29/9/20
 
 
Vítor Rainho 05/02/2020
Vítor Rainho

vitor.rainho@ionline.pt

O Luanda Leaks é investigação e a Operação Marquês é um julgamento popular...

Um jornalista que tem fontes no Ministério Público, que investiga as pontas soltas conseguidas por essas informações, é um bandido que devia estar preso, mas Rui Pinto, atenção, merece uma estátua e ser condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa. Gostaria de saber se essas pessoas pensariam o mesmo se o hacker tivesse investigado as suas contas pessoais.

A polémica à volta de Rui Pinto, o famoso hacker que originou o Football Leaks e o Luanda Leaks, não deixa de ser irónica: herói ou criminoso, discute-se na praça pública. O mais engraçado nesta história é que muitos dos defensores de Rui Pinto – alguns até desejavam que ele estivesse à frente da Polícia Judiciária, se não mesmo da Procuradoria-Geral da República – são os mesmos que sempre se manifestaram contra a publicação de documentos que estavam em segredo de justiça. Acho que essas figuras não têm qualquer pingo de vergonha na cara e se no passado defenderam, entre outros, Ricardo Salgado ou José Sócrates, por exemplo, contra o jornalismo de investigação, agora acham Rui Pinto um herói! Um jornalista que tem fontes no Ministério Público, que investiga as pontas soltas conseguidas por essas informações, é um bandido que devia estar preso, mas Rui Pinto, atenção, merece uma estátua e ser condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa. Gostaria de saber se essas pessoas pensariam o mesmo se o hacker tivesse investigado as suas contas pessoais – redes sociais, WhatsApp, emails, etc. – e as tivesse vendido a uma revista de mexericos. O que diriam? O mesmo se aplica a todos os outros cidadãos com mais ou menos relevo na vida social. A história é ainda mais deliciosa porque alguns dos grandes defensores de Rui Pinto – e não estou a falar de Ana Gomes, que tem sido coerente ao longo dos anos – sempre defenderam que a violação do segredo de justiça não é mais do que um julgamento popular. Então a divulgação de documentos privados que não estejam na posse da justiça já é uma grande investigação? E os visados não têm direito a um julgamento? Para essas figuras, a história que o i deu ontem à estampa, citando um jornal espanhol, de que António Vitorino, ilustre causídico, terá recebido mais de 325 mil euros num negócio nebuloso entre o antigo embaixador de Espanha e a petrolífera venezuelana, é um julgamento popular... Enfim, que Deus lhes perdoe. P. S. É óbvio que defendo que a justiça tem de fazer o seu trabalho com o material divulgado. Deve investigar e apurar a verdade e levar a julgamento quem tem de prestar contas. 

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