, o mapa de uma mina de um velho pesquisador é roubado por dois bandidos, com o jovem cavalheiresco prometendo à mulher de Dick Digger a sua recuperação; na segunda, Mad Jim é um desperado que aterroriza o Arizona; acontece que é também um sósia de Luke, vestindo a mesma indumentária: este é capturado e Mad Jim faz-se passar pelo nosso herói. Jolly Jumper, porém, que à época ainda não aprendera a jogar xadrez, não se deixou enganar. A narrativa termina com o original a abater a cópia. No tempo de Morris a solo, Lucky Luke matava; Goscinny acabou com isso.

A partir de Carris na Pradaria (1955), o argumentista vem acrescentar ao carisma inicial um refinamento no humor e um caráter menos naïf, além do cómico de situação, reinventando uns primos Dalton (os irmãos originais haviam também sido mortos pelo cowboy solitário) e o cão mais estúpido do Oeste, Rantanplan. Depois vieram livros como O Juiz, O 20.o de Cavalaria, A Caravana, Calamity Jane, Canyon Apache, ou Os Dalton no Psicanalista, entre outras obras-primas.

Lucky Luke – La Mine d’Or de Dick Digger

Texto e desenhos: Morris Edição: Dupuis, Marcinelle, 1969

Edição portuguesa: Asa, Porto, 2005

Ama No Japão da década de 1960 subsistem, numas recônditas ilhas, um grupo de mulheres, designadas por ama, cuja prática de mergulho em apneia para apanhar crustáceos é ancestral. Num Japão tradicional, estas mulheres de modos livres e naturais – envergam apenas um pano a tapar o sexo – causam a admiração geral pelo modo como agem, inclusive perante os pescadores, por quem não se deixam amedrontar. Nagisa, rapariga de Tóquio, tímida e de educação tradicional, passa uma temporada com elas, deixando para trás um passado problemático. Texto de Franck Manguin, profundo conhecedor e apaixonado pelo Japão, cuja cultura quis estudar após ter lido Kawabata, e desenhos cheios de souplesse em muitos tons de azul de Cécile Becq.

Edição Sarbacane, Paris, 2020.

Sem palavras Realizador, documentarista, argumentista, o belga Joris Mertens estreia-se na BD com Béatrice, história, sem palavras, inspirada num velho álbum de fotografias. Béatrice, balconista num qualquer centro comercial, todas as manhãs vê numa montra uma carteira vermelha que parece aguardá-la. Até que decide levá-la consigo, o que terá como consequência uma reviravolta na sua vida. Escreve o editor que o mito de Fausto anda por perto.

Edição Rue de Sèvres, Paris, 2020. 

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×