26/02/2024
 
 
Alfredo Barroso 27/05/2019 09:53
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@ionline.pt

A “orbanização” da extrema-direita na Europa

O espectáculo realmente indecente, de incapacidade e impotência, que a UE representou face à terrível crise dos refugiados, constituiu, sem a menor dúvida, um dos principais pretextos para os movimentos nacionalistas, xenófobos, populistas e racistas se expandirem.

Há precisamente dois anos, em Maio de 2017, o grande historiador italiano Enzo Traverso (n. 1957) avisou: “Se, depois do traumatismo do Brexit, a União Europeia não for capaz de mudar de rumo, não merecerá sobreviver”. Em 2017, longe de se erguer como um obstáculo ao crescimento das direitas radicais ou extremas, a UE continuava a legitimá-las e a alimentá-las. E em 2019 nada mudou.

A União Europeia tornou-se uma construção política desarticulada que foi, pouco a pouco, corroendo as soberanias nacionais para submeter os seus países membros à soberania supranacional dos mercados financeiros. As políticas de austeridade que impôs, com total inflexibilidade, a países como a Grécia e Portugal, através da Troika (BCE + FMI + Comissão Europeia), privilegiando a defesa dos bancos e dos plutocratas em prejuízo das classes médias e das classes populares, constituíram um sinal iniludível da deriva tecnocrática e burocrática de Bruxelas.

Por outro lado, o espectáculo realmente indecente, de incapacidade e impotência, que a UE representou face à terrível crise dos refugiados, constituiu, sem a menor dúvida, um dos principais pretextos para os movimentos nacionalistas, xenófobos, populistas e racistas se expandirem e erguerem as suas bandeiras contra as elites europeias instaladas no poder, em Bruxelas e nos países membros.

Em 2017, Enzo Traverso salientava que, entre 2004 e 2014, a Comissão Europeia foi presidida por Durão Barroso, actual chairman do Goldman Sachs (o banco mais predador da economia e finanças gregas, nos ‘antecedentes’ da Troika); tendo-lhe sucedido, em 2014, Jean-Claude Junker (durante quase 20 anos primeiro-ministro e ministro das Finanças desse ‘paraíso fiscal’ que é o Luxemburgo); sem esquecer um outro representante do tentacular Goldman Sachs, Mário Draghi (porventura o mais competente do “trio maravilha”), o qual, como presidente do Banco Central Europeu, logrou ‘salvar’ o euro para alívio do capitalismo financeiro.

Entretanto, os movimentos de extrema-direita foram-se desenvolvendo em vários países europeus e agregando em torno do “evangelizador magiar” Viktor Orban, o primeiro-ministro húngaro “iliberal”, nacionalista, xenófobo, racista, populista, pós-fascista ou neofascista (a imprecisão conceptual ainda prevalece), “encantando” à sua roda outros políticos de extrema-direita como, por exemplo: o italiano Matteo Salvini, o polaco Jaroslav Kaczynski, o romeno Liviu Dragnea, a francesa Marine Le Pen (mas também o ex-PR Nicolas Sarkozy), o britânico Nigel Farage, o austríaco Heinz-Christian Strache (hoje caído em desgraça por corrupção), o holandês Geert Wilders (que promete acabar com a “escumalha marroquina” no seu país), além do turco Recip Erdogan e, claro!, do russo Vladimir Putine. Sem esquecer, do outro lado do Atlântico, não só o “pistoleiro” brasileiro iletrado e racista, Jair Bolsonaro, mas, sobretudo, o macho grotesco e cerdo chauvinista Donald Trump, Presidente dos EUA, um político ignorante, fascizante e xenófobo que pretende, à viva força, mergulhar o mundo, não só numa “guerra comercial” com a China, mas também numa “guerra quente” com o Irão, que seria uma imensa catástrofe.

