24/10/19
 
 
Alfredo Barroso 07/10/2019
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@ionline.pt

Diário de campanha eleitoral com paiol de Tancos pelo meio

À força de simplificar ideias e conceitos, os demagogos acabam muitas vezes por acreditar que também a realidade se deixará simplificar, rectificar, negar.  

Nesta minha última crónica semanal escrita graciosamente para o i (como para qualquer outro jornal), preferi não esperar pelos resultados eleitorais do dia 6 de Outubro e publicar as passagens mais relevantes do meu diário da última semana de campanha eleitoral. Aqui vai ele:

30 DE SETEMBRO: O ATAQUE DAS “ALBERTINAS” E “INSECTOS-INSULTOS” AO PS Estamos hoje como nos versos em que o Alexandre O’Neil se sentia incomodado com a “Albertina” ou “o insecto-insulto” ou “o quotidiano recebido como mosca”... O carnavalesco assalto ao paiol de Tancos, um dos surripianços mais ridículos da história da ladroagem nacional e internacional, nem merece comparação com a enorme roubalheira – de milhares de milhões de euros – que foi, por exemplo, o “assalto” ao BPN, levado a cabo por militantes e ex-dirigentes do PPD-PSD e ex-membros dos Governos de Cavaco Silva… Mas o grotesco assalto a Tancos excitou as “Albertinas” e os “insectos-insultos” com grandes dores de cotovelo ou contas a ajustar com este Governo de António Costa – sustentado na Assembleia da República pelo PS, o BE, o PCP e o PEV… Tem sido um fartar vilanagem de zumbidos eleitoralistas contra o PS e António Costa, nas TV’s, nas rádios e nos jornais, mas também nos corredores do Palácio de Belém e nos comícios de campanha de Rui Rio (um falso “mosca-morta”) e de Assunção Cristas (que me faz lembrar os anúncios da “Nutribalance”)... E já nem se pode dizer “quem me dera ser mosca”, porque as “Albertinas” e os “insectos-insultos” zumbem e varejam à luz do dia, desesperadamente e sem um módico de vergonha na cara...

30 DE SETEMBRO: MARCELO PR FEZ BIRRA E NÃO ATENDEU ANTÓNIO COSTA AO TELEFONE Não sei se leram bem um texto do Expresso de 28 de Setembro assinado pela “Albertina”, perdão, pela Ângela Silva (que é, de facto a “Albertina” do Expresso a esvoaçar pelo Palácio de Belém), mas vem lá descrita com grande realismo a “birra” do “menino” Marcelo PR, “furioso” por não ter sido defendido em público pelo “menino” António Costa, a propósito das “insinuações” segundo as quais é ele, “menino” Marcelo, o verdadeiro “Papagaio-Mor do Reino” de que tanto se fala... Bem feita, bem feita, bem feita!... Mas de partir o coco a rir é a passagem da “notícia” em que se atribui o título de “Papagaio-Mor do Reino” ou a Marques Mendes ou a Miguel Sousa Tavares ou a José Miguel Júdice... Eu diria que são duas cenas caricaturais, dum “ridículo do caraças”! 

30 DE SETEMBRO: REGOZIJO EM BELÉM: ACHAM QUE A «MAIORIA ABSOLUTA “JÁ ERA”»! Por via do que a mosca “Albertina” que esvoaça pelo Palácio de Belém tem vindo reportar, sobre o “treco-lareco” nos “bastidores” de apoio ao tão actual Presidente da República, percebe-se bem que o “sentido de Estado” fica sempre fora de portas, é lançado às malvas… Reina a euforia naquele Palácio – como se fosse um bando de crianças aos pulos num recreio – já que as “ventanias políticas” parecem correr de feição para esse insuperável “mago dos afectos” que é o “menino” Marcelo PR… Reparem bem nesta frase: «maioria absoluta “já era”»! E reparem nas aspas da expressão “já era”! Interrogo-me sobre quem é que terá andado aos pulos pelos corredores do Palácio de Belém, radiante por julgar que, sem maioria absoluta, será muito mais fácil derrubar um novo Governo a que vão chamar malcriadamente “geringonça”, ou então um Governo reduzido a maioria simples na Assembleia da Republica?! Como todos sabemos, o “menino” Marcelo PR é danado para a brincadeira e gosta muitíssimo de tramar o próximo... 

