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Hernâni Miguel. “O bichinho da noite começou muito cedo”

Hernâni Miguel. “O bichinho da noite começou muito cedo”

Bruno Gonçalves Daniela Soares Ferreira Vítor Rainho 01/08/2019 21:14

Foi um dos rostos do Bairro Alto e há algum tempo que está ao lado do elevador da Bica. Ao blues e ao soul juntou agora os hambúrgueres.

É uma das figuras da noite lisboeta e são poucos os noctívagos com mais de 30 anos que não o conhecem. Veio da Guiné com uns padrinhos e nunca mais voltou à sua antiga terra. Habituado a dar entrevistas, mal ligámos o gravador disparou, apresentando-se: “Hernâni Miguel, 61 anos. Cheguei a Lisboa em novembro de 1965, tenho vivido toda a minha vida na Baixa-Chiado. Sou um africano alfacinha de uma cidade muito própria, cidade minha que começa no Campo Grande e acaba no Cais do Sodré, vem de Alcântara até Xabregas – esta é a minha cidade. Joguei futebol, não fui famoso, felizmente. Quero acrescentar que tenho a melhor hamburgueria de Lisboa”.

Veio para Portugal com quem?

Com uns padrinhos meus que me trouxeram da Guiné e fiquei por cá.

É aí que começa a jogar futebol?

O futebol foi uma coisa por mero acaso. É consequência de todos os miúdos de rua jogarem futebol uns com os outros. Agora não, porque tem de se pagar muito para se jogar futebol. Naquele tempo tinha de se fugir da polícia. Eu não vim pelo futebol. Vim para estudar, para ficar por cá, e foi o que aconteceu.

Nunca foi federado?

Fui. No Domingos Sávio e no Atlético Clube de Portugal.

Na escola, foi até que ano?

Devia ter entrado para a universidade, mas acabou por não acontecer porque comecei a trabalhar. Tomei gosto ao trabalho.

Começou a trabalhar em quê?

Numa firma de ar condicionado.

O que aconteceu a seguir? Como começou o bichinho da noite?

O percurso é simples. O bichinho da noite começou porque na escola produziam-se algumas festas e eu comecei a ser o DJ. Depois comecei a fazer umas festas de bairro também, no Desportivo Clube do Carmo, no Carmo.

E que música passava?

Não muito distante do soul, jazz, blues... E gostava imenso de disco sound.

Até essa fase, qual é o momento mais engraçado da sua vida?

O mais engraçado diria que foi nos dias de 24 para o 25 de Abril. Eu e os meus amigos, todos com 16 anos, andámos quase dois dias sem ninguém ir a casa nem ninguém dormir. Andávamos para trás e para a frente a assistir a tudo o que se passava. Eu morava na Rua do Ferragial, tinha amigos que moravam na Rua António Maria Cardoso, e vínhamos sempre do Carmo à meia-noite, duas ou três da manhã, dependia. E foram dois dias muito interessantes e excitantes para nós.

Nessa altura, antes do 25 de Abril, onde é que parava?

Com 17 anos parávamos na Brasileira, porque éramos aqui da zona, no Calhariz, ao pé do antigo Chiado Terrace. Estávamos na boca do acontecimento.

Foi dos primeiros negros em Lisboa?

Não terei sido dos primeiros porque lembro-me de ter tido mais amigos meus de Campo de Ourique, onde havia vários negros. No Conde Barão, também havia.

E sentia o racismo nessa altura?

É interessante essa questão. Quando eu chego cá, uma das coisas que me acontece é ir ao Grandela e sinto o racismo primário, sem dúvidas nenhumas. Ainda hoje existe. O racismo não está escondido, cada vez mais está a sair da toca. Eles andam escondidos, mas nós sabemos quem eles são.

O que sentia?

