Ivan Boesky. Morreu um dos cardeais de Wall Street

Ivan Boesky. Morreu um dos cardeais de Wall Street


O investidor que inspirou Gordon Gekko morreu aos 87 anos.


Se Wall Street fosse conhecida por chorar as suas lendas ao invés de lhes virar as costas, como uma viúva despeitada, esta semana os mercados teriam sido obrigados a respeitar um período de suspensão e luto em nome de ‘Ivan, o Terrível’. Tantos mantras modernos poderiam ser-lhe atribuídos. A começar por este: «Mesmo quando te autodestróis, queres falhar mais, perder mais, morrer mais do que os outros, cheirar ainda pior do que os outros». Afinal, coube-lhe a ele dar o sinal de que a cultura estava a atravessar uma tal mudança para que até os piores crápulas pudessem comprar a sua dose de boa consciência. Nem era algo de inédito, também a Igreja, ao longo de séculos, vendia as suas indulgências, e Ivan Boesky teve apenas a audácia de recuperar a ganância, riscá-la da lista dos sete pecados mortais, notando até que se tratava de um traço saudável. Tendo inspirado a personagem Gordon Gekko do filme de Oliver Stone Wall Street, Boesky acumulou uma fortuna de 280 milhões de dólares (o que equivaleria a mais de 800 milhões nos dias atuais) antes de ser engolido por uma sucessão de escândalos ligados ao abuso de informação privilegiada na década de 80, sendo que, apesar de ter sido preso, o seu verdadeiro legado foi transmitido como um vírus que está vivo e de boa saúde nos nossos dias. «A cultura de mercado é total», escreveu Don DeLillo. «Ela cria estes homens e mulheres. Eles são necessários ao sistema que desprezam. Dão-lhe energia e definição. São orientados para o mercado. São transacionados nos mercados do mundo. É para isso que existem, para revigorar e perpetuar o sistema». Boesky morreu na passada segunda-feira, aos 87 anos, na sua residência em La Jolla, em San Diego.

No fundo, era apenas uma questão de querer tudo mais depressa. O mercado de ações vive de humores, flutuações, e ali o dinheiro é feito através da análise de padrões, rácios, índices, mapas inteiros de informação. Mas há atalhos, conhecendo as pessoas certas, conectando os pontos, é possível passar a perna aos demais. Os ingénuos valem-se da confiança no mercado, nas instituições, mas os que sabem um pouco mais percebem como o fluxo de informação se tornou uma linguagem sagrada, um regime teológico, constituindo a sua classe sacerdotal. É o que são estes titão da finança, os cardeais do cifrão, eles têm a chave que torna legível essas flutuações que os outros observam nos pequenos monitores do escritório, de casa e do carro, e que lhes provocam uma espécie de idolatria. Todo este culto serve para que as multidões possam novamente reunir-se tomadas de uma sensação de fascínio e fervor.

Como lembra o The New York Times, Boesky dizia que não perdia mais do que duas a três horas por noite com o sono, levantando-se às 4h30 da manhã para fazer exercício antes de apanhar uma limusina para o seu escritório em Nova Iorque, onde comandava uma série de terminais de vídeo, notícias e ações, bem como 160 linhas telefónicas e um conjunto de ecrãs que lhe permitiam ver e ouvir os seus empregados em qualquer altura. Vestia-se todos os dias da mesma maneira: um fato preto de três peças e uma camisa branca engomada, com uma corrente de ouro pendurada no bolso do colete. Preferia estar de pé todo o dia do que sentado e quase não comia, consumindo grandes quantidades de café.

Só caiu porque não se dedicou a criar uma estrutura com suficientes pontos de ligação e por trás da qual pudesse desaparecer quando as coisas começassem a dar para o torto. Recebia dicas em troca de malas de dinheiro, e depois de ser apertado pelos investigadores federais, preferiu declarar-se culpado, em novembro de 1986, pagando uma multa de 100 milhões, o que para a época foi um recorde e deu origem a uma onda de choque que durante uns tempos gelou o sangue aos vigaristas de Wall Street. Em troca de uma comutação da sentença (apenas três anos de prisão efetiva), Boesky deu o seu concerto enquanto chibo-tenor, levando à queda do banco de investimento Drexel Burnham Lambert e do rei das ações sucata, Michael Milken.

De lá para cá, a história de Wall Street é feita destes ciclos em que, de tempos a tempos, as autoridades submetem o sistema a um abalo de forma a garantir que tudo permanece na mesma, e os pequenos investidores continuam a ser atraídos a este gigantesco casino, sujeitos à propaganda incessante de um aparelho mediático cúmplice com o esquema, e que diariamente instiga a sua ganância e ingenuidade, levando-os a torrarem as suas economias com dicas que os grandes fundos de investimento sacodem como migalhas da sua toalha, reunindo-os em seu torno até soar a campainha e se dar a chacina seguinte. Meses antes de ir dar com ossos numa cela, no discurso de formatura que deu na escola de gestão da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Boesky leu o primeiro mandamento do novo evangelho: «Eu acredito que a ganância é saudável. Acredito que se pode ser ganancioso e sentir-se bem consigo mesmo e com os seus valores». Os imbecis que acharam boa ideia convidá-lo, e que estavam a oferecer o seu exemplo às novas gerações que lançavam como lobos para o meio das ovelhas, não viram qualquer problema no facto de então ele ser conhecido como ‘Ivan, o Terrível’. Na altura, os títulos da imprensa da especialidade, teciam-lhe loas por ter trazido um estilo agressivo para o outrora adormecido mundo da arbitragem, a compra e venda de ações de empresas que se perfilavam no sentido de ser engolidas por peixes maiores. Ao farejar estas oportunidades de negócio iminentes, Boesky acumulou posições em ações a níveis nunca antes vistos.

Mas aqui voltamos às pérolas de sabedoria de DeLillo, que nos lembra como o fenómeno da reputação é uma coisa tão delicada. «Uma pessoa ergue-se numa palavra e cai numa sílaba». Na altura em que teve de se despedir da sua carreira de investidor, Boesky geria uma carteira de negócios avaliada em 3 mil milhões de dólares (cerca de 8,7 mil milhões de dólares atualmente), grande parte da qual financiada com dinheiro emprestado. Como refere o Times, chamava então doce lar a uma vasta propriedade em Westchester County, Nova Iorque, com a residência principal adornada com um Renoir e tapetes com o seu monograma, ‘IFB’. A propriedade havia pertencido em tempos à família Revson, fundadora dos cosméticos Revlon e, antes disso, da família por detrás da Macy’s, os Strauses. Tinha ainda um retiro na Riviera Francesa, um luxuoso apartamento em Paris e um condomínio no Havai. E, em nome da sua primeira mulher, Seema Boesky, tinha uma participação significativa no célebre Beverly Hills Hotel, um luxuriante edifício cor-de-rosa que acolhia as estrelas de Hollywood, bem como tantos dos titãs da finança que participavam no Predators’ Ball, o encontro anual do Drexel Burnham.

Se por estes dias o seu obituário trouxe algum conforto aos pequenos investidores em todo o mundo, ninguém recordará o nome dos tantos que ele arrastou para o fundo, daqueles que tinham muito menos e perderam tudo. Mas a lenda não perde tempo a anotar os nomes das vítimas.