1 DE OUTUBRO: RIDÍCULO PERFIL DE RUI RIO E OPORTUNISMO DO BE E DA CDU O que sinceramente mais me impressiona quando vejo e oiço Rui Rio a barafustar na televisão é o seu discurso político, porque tem a espessura duma lâmina barbear, a subtileza dum tijolo e a consistência do puré de batata. Dá a impressão de que ele se fia na sua péssima intuição, nos seus rancorosos instintos, e nunca no conhecimento da realidade que o cerca. Rui Rio comporta-se cada vez mais como um demagogo populista e não como um “homem de Estado”. Parece que, como diria Hermann Rausching (1887-1982), “as dificuldades só existem na imaginação”, e que Rui Rio terá compreendido que “as banalidades, quando são ditas com uma forte convicção, actuam como evidências, e nem sempre se fará a diferença entre as ‘grandes ideias simples’ e as ‘pequenas ideias simplistas’”. À força de simplificar ideias e conceitos, os demagogos acabam muitas vezes por acreditar que também a realidade se deixará simplificar, rectificar, negar... Dito isto sobre o actual presidente do PPD-PSD, o que mais me dói é ver o BE encostar-se ao PCP-PEV e às direitas, dirigidas por demagogos de meia-tigela como Rui Rio e Assunção Cristas, para colaborar em mais um episódio carnavalesco da farsa de Tancos, desta vez na Assembleia da República e em plena campanha eleitoral. Que vergonha! Como pude eu estar disposto a votar no BE, supondo que iria com o meu voto contribuir para evitar a maioria absoluta do PS, quando o que agora constato é que há uma conjugação objectiva do PPD-PSD, do CDS-PP, do BE, do PCP-PEV (que é eiro e vezeiro neste tipo de “conjugações”), do Ministério Público e do actual Presidente da República (ver Expresso de 28 de Setembro), para dar cabo de qualquer Governo do PS… Ainda acredito (embora cada vez menos) na hipótese das Esquerdas terem de se “conjugar” para sustentarem um Governo do PS. Mas receio bem que, se isso acontecer, o BE, o PCP-PEV, o PPD-PSD e o CDS-PP, à primeira grande contrariedade – e em simultâneo com os principais sindicatos da esquerda (Professores, Funcionários Públicos e etc.) e da direita (Enfermeiros, Médicos, Camionistas de matérias perigosas e etc.) –, não hesitem, uma vez mais, em conjugar-se objectivamente para permitirem que este Presidente da República dê cabo desse Governo do PS dissolvendo a AR. É que ele anda “danadinho” por fazê-lo, e só não o fará se não for reeleito...

2 DE OUTUBRO: “EIS SENÃO QUANDO (CASO NUNCA VISTO) SAI-LHE UM PAIOL DE TANCOS DE DENTRO DA MAGISTRATURA”  Ainda antes do Ministério Público dar o “golpe”, atirando com a “farsa de Tancos” para o meio da campanha eleitoral, o insolente Rui Rio, tal como Calígula segundo Suetónio, “tinha também o costume de se queixar abertamente da condição dos tempos em que vivia, pois não os via assinalados por nenhuma grande catástrofe pública”. Mas, eis senão quando (caso nunca visto) sai-lhe um colchão – perdão – um paiol de Tancos de dentro da magistratura. Não é propriamente a “sátira dos penteados”, de Nicolau Tolentino, é apenas mais uma incrível “farsa” de maus costumes (políticos) de um Ministério Público antidemocrático que se julga impune. O que até levou o actual presidente do PPD-PSD a cometer a sua maior contradição. Se bem se lembram, Rui Rio dizia – e repetia – que aquilo que mais deplorava, relativamente ao mau estado da Justiça em Portugal, eram os “julgamentos levados a cabo na praça pública” pelos órgãos de comunicação social e pela opinião pública, antes mesmo de qualquer acusado ser julgado em tribunal e ser, eventualmente, condenado ou absolvido… Pois agora é o próprio Rui Rio, presidente do PPD-PSD, que pretende - escandalosamente e por conveniência política – levar a cabo, sumariamente, o julgamento da “farsa de Tanco”, querendo até juntar-lhe mais um acusado… O político Rui Rio é, de facto, uma enorme desilusão e um grande fiasco! Mas nem que tenha um bom resultado nas eleições eu deixarei de considerá-lo como um político medíocre que conspurca a política, o que certamente será do agrado da ala mais reaccionária do PPD-PSD, assim como de alguma gente da extrema-direita que anda a pulular por aí...

2 DE OUTUBRO: CARTA DE RIBEIRO CARDOSO A DIZER-ME QUE FUI ALÉM DA CHINELA E METI A PATA NA POÇA “Caríssimo: Leio sempre, com atenção, aquilo que escreve. Concordando ou não consigo. E muitas têm sido as vezes em que reenvio os seus textos para os meus amigos. Gosto do seu estilo, sem papas na língua e bordoada com pinta. Contudo, e é com amizade e simpatia que lho digo, hoje a sua análise da situação política foi além da chinela e meteu a pata na poça...como a realidade demonstra. Acontece, como diria o outro... Sabe, tenho para mim que a esquerda unida jamais será vencida... sem prejuízo de ser criticada quando for caso disso. Há que desobstruir o caminho, já que é impossível terminar com as curvas... Abraço, Ribeiro Cardoso”.

