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O Cid da Cidadela

O Cid da Cidadela

Ricardo António Alves 02/12/2019 16:14

E se a Guerra Fria tivesse degenerado, com um conflito nuclear em solo europeu entre os Estados Unidos e a União Soviética?

A história contrafactual oferece possibilidades infinitas, com a vantagem, quanto a nós, sobre outro tipo de narrativas especulativas, de as coordenadas serem mais reconhecíveis.

E se a Guerra Fria tivesse degenerado, com um conflito nuclear em solo europeu entre os Estados Unidos e a União Soviética? E se, em consequência da desarticulação política dos Estados do Velho Continente, a História houvesse tomado um rumo distinto, não tendo sequer ocorrido a revolução portuguesa em 25 de abril de 1974? Eis os pressupostos da série Ermal, da autoria de Miguel Santos.

No hemisfério sul, na capital de uma “província ultramarina”, os colonos portugueses e os que, vindos da Europa, conseguiram escapar, reorganizam-se por ação dos Capitães de Maio, um grupo de militares que tem para si a missão de assegurar a subsistência da nova cidade-Estado. Esta não é mencionada, mas será Luanda – agora com o nome de Cidadela. Este reduto do antigo Império Colonial Português tem de defrontar os coletivistas do exército proletário, entretanto tomado de assalto pela cupidez – o petróleo está ali à mão... –, o que levará a dissensões no seu seio. Tina, uma guerrilheira grávida e destemida, dirá a um tuga: “Uns turras são pela tirania, outros não”.

Dos Capitães de Maio sobressai o Cid, nome de guerra em homenagem a Rodrigo Díaz de Bívar, o Campeador castelhano contra os mouros, no séc. xi. Este Cid da Cidadela, de tez morena e com verbo fácil e cultivado, está em missão com o fim de captar o auxílio de um grupo armado não alinhado, como aliados contra os totalitários. Com a Cidadela envolvida por forças hostis, o inimigo do inimigo, aliado pode ser.

A paisagem é a savana, e os bichos são os carros de combate, ou o que dentro deles evolui, não faltando mercenários e peões a falar o africânder (os sul-africanos) e o castelhano (os cubanos). As imagens dessa movimentação de homens e armas evocaram a este leitor a célebre batalha do Cuito Cuanavale, o maior combate terrestre a ter lugar após a ii Guerra Mundial, tão avassalador quanto inconclusivo, deixando marcas nos contendores, em especial nos que não tinham ligação àquele solo. Mas isto é a imaginação a funcionar, pois se não houve 25 de Abril, também não se deu a descolonização e muito menos se realizou tão fantástica refrega…

Sementes no Deserto é o terceiro livro desta série, depois de Quando a Guerra Fria Aqueceu e Terra e Sangue. São nítidas as qualidades narrativas: os diálogos, fluentes, rápidos e vivos, quando existem; e quando tal não sucede, a conceção das vinhetas, com recurso a vários planos (veja-se a operação militar, a páginas 26-28), alcança um bom dinamismo – um dos aspetos mais fortes desta BD, em que é visível o gosto de contar uma história original com vivacidade.

Ermal - Sementes no deserto
Texto e desenhos de Miguel Santos
Editora: Escorpião Azul, 2019

 

Desventuras do Himeneu

Tal como Jacobs se retratou fisicamente no Coronel Olrik, arqui-inimigo de Blake e Mortimer, sendo, ao que se sabe, pessoa respeitadora da lei, também George McManus (1884-1954), designer de moda, caricaturou parte da fisionomia, aplicando-a aos traços do castiço Jiggs (que os brasileiros, com propriedade, renomearam como Pafúncio).

Bringing Up Father / Educando o Pai, cujas tiras apareceram na imprensa norte-americana em 1913, conta-nos o quotidiano duma família de novos-ricos. De origem irlandesa, Pafúncio fora um trolha a quem saíra a sorte grande. Impecavelmente vestido (chapéu alto, colete distinto, polainas), bengala numa mão e charuto aceso, nunca deixou de ser um homem simples, cujas ambições, para além do vil metal, se resumiam a umas horas de pândega com os amigos. A mulher, Maggie (Marocas na versão brasileira), antiga lavadeira, deslumbra-se com vestidos, joias, a ópera, a sociedade – um tormento para o pobre cônjuge, que ainda tem de aturar os caprichos sentenciosos da filha, Norah, espécie de pin-up langorosa.

A série anda, pois, à volta destas idiossincrasias de marido pelos cabelos com as pretensões operáticas da mãe e as maneiras dispendiosas da filha, quando não tem de levar com os cunhados penduras, todos cadastrados e recém-saídos da prisão. Escapar-se à família sem ser vítima de violência doméstica é sempre o grande móbil destas tiras, em que o protagonista ora tem êxito ora (na maioria das vezes) soçobra à ira conjugal.

Pafúncio
Texto e desenhos George McManus
Editora: Martins Fontes, São Paulo, 1989

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