É simples. Uma pessoa vem de África, brinca e partilha os tempos com pretos, brancos e azuis, e não sente nenhuma diferença; quando chega cá começam a apontar, a olhar, a querer tocar. Por favor! Isso lá acontecia quando nós jogávamos ao toca-e-foge. A rua tem uma coisa que é muito democrática. Acontece sempre uma coisa que é um fenómeno que toda a gente sabe: os líderes vão sendo cada vez mais líderes porque é assim. Correm mais, brincam mais, jogam mais, são mais bem-dispostos.

Sente verdadeiramente que há racismo no dia-a-dia?

Se me perguntar se ligo, eu não ligo. Mas que sinto que há, sinto. Estou muito fora dessa gente, ignoro-os na totalidade. E a minha atitude perante isso é uma atitude de quem olha para eles e ri. Mas vejo pelo dia-a-dia, pelos miúdos que andam aí e pelas outras pessoas, percebe-se que há racismo. Chamem-lhe racismo social, se quiserem. Lisboa sempre foi uma cidade racista, mas não é Lisboa, é o mundo. O mundo é racista. Também há racismo entre africanos. Há muitos racismos entre a cor preta e a cor branca, sempre foi assim e sempre será.

Qual é o primeiro espaço onde trabalha à noite?

Rock House, em 1982. Trabalho como RP [relações públicas] da Rock House no Bairro Alto. 

E aí também sentia racismo?

Não. Quando chego ao Rock House, já estou numa situação em que quem manda quase sempre sou eu. Porque a história de ter estado no Domingos Sávio, no Atlético, a jogar à bola, ter feito imensas festas, fez com que tivesse um núcleo muito forte de amigos - eram mais de 50 ou 60 amigos. Para onde eu ia, eles também iam.

Sempre foi uma figura carismática?

Desde muito cedo. Só para ter uma ideia, quando chego à terceira ou quarta classe - e isso é uma coisa que todos os meus amigos podem dizer -, já era quase o idolozinho daquela escola. Para já, era o único preto, depois era o que brincava mais com as miúdas. Era uma escola maioritariamente de meninas e deve ter sido das primeiras a ser mista, em 1965. Era um caso curioso e era uma escola da Igreja, no Largo da Biblioteca Pública. Havia ali o Externato da Nossa Senhora da Conceição. E, depois, jogar à bola na rua, brincar na rua com os meus amigos mais velhos... foi muito fácil chegar ao patamar da Jukebox e já ser reconhecidíssimo.

Jukebox?

Rock House e, mais tarde, Jukebox. Hoje em dia, penso que é a Tertúlia.

E é aí que abre o seu espaço?

Não. Saio dali e vou fazer uma perninha de pouquíssimo tempo no Café Concerto, onde fazia a mesma coisa. E quando saio do Café Concerto, eu e o Pedro Lata, uma das grandes figuras dos anos 80, 90, abrimos uma coisa chamada Lábios de Vinho.

Como era o Bairro Alto nessa altura?

Era um Bairro Alto muito interessante porque tinha as tribos muito bem definidas. Quem quisesse ouvir punk tinha a zona dos punks, quem quisesse ouvir reggae tinha a sua zona, e por aí fora. Ou seja, as tribos estavam totalmente divididas. Havia também a zona do fado. O Bairro Alto estava muito bem definido em tribos onde cada um ia parar. Era uma ótima vantagem que tinha. Como é óbvio, tinha menos gente. Logo a seguir ao 25 de Abril apareceram pessoas fantásticas que ninguém conhecia e o Bairro Alto, entre restaurantes, alfarrabistas, casas de fado e novos espaços que apareceram, cresceu. Um dos meus primeiros aliados no Bairro Alto é o Gigi, que é um monstro sagrado para mim. E é um dos meus primeiros aliados, com quem eu me dava muito bem.

Aliado porquê?

Porque era uma pessoa com quem eu ia falar. E ele falava comigo. O Gigi tinha a melhor garrafeira de vinhos na Travessa da Queimada, chamado Bezanas Wine Shop. Havia ali também, por cima, um fantástico alfarrabista. Eu acabo por o conhecer por causa do alfarrabista.

