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Ruben. Ah!, o Centenário.

Ruben. Ah!, o Centenário.

Teresa Carvalho 26/05/2020 14:03

Ruben A. foi uma ave rara que fez mais deste país. Nele, a vida e a literatura nunca foram territórios demarcados. Viveu com a paixão da intensidade. Faiscou ideias, projectos que a portuguesa mentalidade, enlatada e burocrática, atirou ao lixo. Levantou da tez dos séculos a nossa identidade, modos nossos de sermos e de não conseguirmos ser.  

 


Ao contrário do velho fidalgo Dom Raymundo, o morto-vivo de “A Torre da Barbela” (1964) convidado para as suas próprias festas centenárias, Ruben A., que desapareceu inesperadamente aos 55 anos, a 26 de Agosto de 1975, vítima de ataque cardíaco,  não pode hoje comparecer no seu centenário. É pena, que outra seria certamente a animação. Que festança rija – na verdade, uma “funçanata” – a que prepararam para homenagear o vetustíssimo Barbela, com comissões  e sub-comissões organizadoras e tudo, como competia. Nada faltou: sessão evocativa à meia-noite, pedra nova na tumba, propositadamente desenhada, brados fortes, honras de administração pública, tentações financeiras, hasteamento de bandeiras, festivais poéticos, culturais e taurinos, beberetes, fanfarras, girândola de foguetes, petardos monstros a encerrar, “todos os ingredientes de magno acontecimento”. Entrudo humano, dirá o irónico narrador que conhece bem as linhas com que se cosem os centenários. A Dom Raymundo, já sem voto na matéria e a quem queriam imortalizar sem autorização prévia, coube-lhe amargar: “Tinham-lhe programado o Centenário e a isso é que ele não podia fugir”. Registaram-se justificadas ausências: figuras em adiantado estado de senilidade, poetas de segunda categoria que não fizeram falta nenhuma.

O requinte da inteligência, os modos desconcertantes, a irreverência bem humorada   e uma espécie de energia sem freios reuniram-se em Ruben Alfredo Andresen Leitão (1920-1975), um sujeito que nunca andou à procura do mundo, este é que andava à [sua] procura – “O Mundo à Minha Procura” (1964-1968), assim intitulou justamente a sua autobiografia, composta por três volumes. Achá-lo, não é tarefa fácil, porque na sua obra diarística e autobiográfica as fronteiras entre a verdade existencial  e os artifícios da ficção podem esbater-se de tal modo que ficamos sem saber onde termina o simulacro da vida e começa a verdade da ficção. O autor espreita pelo postigo da ficção, chega a desnudar-se mas não se expõe.   

Ruben A. não nasceu – há exactos 100 anos – para engrossar o que entendia ser o souflé da literatura que produzíamos,  “um souflé fofo, gordinho e por vezes inchado de condecorações [..] de fácil emborque”. Os  romances que escreveu – “Caranguejo” (1954),  a famosa “A Torre da Barbela”, “Silêncio para 4” (1973), Kaos – num saborosíssimo português, foram cozinhados longe das receitas tradicionais de boa digestão. E com um desembaraço que ia bem com o seu estilo livre e desregrado,  com piruetas de sintaxe, sempre bem ginasticada, e o gosto de saltar fora das palavras.   

Tão-pouco nasceu Ruben A. para se estabelecer comodamente na vida,  para vestir a pele daquela figura a que Pessoa chamou o homem “casado, fútil, quotidiano e tributável”. O mesmo não pode dizer-se de Ruben B., apresentado, em discurso paralelo,  como um homem de família, mulher escolhida com olhos carregadinhos de cálculo e seis filhos,  bom carro e negócios sobre rodas. Este Ruben B.,  que comparece nas páginas do seu diário, é na verdade o seu duplo repudiado, uma existência de papel, a remota hipótese de uma vida mil vezes renegada, encenação (im)possível de si mesmo. Acaso de encontros, os dois Rubens cruzaram-se certa vez no Porto para nunca mais. Era já muito depois dos verdes anos da quinta familiar de Campo Alegre, propriedade da avó Andresen, onde conviveu com a prima Sophia de Mello Breyner. Foram anos balouçados entre o burguês e o aristocrático, com a Granja e Cascais pelo meio mas também a Coimbra boémia onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.

