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Um pequeno malcriado

Um pequeno malcriado

Ricardo António Alves 28/10/2019 16:36

Titeuf é um reguila desabusado, por vezes malcriado, que quer dar nas vistas para parecer mais importante e mais crescido do que na verdade é.

Titeuf, abreviatura de petit œuf (“pequeno ovo”, por óbvias razões anatómicas), é uma personagem criada em 1993 pelo autor suíço Zep (Philippe Chappuis, Onex, Genebra, 1967), pseudónimo que é uma homenagem aos Led Zeppelin. À partida, “Ovinho” seria uma tradução aceitável para o nome da personagem, não fora esta ser por vezes um bocadito alarve: com cerca de oito anos e um topete que parece uma hipérbole do cabelo de Tintim, Titeuf é um reguila desabusado, por vezes malcriado, que quer dar nas vistas para parecer mais importante e mais crescido do que na verdade é – e também para que as miúdas reparem nele. Um rapazelho como muitos outros, portanto... Até hoje foram editados 18 álbuns, com claro sucesso de público e crítica, tiragens de milhões de exemplares, adaptação a cinema de animação e o merchandising habitual.

Em Petit Poésie des Saisons (de 2005, agora reeditado com nova capa) assistimos ao decorrer das estações do ano, tal como Titeuf e os amigos as vivem; e claro que a poética a que o título alude não pode deixar de ser irónica: a areia da praia intromete-se nos mais recônditos e incómodos interstícios; o salpico de neve que lhe cai em cheio na roupa está longe de ser alvo e imaculado. Quanto ao mais: a escola, o cair da folha e o obrigatório Halloween, no outono; escola, bonecos de neve, frio e o Natal, no inverno; escola, o despertar da natureza e das paixões, as partidas do 1.o de Abril, na primavera; no verão, as férias grandes, as festas... e a escola, a começar no início de setembro, em eterno retorno de trapalhadas, triunfos e desaires à escala minorca, sempre acolitado pela família, a inevitável professora velha e feia, os indispensáveis compinchas e uma certa Nadia, a quem Titeuf arrasta a asa quando distraído das suas atividades mais sérias, ou seja, pregar partidas e fazer que estuda.

Em 2001, Zep e Hélène Bruller, então sua mulher, criaram um livro extra-série, Le Guide du Zizi Sexuel (Aparelho Sexual & C.a, na tradução brasileira), obra pedagógica destinada aos pré-adolescentes que teve a duvidosa distinção de ser apresentada por Bolsonaro, como exemplo do alegado kit gay e incitamento à pedofilia...

A fórmula do gag é clássica: exposição, desenvolvimento e remate, sempre cómico e/ou inesperado. Há um, porém, que foge a esse esquema, o dedicado às mentiras do 1.o de Abril: em seis vinhetas, Titeuf prega partidas em casa e na escola, rindo-se a bandeiras despregadas; na sétima, ao fim do dia, será a vez de a televisão pregar a sua mentira aos telespetadores (assim acreditava o rapaz): uma intervenção militar no Iraque, diz o pivô, fará milhares de vítimas. Titeuf não viu onde estava a graça. Os mentirosos eram outros, já então se sabia.

 

Um exótico suave

Um mapa centrado no Indocuche abre a primeira prancha de O Avião do Nanga (1987), de René Sterne (1952-2006). O nome desta cordilheira afegã tem uma sonoridade com o peso de séculos, tempo que lhe empresta uma aura de terra mítica ou inventada, uma Camelot ou coisa assim. E, no entanto, o Indocuche existe; e ao contrário doutros topónimos congéneres – Cartago, Bagdade, Samarcanda, Timbuctu... – , cujo prestígio lendário pretérito não aguenta o confronto com a realidade presente, o Indocuche, por onde passou um raio chamado Alexandre o Grande e hoje brotam talibãs como as papoilas autóctones, persiste em desinquietar-nos, como uma vinheta de Hermann para um argumento de Greg...

Nessas montanhas, nesse “inferno branco” de neve e solitude, despenha-se um monomotor pilotado por Adler von Berg, um ex-desertor da Luftwaffe (já estamos em 1948), como viremos a saber adiante. Ileso, porém sem rádio e com poucos víveres. Ao longe, um carreiro de formigas é uma caravana de camelos da Bactriana. Um tiro despedido por Adler ecoa por entre as fragas himalaicas. Se ouviram, não se sabe. A meio caminho entre duas cidades, Gilgit e Laore, Adler exclama: “Desta vez é o fim... Estou perdido!” Com as cores frias inicias que lhe deu Chantal de Spiegeleer (Kinshasa, 1957), a mulher do autor que nos é sugerida pela bela irlandesa Hellen, a narrativa suspende-se nas paragens mais garridas e não menos perigosas do mar da China. De Terry e os Piratas a Corto Maltese, a errância e o exótico foram sempre um ingrediente da BD, de aventuras e para além disso.

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