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Alfredo Barroso 15/07/2019
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@ionline.pt

Imposturas e hipocrisias políticas

A vantagem das direitas é a sua elasticidade. Não se ralam de afirmar tudo e o seu contrário e, mais ainda, persistem em atrair e defender as vítimas das suas políticas, que nem sequer se apercebem dessa contradição.

Claro que não há regra sem excepção, mas a mim me parece que a esquerda tem por hábito, na política, ser mais séria e mais ingénua, o que lhe causa agruras. Já a direita vai escrevendo todos os dias o “livro do esquecimento e da mentira”, seja para conquistar o poder, seja para nele se manter, seja para combater quem está no poder – e, como oposição, acha que vale tudo, mesmo tirar olhos.

Em Portugal, desde o 25 de Abril de 1974, não há memória de outro político que tenha mentido tanto, para conquistar o poder e nele se manter, do que o ex-chefe do PPD-PSD e dum Governo de direita, Pedro Passos Coelho, que (des)governou o país em coligação com o CDS-PP, então liderado por Paulo Portas, e sob a tutela da troika constituída por autênticos sátrapas do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Central Europeu (BCE) e da Comissão Europeia (CE). Claro que Rui Rio e Assunção Cristas já o olvidaram, mas foram quase cinco anos de empobrecimento deliberado dos portugueses, do país, do Estado e dos serviços públicos!

Não se duvide do que digo sobre Pedro Passos Coelho. Com esta mania que tenho de registar e arquivar o que me choca (mas não só, claro!), conservo uma lista de 43 frases, que são outras tantas mentiras, pronunciadas em 2010 e 2011 pelo então presidente do PPD-PSD, na sua sofreguidão de ganhar eleições a qualquer preço e na sua avidez de exercer o poder para ir além do que a troika exigia e para empobrecer deliberadamente os portugueses. O seu objectivo seria, suspeito eu, o de transformar Portugal, a prazo, numa Singapura do Ocidente, deslumbrado pela leitura das memórias de Lee Kuan Yew, que governou aquela cidade-Estado com mão de ferro, à custa de violações de direitos humanos, durante 31 anos.

Digo-o com franqueza: Passos Coelho sempre me pareceu um político ambicioso e medíocre que fez carreira na JSD para se tornar, tarde na vida, um gestor da treta com alguns fiascos (nem vou mais longe) na curta carreira que lhe inventou o seu “padrinho” político, o incontornável e abissal Ângelo Correia, o “criador” que, como é dos livros, deixou que lhe escapasse a “criatura”. Como primeiro-ministro, Passos Coelho foi uma criatura impiedosa e cruel (como o Lee Kuan Yew?) ao serviço dos interesses da plutocracia, e um mais que exemplar serventuário da troika.

Para se perceber a que ponto a direita é capaz de criar narrativas que contrariam a verdade, recordo outro político medíocre e ridículo, Marco António Costa, então vice-presidente e porta-voz do PPD-PSD, que se atreveu a elogiar o então seu presidente dizendo, sobre Passos Coelho, o seguinte: “Se há característica que o líder do PSD tem é ser um homem de palavra”. Que grande lata! Aqui vão alguns exemplos de mentiras descaradas proferidas por Passos Coelho para chegar ao poder: “O IVA, já o referi, não é para subir” (subiu e bem alto!); “Não podemos pôr os reformados e pensionistas a pagar a crise” (fez exactamente o contrário!); “Que não matemos o doente da cura!” (esteve quase!); “É preciso que o caminho que os portugueses têm pela frente não seja ainda o de mais impostos, o de mais desemprego e o de mais falências das empresas” (mas o caminho foi deveras uma via-crúcis e um autêntico calvário!); “A política de privatizações em Portugal será criminosa, nos próximos anos, se visar apenas vender activos ao desbarato para arranjar dinheiro” (foi essa a política que ele pôs em prática!). “Homem de palavra”, Passos Coelho? Impostura e hipocrisia levou-as ele ainda mais longe ao prometer, cheio de si: “Espero, como futuro primeiro-ministro, nunca dizer ao país, ingenuamente, que não conhecemos a situação, nós temos uma noção de como as coisas estão” (afinal, não tinham, e passaram a culpar o Governo anterior como justificação para os massacres político-legislativos que cometeram contra o país, os portugueses e o Estado social).

 

2. Passos Coelho, Paulo Portas e seus apaniguados são filhos da “grande viragem à direita” ocorrida a partir da década de 1980, sob o impulso de Margaret Thatcher e Ronald Reagan e sob os auspícios de economistas e ideólogos neoliberais como Friedrich Hayek e Milton Friedman, não esquecendo os neoconservadores norte-americanos oriundos do trotskismo, que se apresentaram (abusivamente) como discípulos do filósofo Leo Strauss e mostraram ser bastante maus intérpretes do historiador grego Tucídides e da sua História da Guerra do Peloponeso, como veio a demonstrar-se com o desastre que foi a invasão do Iraque, que não lograram prever e que podiam ter reconhecido no desastre da Sicília narrado por Tucídides e evocado em 1990 por Jacqueline de Romilly no seu notável Alcibíades.

