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Zé Pedro. A vida do gajo mais porreiro do rock‘n’roll português

Zé Pedro. A vida do gajo mais porreiro do rock‘n’roll português

Pauliana Valente Pimentel / KameraPhoto Hugo Geada 29/11/2019 21:20

Zé Pedro é um dos símbolos máximos do rock português e, agora, a sua vida e legado foram revisitados no documentário Zé Pedro Rock‘n’Roll e no livro Zé Pedro: Uma Biografia, títulos que mostram o início do seu percurso e a importância que teve fora dos palcos.

“Quando fiz este documentário quis retratar o músico, o artista, o radiólogo, o musicólogo… Ele não era uma personagem, era um conjunto de personagens que têm como elo de ligação uma paixão enorme pela música”, disse, em entrevista ao i, o realizador Diogo Varela Silva, autor do documentário Zé Pedro Rock‘n’Roll, que vai estar hoje em sessão no Porto/Post/Doc.

Este podia ser o mote não só deste filme, mas também de Zé Pedro: Uma Biografia, livro lançado este mês pela editora Suma de Letras e escrito por André Rito. Os dois autores procuraram não só criar uma obra que imortalizasse a personalidade tão carismática quanto amada do eterno guitarrista dos Xutos & Pontapés, mas mostrar ao público que este era muito mais que apenas um músico.

José Pedro Amaro dos Santos Reis nasceu no dia 14 de setembro de 1956 (“meia-noite de 13 para 14”, como especifica a biografia) e viveu com a sua família nos Olivais, Lisboa, até partirem para Timor-Leste para onde o pai, capitão do Exército, foi destacado.

Desde muito jovem mostrou inclinação para a música: “mal andava mas já dançava”, lê-se logo no segundo parágrafo do livro. Talvez mostrasse mais inclinação e paixão do que talento: no 4.o ano foi dispensado pelo professor do coro uma vez que este “achava que ele não tinha jeito nenhum para a música”. No entanto, a falta de conhecimento em teoria musical nunca impediu Zé Pedro de fazer vida com a sua paixão.

Kalú, o baterista dos Xutos & Pontapés, recorda no documentário, com um sorriso, como o “seu guitarrista” não sabia distinguir um compasso quaternário de um compasso binário. “O Zé nunca tinha ouvido falar desta coisa, por isso disse ‘experimenta o quaternário, se não der mudamos para binário’. Ele não dava parte de fraco”, contou entre risos.

Como castigo por ter chumbado a Francês no sétimo ano, Zé Pedro foi obrigado a trabalhar durante as férias no Diário de Lisboa. Seria com o dinheiro que adquiriu nesta punição que comprou o bilhete para assistir ao seu primeiro concerto: Miles Davis no Cascais Jazz, em 1971. Tinha então 15 anos, e a sua vida mudou para sempre. Numa entrevista recuperada do arquivo da RTP, Ana Sousa Dias pergunta-lhe: “Pensavas que gostavas de ir tu para o palco?” A resposta foi um assertivo sim.

O bichinho dos concertos levou a que fosse ver os Genesis, ainda com Peter Gabriel e Phil Collins na banda, em 1975, no Dramático de Cascais, mas seria em 1977, num interrail com a irmã, que acabou no festival punk Mont-de-Marsan, numa aldeia francesa. Descobriu uma realidade completamente diferente e com a qual viria a identificar-se.

Regressou a Portugal e a primeira paragem foi a casa de banho dos avós, para rapar o cabelo. A segunda seria formar uma banda.

Apesar de não saber tocar, Pedro Ayres Magalhães, vocalista e líder dos Faísca, uma das primeiras bandas punk portuguesas, incentivou Zé a pegar numa guitarra. O resto é história. Ayres apresentou a Zé Pedro Kalú, um beto do Restelo que parecia condenado a trabalhar no negócio de cortiça do pai e que se juntou para tocar bateria. Zé Leonel, então vocalista e letrista deste projeto pré-Xutos, disse a Zé que conhecia um rapaz da Margem Sul que sabia tocar baixo. Um rapaz que “tocou em bandas de baile, orquestras de concurso e que cantara no coro de Almada”: eis que Tim entra no seio do conjunto. Seria assim a primeira formação da banda que viria a mudar o rock português.

As outras vidas de Zé Pedro “O Zé Pedro tinha um entusiasmo muito grande em partilhar o seu conhecimento, era um dos seus traços distintivos. Desde muito novo que não só se interessava em conhecer como tentava partilhar aquilo a que outros ainda não tinham acesso”, explica ao i André Rito.

Este conhecimento quase intrínseco do mundo da música levou a que continuasse a escrever sobre música no suplemento Mosca do Diário de Lisboa. Foi o primeiro em Portugal a escrever sobre Horses, de Patti Smith, ou a colaborar com rádios, como a Rádio Comercial, ainda antes de pegar na guitarra. Seguiu-se a Antena 3, onde apresentava Música Avariada com Henrique Amaro, e ainda passou pela Radar.

Tanto no livro como no documentário são feitas várias referências a Johnny Guitar, nome retirado do filme de 1955, e com o qual Zé Pedro e Luís Tomás, manager dos Rádio Macau, batizaram o seu bar. Neste espaço foi possível ouvir pela primeira vez em Portugal o icónico álbum Nevermind dos Nirvana, um marco dos anos 90. Houve bandas internacionais que aqui atuaram pela primeira vez nas terras de Camões, como é o caso dos Morphine; e bandas nacionais que viriam a dar os seus primeiros passos no bar de Santos, nomeadamente os Da Weasel, que aqui deram o seu primeiro concerto.

Zé Pedro faleceu há dois anos, a 30 de novembro de 2017. Tinha 61 anos e deixou um buraco que ficará para sempre por preencher na música portuguesa e no coração de quem gostava dele.

As duas obras que vieram também assinalar os dois anos sobre a sua partida ajudam ainda a explicar a influência que Zé Pedro teve na cena musical portuguesa, não só diretamente, através da sua música, mas também pelos grupos nacionais que apadrinhou e as bandas estrangeiras que ajudou a divulgar.

E, para os que não se lembram, deixam claro o porquê de os Xutos e, em especifico, o seu guitarrista se terem tornado símbolos tão acarinhados em Portugal. “O difícil de fazer este documentário”, confessa Diogo Varela Silva, “é que não há um contraditório”. “Estás a fazer um documentário sobre alguém que não tem ninguém que não goste dele”. E fica tudo dito.

 

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