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Greta. COP25: "Os olhos estão postos em vocês"

Greta. COP25: "Os olhos estão postos em vocês"

AFP Filipe Teles 03/12/2019 08:15

O rosto inquestionável do combate às alterações climáticas chega esta manhã a Lisboa. Desloca-se para a COP25, em Madrid, para denunciar a hipocrisia dos líderes mundiais.

Ninguém é indiferente a Greta Thunberg, a jovem ativista ambiental sueca que se tornou conhecida mundialmente pelo seu combate contra as alterações climáticas. Começou o seu ativismo em 2018, quando tinha 15 anos, e em apenas um ano já discursou perante os líderes mais poderosos do mundo, percorreu meio planeta, aglomerou prémios pelo seu trabalho e elevou o movimento “Sextas-feiras pelo futuro” à escala global. O ícone do ambientalismo mundial chega hoje de manhã a Lisboa, à doca de Santo Amaro. O desembarque está previsto entre as 8 e as 9 horas e deverá discursar às 10.

Thunberg ia a caminho do Chile quando o local da COP25 – que se iniciou esta segunda-feira – foi alterado para Madrid, por causa dos protestos no país sul-americano. “A COP25 foi oficialmente mudada de Santiago para Madrid. Vou precisar de ajuda”, escreveu no Twitter no dia 1 de novembro. “Acontece que viajei metade do mundo para o lado errado”.

A jovem sueca conseguiu ultrapassar o imprevisto depois de um casal australiano lhe ter dado boleia no seu veleiro. Não desistiu de viajar de forma sustentável e gastou 21 dias, saindo dos Estados Unidos, para atracar na Doca de Alcântara.

Pouco tempo depois de chegar à capital portuguesa, Thunberg irá partir de de comboio para a capital espanhola por ser a hipótese ecologicamente mais sustentável, mesmo que isso signifique chegar um pouco atrasada à COP25. Se optasse por ir de avião, a viagem seria de apenas 1h20; no entanto, insiste no poder simbólico da sua jornada.

A ativista tem sido muito crítica do establishment político e não quer ser vista simplesmente como mais uma entre as 25 mil pessoas que vão participar na COP25. “Com a mudança da opinião pública, os líderes mundiais também dizem que nos ouviram. Dizem que concordam com a nossa exigência para tomar ações urgentes para enfrentar a crise climática. Mas não fazem nada”, criticou num artigo para o Project Syndicate, organização que aglomera vários órgãos de comunicação, analistas políticos e líderes mundiais, escrito juntamente com outras ativistas. “Vamos denunciar essa hipocrisia”.

“Depois de um ano de greves, a nossa voz está a ser ouvida. Estamos a ser convidados para falar nos corredores do poder”, escrevem na mesma plataforma. Contudo, é também para fora dos corredores onde caminham as pessoas mais poderosas do mundo que Thunberg e o movimento “Sextas-feiras pelo futuro” convocaram uma grande manifestação para 6 de dezembro, em Madrid. Para os líderes presentes na COP25, Thunberg tem uma mensagem simples: “Os olhos de todas as gerações futuras estão postos em vocês”.

COP25 A COP é a Conferência das Partes, enquadrada na convenção-quadro das Nações Unidas para as alterações climáticas. É o órgão supremo de tomada de decisões dessa convenção da ONU. Com 25 mil participantes e 195 países presentes, o secretário-geral da ONU, António Guterres, não esteve com meias-palavras e exigiu mudanças estruturais para combater o aquecimento global, no discurso de abertura da Cimeira do Clima. “A única maneira de acabar com o aquecimento global é limitar os combustíveis fósseis”, alertou, pedindo rapidez no processo de decisão.

“As decisões importantes têm de ser tomadas agora. Os dados mais recentes revelam que alcançámos limites impensáveis”. E, segundo Guterres, temos de repensar todo o nosso modo de vida: “É preciso uma mudança rápida e profunda na maneira como fazemos negócios, como geramos energia, como construímos cidades, como nos movimentamos e como alimentamos o mundo”.

Relatório Oxfam Para vincar o sentido de urgência, a organização não governamental Oxfam publicou um relatório sobre as alterações climáticas que será debatido na cimeira: Obrigadas a deslocar-se das suas casas. A organização alertou que, na última década, 20 milhões de pessoas por ano foram forçadas a deslocar-se dos seus lares devido às alterações climáticas – a principal causa de deslocação. O documento refere que é sete vezes mais provável que alguém seja deslocado por causa de cheias, ciclones e incêndios florestais do que por erupções vulcânicas e terramotos. Os alertas não ficam por aqui. As alterações climáticas podem ser mais prejudiciais do que a própria guerra nesse sentido, ou seja, é três vezes mais provável uma pessoa ser deslocada por causa delas do que por um conflito.

Também é quatro vezes mais provável que esses cenários ocorram em países com rendimentos baixos e médios-baixos – caso da Índia, por exemplo – do que em países com altos rendimentos, como Espanha e Estados Unidos. O relatório acrescenta ainda que a geografia também desempenha um papel, tendo um impacto desigual: 80% dos deslocados vivem na Ásia.

De 2008 a 2018, uma média de cerca de 5% da população de Cuba, República Dominicana e Tuvalu foi obrigada a deslocar-se devido às condições climáticas extremas, “o equivalente a metade da população de Madrid”. E avisa o documento que as emissões de gases per capita em pequenas ilhas-Estado em desenvolvimento representam apenas um terço dos gases emitidos por países com altos rendimentos. “Os nossos Governos estão a alimentar uma crise que está a levar milhões de mulheres, homens e crianças das pessoas mais pobres dos países mais pobres a pagar o preço mais alto”, lê-se no relatório.

“São sempre os mais pobres, os mais vulneráveis, e mulheres em particular, que são mais afetados, explicou Tim Gore, diretor de políticas para o clima e justiça alimentar da Oxfam. “Este tipo de deslocação destrói realmente o tecido social das comunidades”.

 

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