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Leitor de BD. Amor cão

Leitor de BD. Amor cão

Ricardo António Alves 20/08/2019 13:47

A manga japonesa era, até ao fim do século passado, uma excentricidade no trabalho dos artistas de BD ocidentaisA manga japonesa era, até ao fim do século passado, uma excentricidade no trabalho dos artistas de BD ocidentais

A  manga japonesa era, até ao fim do século passado, uma excentricidade no trabalho dos artistas de BD ocidentais. Hoje, pelo contrário, ganhou o seu espaço, e muitos são os desenhadores da Europa e das Américas que adotaram esse estilo peculiar a que os leitores mais tradicionalistas vão torcendo o nariz: aquelas pupilas anormalmente dilatadas ou “buracos” no lugar das bocas são, por vezes, desagradáveis. É verdade que grande parte da manga se publica no âmbito da produção massificada, como, de resto, os comics norte-americanos; nas mãos de grandes autores, porém, e com um lastro secular remontando ao Japão medieval, a manga de qualidade compara com o melhor que se faz em qualquer latitude.

O Cão que Guarda as Estrelas (2008), da autoria de Takashi Murakami, não participa da categoria da obra-prima, mas bem merece uma leitura. Fala-nos de um homem solitário e doente, um peso para a mulher, que entretanto pede o divórcio; e conta-nos também do cão dessa família e narrador desta história, chamado Happy, prenda para a criança da casa que, uma vez chegada à adolescência, deixa de achar graça ao bicho. Dono e cão, dois abandonados, empreendem então uma longa viagem de automóvel pela costa japonesa, em busca de uma solução para uma existência a partir de então sem grandes saídas, salvo talvez no país da infância, ou seja, a terra natal do dono - “sou da infância como se é de um país”, escreveu Antoine de Saint-Exupéry, já piloto de guerra, não muito antes de se juntar definitivamente ao Principezinho... Só que o leitor é confrontado desde a primeira prancha com a descoberta macabra pela polícia de um carro abandonado num campo de girassóis onde jazem os corpos de um homem e um cão. Esta informação prévia não retira nenhum interesse à história, pelo contrário: o aliciante é o confronto com o caminho realizado pelas duas personagens, os encontros e as peripécias da viagem até ao seu desenlace.

“O cão que guarda [olha] as estrelas” é uma expressão popular no Japão, correspondente ao nosso “fazer castelos no ar”, significando a aspiração utópica a algo irrealizável; expressão com que o pessimista Takashi Murakami nos oferece esta crónica de uma felicidade perdida e nunca reencontrada. 

Uma segunda narrativa, intitulada Girassóis, com outras personagens (cão e dono), também elas solitárias, acrescenta alguma poesia à situação inicial, correndo, porém, o risco da redundância. Fica, no entanto, vincada a intenção do autor, trabalhada em torno da importância dos animais de estimação nas nossas vidas cada vez mais atomizadas e de como eles acabam por funcionar como um último vínculo na desesperança do abandono e da solidão.

Uma nota final para uma característica editorial que se normaliza à medida que a publicação de BD japonesa vai ganhando mercado: esta manga lê-se de acordo com o padrão original, ou seja, da direita para a esquerda, iniciando-se a leitura pelo que seria a contracapa nas edições ocidentais, o mesmo sucedendo com a disposição das vinhetas em cada página.

O Cão que Guarda as Estrelas
Texto e Desenho Takashi Murakami
Editora JBC Portugal, Lisboa, 2018

 

O primeiro Tintim

Lisboa, 1925. Durante as semanas em que o Repórter X enviava as suas reportagens de Moscovo, o interesse dos leitores era tal que a revista ABC publicava uma segunda edição e acrescentava na capa: “Revista Portuguesa na Rússia”. Não se sabe se Reinaldo Ferreira, o homem por detrás do X, esteve de facto na pátria dos sovietes, os historiadores dividem-se; no entanto, pela verosimilhança do relato, o mais famoso enviado do jornalismo português sabia do que falava. Também o jovem Hergé (1907-1983) nunca pusera os pés na pátria de Lenine, mas o relato do recém-criado Tintim foi um enorme êxito popular. Surgido no Petit Vingtième, suplemento infantil do jornal católico Le Vingtième Siècle, de Bruxelas, a partir de janeiro de 1929, Tintim no País dos Sovietes conheceu uma edição em álbum, logo se esgotando; no entanto, só em 1973 a editora Casterman faz sair uma nova edição, com Tintim no Congo e Tintim na América, sob a designação de Archives Hergé. Por um lado, o pendor antibolchevique não caía bem na intelligentsia ocidental complacente com o regime, com a designação de anticomunista a revestir-se de anátema incómodo; por outro, a circunstância de Hergé, simpatizante do movimento rexista belga, ser detido após a libertação sob a acusação de colaboracionismo também não facilitara as coisas. No início da década de 1970, porém, Hergé já era consensual, e Tintim uma personagem reconhecidamente humanista. Além disso, o prestígio que a União Soviética exercera na década de 30 vinha ruindo paulatinamente, também por obra de escritores como Koestler, Orwell e Soljenitsine. O que há do Tintim que todos amamos neste trabalho de juventude é o que veremos na próxima semana.

Tintin no País dos Sovietes
Texto e Desenho Hergé
Editora Difusão Verbo, Lisboa, 1999
 

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