2 DE OUTUBRO: A MINHA RESPOSTA, MUITÍSSIMO MODERADA, AO RIBEIRO CARDOSO Meu caro Ribeiro Cardoso: Costumo, é um facto, escrever de chinelos porque, assim, a minha cabeça funciona muito melhor. E percebo perfeitamente o seu grande regozijo pelo facto do BE e do PCP terem “amorosamente” conseguido adiar, para a semana que vem (risos meus), o debate na Assembleia da República sobre a palhaçada de Tancos, que terá prejudicado ilegitimamente o PS (partido de que fui um dos fundadores, do qual me desfiliei em Fevereiro de 2015, não fazendo qualquer tenção de para lá voltar!) e que, eleitoralmente, terá beneficiado muito o PPD-PSD e o BE (um pouco menos o PCP-PEV e o CDS-PP, ambos a baterem no fundo)… O problema é que o mal está feito, seja o debate antes ou depois da votação de domingo dia 6 de Outubro – e neste caso, eventualmente, como pano fundo das tentativas de formação de um qualquer novo Governo (?), e para gáudio deste Presidente da República que temos (político com um longo passado que quase toda a gente decidiu “esquecer” desde que ele foi eleito PR)… Claro que também eu me regozijaria muito – e com que prazer! – se BE e PCP se tivessem oposto frontalmente ao agendamento dum debate parlamentar – e para lamentar – politicamente oportunista, que serve apenas os propósitos de Rui Rio e Assunção Cristas (mas também de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa) de enfraquecerem o mais possível o PS e António Costa. Além do que, na minha modesta opinião, viola escandalosamente o princípio da separação de poderes entre órgãos de soberania (PR, AR, Governo, Tribunais), tratando-se dum debate parlamentar construído a partir de suposições oriundas duma leitura enviesada, capciosa e politicamente facciosa da acusação do Ministério Público, que terá ainda de ser submetida a julgamento num Tribunal… Só não percebe tudo isto quem não quiser perder meio minuto a reflectir… De resto, sempre lhe direi que, historicamente, a frase “a esquerda unida jamais será vencida” é um perfeito disparate! Infelizmente, são vários os exemplos que o confirmam, designadamente em Portugal, onde BE e PCP se odeiam um ao outro bem mais do que ambos odeiam o PS… Em todo o caso, orgulho-me de ter andado durante quase 30-anos-30 – desde que fui um dos subscritores do abaixo-assinado a reclamar a realização dum referendo em Portugal sobre o Tratado de Maastricht – a bater-me publicamente pela urgência de se estabelecer uma “plataforma mínima comum de entendimento entre os partidos de esquerda, capaz de viabilizar um Governo duradouro”. Essa foi, naturalmente, uma das razões pelas quais me empenhei tanto na organização do Congresso Democrático das Alternativas, em 2012. E foi também uma das razões pelas quais apoiei várias campanhas eleitorais e outras iniciativas políticas do Bloco de Esquerda, em defesa de pontos de vista idênticos sobre, nomeadamente, a União Europeia, e contra o malfadado Pacto Orçamental. São testemunhos disso dois livros que publiquei: A crise da esquerda europeia (D. Quixote, 2012) e Corações de Pedra – a maldição neoliberal (Porto Editora, 2017). Este último até foi apresentado pela Catarina Martins… Todavia, é uma evidência que, a partir do momento em que me desfiliei do PS em 2015 – por ser para mim insuportável andar a criticar sucessivas direcções do partido, desde o tempo do António Guterres e da malfadada “Terceira Via” –, deixei de ser um “dissidente apetitoso” e passei a ser um “independente politicamente incómodo” e, pois claro, “chato como a potassa”! Nem por isso deixei de apoiar publicamente, e por escrito, durante estes quatro anos, aquilo a que malcriadamente chamam “geringonça” (dá-me sempre vontade de responder: “geringonça é a ‘pqp’!»). Com a minha idade (mais de 74 anos, quase 75), era o que faltava se eu não dissesse “aquilo que me vai na alma”. Continuarei, aliás, a fazê-lo até ao fim da vida, mas já não a escrever de borla crónicas semanais nos jornais. Esta última sai no i, na segunda-feira dia 7 de Outubro, mas já estará escrita e entregue nesse jornal 48 horas antes de saber os resultados eleitorais. É que eu sou bruxo… Um abraço (e não me diga outra vez que meti “a pata na poça”, que é feio!).  

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990 

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