Há quem diga que começa nesse tempo - ou pouco tempo depois - a descaracterização do Bairro Alto.

É muito tempo depois. O Bairro Alto começa a ser descaracterizado a partir dos anos 2000. É muito simples de ver algumas coisas. Saio eu e o Manuel Reis quase ao mesmo tempo do Bairro Alto. Os Pastorinhos fecham. Depois há uma série de restaurantes que começam a disseminar-se, nomeadamente a Paola, que abre outra coisa no Porto. E com o aparecimento da zona do Manuel Reis [Lux, em Santa Apolónia], começa a haver uma transformação de pessoas para lá. As pessoas começam a descer. E, ao descerem, o Bairro Alto começa a perder alguma parte da identidade, e os novos ocupantes do Bairro Alto são pessoas que não tinham a mesma estética do que os que lá estavam. Nem os mesmos amigos. E isso tudo começa a contribuir para uma mudança no Bairro Alto porque entram pessoas novas que não tinham o mesmo olhar estético para a noite. Quem se lembrar dos anos 80 e 90 vê que os bares eram cuidados. Apesar de as pessoas poderem beber em copos de vidro, não havia copos de vidro na rua. As pessoas não urinavam na rua. A junta de freguesia tinha uma atitude pró-ativa e isso tudo ajudou para que houvesse uma comunicação grande entre a junta e os fregueses. 

Lábios de Vinho, e a seguir?

Não posso dizer pela ordem mas é Lábios de Vinho, Calçada - mais tarde viria a ser o Johnny Guitar -, Noites Longas - um espaço que faço com o Zé da Guiné que é, provavelmente, em conjunto com o novo Alcântara Mar, o espaço que faz um grande twist na nossa noite. Era um espaço que era um palácio fantástico da Renascença, e quando tudo fechava era o único sítio que estava aberto. Então tinha toda a fauna da cidade. Desde Xutos & Pontapés aos Mler Ife Dada, passando pelo Pedro Cabrita Reis, toda a gente passava lá e parava lá. Havia desfiles de moda, cinema, teatro... Era um espaço multicultural que durou algum tempo. Depois ajudei a abrir o Bairro Alto Bar, o BBB, ajudei e fui relações públicas dos Pastorinhos, no seu tempo, durante 20 dias, quando eles abriram. Mais tarde fiquei com o Café Concerto e andei sempre a saltar.

Até que abriu o Targus.

Abri o Targus e estive lá dez anos. Eu, o Zé Guedes, que era o dono da Contraverso - porque a Contraverso nasce também a partir de um projeto que é meu, os Lábios de Vinho. A Contraverso foi a melhor loja de discos em Portugal. É evidente que era para um nicho. E a Contraverso existia como? Eu e o Pedro Lata tínhamos os Lábios de Vinho, tipo um corredor, fazíamos daquilo um bar e onde comíamos também. O Pedro cozinhava iguarias fantásticas. Quando fechava a restauração, limpávamos aquilo com toda a pressa porque no outro dia, às 15h00, ia abrir uma outra coisa. O que era? Uma loja de discos. Os nossos bancos levantavam-se, púnhamos os discos cá fora e vendíamos. E fomos também nós, eu e um amigo chamado José Carlos, as primeiras pessoas em Portugal a vender Doc Martens. 

Para quem não o conheceu, quem foi o Zé da Guiné?