Claro que Passos Coelho, mais virado para Lee Kuan Yew, não terá dado conta de tudo isto, talvez só de pouca coisa, nem de que o Paulo Portas, talvez mais virado para o seu “amigo americano” Dick Cheney (político do piorio!) e intelectualmente mais dotado, terá racionalizado melhor a grande viragem à direita. Todavia, Passos Coelho foi bem mais expedito a lançar às malvas a social-democracia, esse manto diáfano da fantasia que há muito cobre a nudez forte da verdade do PPD-PSD. Já Paulo Portas foi mais lento a desfazer-se dessa ténue ideia de democracia cristã que ainda pairava no CDS-PP e a renunciar, devagar, às reivindicações de carácter social que faziam da sua agremiação “o partido dos reformados” – e eu que tinha depositado tantas esperanças nele, mas acabei ludibriado e traído!

Face a estes antecedentes históricos imediatos, e a esses líderes que encostaram os dois partidos tão perto – se não mesmo a ocupar já alguns metros quadrados – do espaço da extrema-direita, não é de espantar alguma desorientação que paira no PPD-PSD e no CDS-PP, tal como nas “cabecinhas pensadoras” dos seus actuais chefes máximos. A social-democracia de um deles e a democracia cristã do outro tornaram-se autênticas imposturas ideológicas. Rui Rio continua a remar contra a maré que ameaça afundá-lo e, para já, ainda mantém a “caixa dos pirolitos” à tona d’água. Quanto a Assunção Cristas, mais tributária do estilo empoleirado de Passos Coelho do que das subtilezas arredondadas de Paulo Portas, não consegue chegar aos calcanhares do seu antecessor e até já confunde o crescimento possível da economia (não alcançará os 2 por cento em 2020) com o crescimento provável da sua incompetência política (entre 4 e 5 por cento) até 2025 (?!), se lá conseguir chegar à frente do partido. O drama é que as segundas e terceiras figuras dos dois partidos não são melhores – algumas até são de meter medo ao susto!

 

3. A vantagem das direitas é, admito, a sua elasticidade. Não se ralam de afirmar tudo e o seu contrário e, mais ainda, persistem em atrair e defender as vítimas das suas políticas, que nem sequer se apercebem dessa contradição. O “rearmamento ideológico” dessas direitas “descomplexadas”, em vários países da Europa à deriva, passa por transformar aquilo a que chamam “pensamento único de esquerda” e, claro, os partidos de esquerda, nos bodes expiatórios do ressentimento popular. Essas novas direitas arvoram os pendões do nacionalismo, da tradição e da História, moldados às suas convicções ideológicas – como fizeram, in illo tempore, Salazar e António Ferro –, para sujeitar às suas políticas neoliberais, tributárias do mercado todo-poderoso, fracções das classes populares divididas, atomizadas, inseguras e sem verdadeira consciência de classe. Chega a ser angustiante não perceber que é precisamente o “divino mercado” que alimenta certas chagas, como o hedonismo e a pornografia, que as direitas tradicionalistas acusam de todos os males, para aliciar um eleitorado popular alarmado e, regra geral, conservador nos costumes – como salienta Serge Halimi, director do Le Monde Diplomatique, no seu prefácio à edição francesa do livro de Thomas Franck Pourquoi les pauvres votent à droite (Agone, 2001, 2013). Neoliberalismo e puritanismo de mãos dadas!

Declínio nacional e decadência moral são a pungente melodia destinada a preparar os espíritos para as terapias de choque neoliberais – escreve Serge Halimi. Para as novas direitas, é urgente combater o “pensamento único de esquerda”, responsável, dizem elas, pelo “enquistamento da economia” e pela “atrofia do debate público” (aqui, o dr. Paulo Rangel deverá exultar!). Essas direitas pretendem redefinir a questão social de maneira a que a linha de clivagem deixe de opor ricos e pobres, capital e trabalho, e passe a dividir em duas fracções o “proletariado” ou as classes populares, entre “os que já não aguentam fazer tantos esforços” e os que “vivem da assistência do Estado”. O rancor faz carburar a locomotiva conservadora da “maioria silenciosa” inventada nos EUA por Nixon e pela direita republicana, na longínqua década de 1970, antecedendo Reagan, o Tea Party, Bush filho e Trump.

Um dos maiores inimigos da esquerda é, sem dúvida, a insegurança económica que foi desencadeada pelo “novo capitalismo” (neoliberalismo ou ultraliberalismo), que provocou várias fracturas nas classes populares e nas classes médias, impelindo as mais tradicionalistas, nacionalistas ou mesmo reaccionárias a buscar segurança nos partidos políticos mais conservadores, os quais, se por um lado desfraldam a bandeira dos “valores” da tradição e defendem um regresso à ordem – social, racial, sexual e moral –, por outro lado apoiam as reformas económicas postas em prática pelos neoliberais, responsáveis pelo aumento do fosso que separa ricos e pobres e pela instabilidade social crescente que, afinal, põe em causa a ordem e os valores. E é esta a suprema hipocrisia e a maior impostura que a direita comete!

Há uma velha receita da direita bastante lógica: para não ter de se alongar sobre a questão dos seus interesses (económicos) – o que é prudente quando se defende os interesses de uma minoria da população –, convém à direita mostrar-se inflexível na defesa dos “valores”, da “cultura” e das “posturas”, a saber: ordem, autoridade, trabalho, mérito, moralidade e família. O dr. Oliveira Salazar não diria melhor, mas talvez mandasse acrescentar, in illo tempore: fado, futebol e Fátima…

 

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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