Depois, veio o Alto Minho à beira-mar e o Alentejo dos jorros de luz, vividos em casas várias. José Augusto França,  um dos que integrou a sua imensa roda de amigos, fez notar que Ruben A. se viu obrigado a inventar a própria vida: “O meio onde nasci, o meio da Granja, da Parada, terra sáfara para letras, queria lá saber que parira um letrado”   
Administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda e diretor geral dos Assuntos Culturais do então Ministério da Educação e Cultura, o autor de “O Outro que era Eu” tomou, como poucos, o pulso à vida portuguesa, que o foi desgostando mais e mais: fraquinho, quando não ausente, batimento pacato,  mais que irregular. Ao português, escreveu,  basta-lhe sobreviver, esse o drama nacional. Havia momentos, os de mais funda desilusão (que alternavam com altos entusiasmos), em que parecia dedicar-se à elaboração de uma espécie de teoria do desvalor português em cuja constituição só conseguia ver entrar, como tónicas, a pequenez, o comodismo, a vileza e o ridículo: “Nós éramos um país sem tragédia, apenas de pijama”.  Em “O Mundo à minha Procura (II)” manifesta o autor  uma vontade firme  “de realizar, arrancar, acordar o morto País cujo cemitério pisava todos os dias. Triste Ilusão!”

Londres, que considerava a terra mais civilizada do mundo, que o afastou do vulgar curriculum nacional,  foi a tábua de salvação da sua juventude. Sol de pouca dura. Em finais de 1950, as suas “Páginas II” - espaço de observação e de memória, de comentário de um quotidiano aventuroso e imaginado, onde há lugar para impressões de viagens, diálogos e entrevistas e o mais que cabe numa cabeça humana -  caem na mão de Oliveira Salazar, que logo trata de fazer as vezes do crítico literário,  todo olhos na moral e nos bons costumes, nas higiénicas regras do bem escrever: “o livro, ou é de um louco  ou de um sujeito que, tendo dinheiro para pagar um livro de dislates, se  propôs rir-se de todos nós. Há páginas inteiras completamente ininteligíveis e irredutíveis na análise das regras da gramática portuguesa, recheada de termos de invenção do Autor e formadas sem tom nem som. Explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco, não só da língua literária mas do falar corrente”. E rematava: “O autor não pode representar Portugal nem ensinar português”. A Inglaterra  da liberdade transforma-se em terra de impossibilidade. Ruben A. abandona, não sem amargura, o cargo de Leitor do King's College. Haveria de Voltar a Inglaterra, mas já a vida prematuramente se lhe gastara.

Diga-se, no entanto, que a primeira hipótese avançada  por  Salazar não é de arredar: Ruben A. foi um louco extraordinário. E o seu romance mais célebre, “A Torre da Barbela”, agora reeditado na colecção Miniatura da Livros do Brasil para assinalar o centenário do escritor, faz prova disso mesmo. Publicado em 1964, amargávamos já com os estragos de mais de três décadas de ditadura, é um livro admirável, de acentuadas singularidades no contexto da ficção portuguesa contemporânea, a  oferecer-nos um variado painel que recobre os nossos oito séculos de História. Roda em torno de uma secular família (síntese de Portugal)  cujos membros, de épocas históricas muito diversas, levantam a tumba ao anoitecer e saem para conviver no espaço comum do solar da Torre.

Se compararmos os trabalhos que os Barbelas mais antigos, espécie de reformados de epopeia, tinham em mãos antes de a morte os surpreender e os juntar no espaço comum da ficção de Ruben A. com os que envolviam o Dr. Mirinho, figura  que transporta consigo o espaço e o tempo precisos do século XX, este último sai claramente em desvantagem pela força da ironia crítica.  Questionado sobre as funções que desempenhava em vida, responde, com prontidão e notável capacidade de síntese: “Condecorar. Programar. Anunciar [...] muito trabalho.”
 

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