Sou suspeito porque somos amigos. Cruzámo-nos um dia na Rua do Alecrim, ele vinha a subir e eu ia a descer e, como africano, olhei para ele, cumprimentei-o e ele cumprimentou-me. E durante algum tempo cruzávamo-nos ao pé da Brasileira. Ele abordou-me e perguntou-me se eu era da Guiné. Disse-lhe que sim, ele disse que também era. E começámos a dar-nos. O Zé da Guiné era um visionário, tinha uma linguagem própria, tinha um gosto fantástico pela roupa e tinha uma coisa inata, uma sensibilidade natural. Tinha o que eu costumo dizer um olhar para as coisas muito distante, mas assertivo, sempre. Rodeava-se de poucos amigos e de muitas amigas. Inteligente! Além de ser porteiro, também criava roupa para outras pessoas. E depois, como tinha muito bom olho, ia às feiras, comprava coisas fantásticas que mais tarde revendia. E depois criava Dobermanns também. Ele tinha uns quatro ou cinco. Na altura ninguém tinha aquilo e vendia com facilidade. 

Como viu o fim do seu Bairro Alto?

Com muita pena. Vou lá de vez em quando visitar três ou quatro pessoas de quem gosto muito. O Chico da Tasca do Chico, o Carlos do Páginas Tantas, o Mário que ficou com a Tasca da Tia Alice. São pessoas que preservam o que podem no Bairro Alto, defendem o Bairro com unhas e dentes. Não vou tantas vezes visitar um grande guerrilheiro do Bairro Alto, que é o Miguel, porque não calha. 

Quem era o tipo de público do Targus?

O tipo de público do Targus, desde a sua abertura, era o que consegui manter por perto desde o Café Concerto, dos Lábios de Vinho. Ou seja, desde Pedro Aires Magalhães, o Nico, os Bandarras da vida, o Fernando Peras. Era um público com profissões liberais, jornalistas, publicitários, alguns políticos, designers, comerciais de algumas empresas, alguns estudantes de arquitetura que eram muitos.

Lidou com muitos arquitetos hoje em dia famosos?

Sim. Lidei com muitos mas há dois que estiveram sempre por perto, os Mateus. E depois os outros também, o Hélder Carita. 

Então sai desiludido do Bairro Alto.

As pessoas não se reviam no Bairro Alto nesta nova maneira de estar no Bairro Alto. E vou para a Fábrica da Pólvora de Barcarena. Estou lá 10 anos também. 

Sempre a apostar na música?

Sim, na música, nas exposições. Sempre a apostar na arte.

Torna-se manager de algumas bandas?

Sim. Fui manager dos Da Weasel, dos Blackout. E isto é uma première que vos estou a dar: vai haver um regresso dos Blackout como já sabem que há um regresso dos Da Weasel e se calhar temos mais dois ou três regressos importantes, vai ser muito bom. Os Blackout vão regressar mesmo com a formação inicial. 

Nos seus espaços, sempre teve a preocupação de ter música ao vivo.

Música ao vivo e porta aberta.

Como sai de Barcarena? E como é que está tanto tempo fora da cidade grande?

Eu vinha a Lisboa todos os dias. O bar fechava e eu apanhava um táxi para Lisboa. E voltava de madrugada. Por isso, na verdade, nunca estive fora de Lisboa. Era uma missão, ia trabalhar e voltava. Até porque a noite fazia-se aqui.

Mas regressou a Lisboa.

Volto porque estou em Lisboa e um dia cruzo-me com um dos meus grandes amigos, José Pinho, e ele disse que estava à rasca porque ia sair do Bairro Alto e não tinha para onde levar a Ler Devagar. E eu disse que íamos resolver isso. Falo com outro amigo meu, o António Folgado, vamos falar com um amigo comum, o Queirós do LX Factory, e consegui trazer a Ler Devagar para a LX Factory. Fico lá um ano com o Queirós a ajudá-lo a montar aquilo e entretanto o Folgado olha em frente e vê que há lá um espaço. Voltámos a falar com o Queirós e montámos uma coisa chamada Impossibly Funky , um bar de música ao vivo. Estou lá três, quatro anos. Fizeram-se ali das festas mais fantásticas entre as quais um aniversário de uma amiga [Maria João Bastos] que, numa visão muito romântica e burlesca, manda fazer uma decoração e pôr um baloiço numa sala genialmente decorada e o baloiço foi o espaço onde as senhoras e os senhores iam lá dar uns tralhos muitas vezes. Era um local engraçado e ficou mais engraçado depois de ter o baloiço.