A divisa do partido de Viktor Orban, o FIDESZ, não deixa de ser chocante. Diz ela: “Nós salvaremos a Europa cristã contra a contaminação multicultural pretendida pela União Europeia”. O que é, no mínimo, ridículo, num país onde apenas 3 % de jovens adultos confessam ir à missa e cujo primeiro-ministro critica furiosamente as declarações do Papa Francisco em defesa da dignidade e do acolhimento dos refugiados. Também é muito curioso que esta ‘deriva liberticida’ – tanto de Viktor Orban, na Húngria, como de Jaroslav Kaczynski, na Polónia –, que disparou desde a “crise migratória” de 2015, seja sublinhada por repetidas proclamações de anti-comunismo, quando o fenómeno a que se assiste, nessas “fortalezas sitiadas por refugiados” – que, aliás, nunca almejaram instalar-se nesses dois países – é uma progressiva renúncia à democracia, através de esquemas muito semelhantes aos dos regimes comunistas derrubados durante a década de 1990.

Do ponto de vista estritamente ideológico, a confusão é patente entre “familiares” da extrema-direita, mas o que os une é, por enquanto, mais forte: o nacionalismo, a xenofobia, o racismo, a demagogia política, e o desprezo pela democracia e pela liberdade. Diz-se, regra geral, que os episódios da História nunca se repetem, mas a minha intuição diz-me que alguns deles são, pelo menos, muito parecidos. Para já, as forças que dominam a economia global – capital financeiro e plutocracia – ainda apoiam Bruxelas, os seus tecnocratas e burocratas, assim como os políticos coniventes ou simplesmente conformistas. Mas, como lembrou Enzo Traverso, em 2017: “Numa situação caótica prolongada, tudo se torna possível. No fundo, foi o que se passou na Alemanha entre 1930 e 1933, quando os nazis abandonaram o seu estatuto de movimento minoritário de plebeus enraivecidos, para se tornarem os interlocutores dos grandes konzern (grupos empresariais), das elites industriais e financeiras e, depois, das próprias forças armadas (Wehrmacht)”.

Como lamenta Régis Debray, a Europa já deixou de ser um sítio do mundo em que a economia não ditava a lei, em que a política ainda se sobrepunha ao negocismo (business), e os assuntos públicos eram bem mais importantes do que os bancos. Só que: “Bruxelas adoptou a hierarquia de valores próprios dos EUA. E nela fala-se inglês e pensa-se americano. Daí o círculo vicioso; esta construção artificial – que cada dia o é cada vez mais – tornou-se a expressão do neoliberalismo económico mais destrutivo e, por essa via, reactivamente, fornecedor dos nacionalismos mais obtusos”. Porque é disso que se trata nesse irreal ‘círculo de giz reaccionário’ que foi sendo traçado em torno do “evangelizador magiar” Viktor Orban.

E em Portugal? Por cá, o fenómeno de “orbanização” da direita não tem avançado graças à solução de Governo que os partidos de esquerda conceberam para tornar viável o Governo minoritário do PS. Mas ameaças existem, sobretudo oriundas dos sindicatos, quer ‘controlados’ pelo PCP (caso da FENPROF, do ‘maximalista’ Mário Nogueira), quer ‘controlados’ pelo PPD-PSD (caso da FNE, de João Dias da Silva, e, sobretudo, caso da bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, que já foi da direcção do PPD e que controla os sindicatos que lhe são fiéis).

De resto, existem nos partidos da direita com representação parlamentar sectores mais radicais, direi mesmo “miguelistas”, como o dos adeptos de Passos Coelho e do truculento Paulo Rangel (no PPD) e o dos adeptos de Nuno Melo e de Assunção Cristas (no CDS), que primam, todos eles, pelo recurso sistemático à provocação e ao insulto contra a Esquerda, mas revelam uma total vacuidade do ponto de vista ideológico. Para os perceber um pouco melhor, só lendo algumas prosas bastante reaccionárias que são ‘enxame’ quotidiano no jornal on-line Observador…

 

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline