15/9/19
 
 
Afonso de Melo 05/06/2019
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

E em cada regresso a casa...

Aqui, no velho lugar das Antas, não ganhámos à Grécia. Depois, não ganhámos outra vez. Nunca ganharemos à Grécia aquela final negra da Luz. Por mais que a seleção nacional ganhe no futuro, esse jogo está irremediavelmente perdido. Sem remissão.

Há muitos anos, aqui mesmo, no Porto... Há 15 anos, como explicá-lo? Aquela velha pergunta que fica sempre sem resposta: porque passam as horas tão devagar e os anos tão depressa? Algo de especial entre todos nós. Como um compromisso. De irmãos que ficámos desde aí. Até hoje. Não houve um final feliz, mas eu garanto-vos que fomos felizes. Tal como agora, havia uma taça para ganhar, uma taça que depois outros ganharam, em França, nesse dia que ficará para sempre na aldeia branca da nossa memória. A Taça Henri Delaunay, a prata esterlina com um plinto de mármore. Toquei-lhe ao de leve quando entrámos em campo e ela ali estava. Não seria nossa ainda.

Aqui, no velho lugar das Antas, não ganhámos à Grécia. Depois, não ganhámos outra vez. Nunca ganharemos à Grécia aquela final negra da Luz. Por mais que a seleção nacional ganhe no futuro, esse jogo está irremediavelmente perdido. Sem remissão.

Ai, se Lisboa soubesse...

Ai, se o país inteiro soubesse como iria acabar a sua farra...

Aqui, nas Antas, depois do jogo, havia tristeza, mas também uma crença. Saímos do estádio e o povo tinha uma alegria comovente espalhada por dentro e trouxe- -a para as ruas do Porto à medida que o autocarro marchava, pesado, em direção ao aeroporto. Nas varandas das casas de bandeiras penduradas às janelas, um aplauso sentido de quem acreditava. Acreditou sempre. E aí, no meio da noite, uma certeza como uma estrela. Primeiro baça, depois brilhante.

Mais tarde, em Alcochete, fiquei muito tempo em silêncio, relembrando cada minuto dos 90 minutos da derrota. A madrugada trouxe consigo a luz, mas já tínhamos tido uma luz por dentro. A luz bela e sombria que oculta o mistério do Porto nascera dentro de nós. O sentimento moía, cantaria o meu amigo Rui Veloso. Palmas e gritos mataram a derrota. E esse jogo perdido, nós ganhámos! Como se tivéssemos regressado a casa...

 

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