Até que chega aqui ao Tabernáculo e à Hamburgaria Blues.

É um sítio que não me é estranho. Foi também onde cresci. Comprei a minha mala aqui atrás, neste espaço, que era uma loja de couros. Há um jovem chamado António que me mostra o espaço. O Martins que era do dono engraçou comigo e fez tanta força para que eu ficasse com o espaço que acabei por ficar.

Tem música ao vivo..

Tem blues, jazz, bossa nova. Música africana e étnica.

Teve fado?

Cheguei a ter. E tenho até, mas não é regular.

Entre todas as diferentes culturais que teve nestas noites, o que é este Cais do Sodré?

Este Cais do Sodré, esta zona da Rua de São Paulo, é neste momento uma rua com dois públicos. Do Largo de São Paulo, quem está virado para o rio, para a esquerda, há um público. Para a direita, onde estou, há outro público. Sendo que, do lado esquerdo, é mais frequentado por miúdos, jovens. Ou seja, a Rua Cor de Rosa é frequentada por um tipo de público diferente: muitos jovens, muitos turistas e muitas pessoas que vão ao engano do que é a rua. Se repararmos bem, os bares maioritariamente estão vazios lá dentro e está tudo na rua. Enquanto nós, deste lado, temos muito mais restaurantes, casas de chá, temos uma diversidade muito maior. Temos sítios naturistas, vegan, de cocktails, outro tipo de abordagem. Não temos tanta gente na rua a beber copos. E depois temos a vantagem de não estarmos em cima uns dos outros. Temos um público que naturalmente é mais seletivo. 

Nunca voltou à Guiné?

Por enquanto não. 

Como vê o Bairro Alto depois de ter deixado de apostar na qualidade para apostar na quantidade?

Com muita pena.

E o Cais do Sodré?

Está a ir pelo mesmo caminho do Bairro Alto.

Quando há lojas históricas com mais de 100 anos a fechar, o que acha?

Não sei quem foi a eminência que julgou isso na câmara mas falemos do Cid. É um sítio que tem mais de 100 anos e que qualquer pessoa da minha idade ou mais velha do que eu se lembra de lá ir. É uma taberna tipicamente portuguesa, com comida portuguesíssima com certeza, onde eu faço questão de ir todas as semanas comer. Mas como o imóvel foi vendido para um hotel ou algo semelhante, os donos do espaço - que eu sei que é verdade - foram tentar requerer o estatuto de loja com história e porque tinham lá uns móveis de apoio que não são os mais nobres, foi-lhes rejeitada a possibilidade de serem loja com história. Para mim isso é uma falácia, não é verdade. Parece-me que os interesses se sobrepuseram à loja.

Vê-se neste sítio daqui a cinco anos?

Vejo porque gosto do sítio, não tenho muita confusão, tenho provavelmente um dos bares mais sui generis de Lisboa.

Porquê?

Só passa soul, funcky, jazz, blues. Passa música clássica de vez em quando ao fim do dia. Num ano sou capaz de ter 200 bandas de música ao vivo. Muitas delas nem sou eu que recomendo. Os músicos chegam aí e pedem para tocar. Há uma grande diferença aí. Não vivo dos turistas, tenho 60% de portugueses.

Como é que é o seu dia a dia como homem da noite?

Depende das companhias da noite. Quando tenho uns amigos meus que me vêm visitar e que me obrigam a fazer ginásio, deito-me mais tarde e então levanto-me mais tarde. Mas quando não tenho, às 11h00 passo por aqui, vejo o que está e o que não está feito e o que é preciso fazer. Vou às compras, volto às 14h00 e entretanto como tenho alguns projetos de música que estou a trabalhar e dois festivais que estou a tentar montar: Um é o festival do Dia de África. Para o ano queremos fechar a Rua de São Paulo e fazer uma homenagem aos negros. E depois temos atividades abertas desde cinema, passagens de modelos, teatro, muita música. 

Tem uma filha. Passou-lhe o gosto?

Não. Ela não entra nestas coisas. Curiosamente este espaço onde nos encontramos [Blues Burger Bar] é dela mas nós temos um acordo e ela diz que só vem quando lhe apetecer. Não lhe passei o gosto. Pode ser que venha a gostar e há outro compromisso comigo e com ela: ela tem que estudar.

E a decoração do espaço? Quem fez?

É de um dos meus grandes irmãos brancos que é o Pedro Luz. O Pedro Luz ajudou-me aqui na parte da decoração. A Sónia também me ajudou. Fizemos em conjunto. Este espaço tinha que ser o seguimento do outro [Tabernáculo] de uma forma clássica.

E as fotos das paredes?

As fotos eram do Blues Café. O Pedro sabia quem as tinha, falou com essa pessoa e a pessoa ofereceu-mas. As mesas mandei fazer, em mármore. As cadeiras são escolhas da Sónia e do Pedro. 

Como é o verão por aqui?

Prefiro a primavera e o inverno porque detesto esses saloios que vêm para cá aos fins de semana, perdoai-me a frase saloia. Parvos é mais adequado. Vêm para cá fazer despedidas de solteiros, aquelas viagens de dois três dias e têm um comportamento absolutamente aberrante. Fazem aqui coisas com figuras ridículas vestidos de garças, de patos, vestidos de tudo e mais alguma coisa. Nós aqui sempre que entram grupos grandes de turistas a cantar, eu tenho aí discos muito bons. Maria Callas é um deles. Ponho as músicas clássicas e os gajos, como é óbvio, com aqueles ouvidos obtusos, querem tudo menos ouvir esta música e escolhem logo outro sítio.

O que acha dos horários do Cais do Sodré?

Tenho duas ideias sobre o Cais do Sodré. Uma - e que acho que a câmara devia pensar muito bem nisso não só para o Cais do Sodré - é que os bares tem que ser bares. Se for restaurante bar tem que ser restaurante bar e discoteca tem que ser discoteca. Os bares têm que ter um horário de bar, as discotecas têm que ter um horário de discoteca e o restaurante bar pode ter os dois. Acho que as pessoas têm que estar dentro de portas. E da mesma forma também acho que a cidade de Lisboa, para a quantidade de turistas que tem, devia de ter sanitários públicos, que não tem. As senhoras muitas vezes andam atrás dos carros a fazer o que não devem fazer e a rapaziada anda muitas vezes a pintar as paredes com o que não deve pintar. Molhá-las, neste caso. E não se deve fechar tudo ao mesmo tempo. Se as coisas fecharem todas ao mesmo tempo, como acontece no Bairro Alto, vêm 500 ou 600 ou mil pessoas ao mesmo tempo para a rua fazer barulho. E fecha-se aquilo às 2h00 e temos milhares de pessoas a descer a Rua das Flores e a Bica, a fazer um barulho incrível. Coisa que não me parece bem.

Defende então horários alargados.

Absolutamente. Horários alargados têm uma vantagem grande porque as pessoas vão saindo. Os que ficam até às 6h00 são pouquíssimos. Basta olhar para o Jamaica. Uma pessoa chega às 5h30, 6h00, está vazio. Agora não podem é meter as pessoas todas fora de uma vez. Os horários deviam ser alargados. Está bem que para o lado de lá [junto ao rio] vão pôr o Tóquio, o Jamaica e o Europa, vão alargar horários. Quem está aflito é o Music Box. Está aflito porque está a levar com duas obras gigantes e nunca mais vai voltar a ser o que era. E tem mesmo de se ter casas de banho na rua. A junta de freguesia preocupa-se com tanta coisa e quando são os santos populares tem uma única casa de banho na Bica toda.
 

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