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Joana Mortágua 23/05/2019
Joana Mortágua
Cronista

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Cativaram-nos o Tejo

O barco acabou por não sair e os 180 passageiros ficaram em terra sem qualquer alternativa de transportes públicos para os levar a casa àquela hora. Como a Soflusa não conseguiu encontrar solução, 20 desses passageiros acabaram por dormir no terminal do Terreiro do Paço.

A poucos dias de eleições europeias, há uma equação de que é preciso falar. Junta a Margem Sul, o país, a Europa e a democracia, e fala de um rio.

Vem isto a propósito de um episódio que muita gente viu nos jornais e eu não pensava ser possível nos dias de hoje. Aconteceu há duas semanas, numa sexta-feira à meia-noite, quando 180 pessoas se preparavam para regressar a casa no último barco que faz a ligação entre Lisboa e o Barreiro. O barco acabou por não sair e os 180 passageiros ficaram em terra sem qualquer alternativa de transportes públicos para os levar a casa àquela hora. Como a Soflusa não conseguiu encontrar solução, 20 desses passageiros acabaram por dormir no terminal do Terreiro do Paço, como se o Barreiro estivesse fechado.

Este é o episódio mais lamentável do drama diário que é vivido pela população da Margem Sul com a degradação dos transportes públicos, as supressões de carreiras, avarias constantes, falta de pessoal e horários que impõem recolher obrigatório.

Porque o rio é mesmo a fronteira que todos os dias centenas de milhares de pessoas atravessam para ir trabalhar ou estudar. Para muita gente, como as mulheres do cacilheiro que partem de madrugada para fazer limpezas em Lisboa, os dias sem barco são dias roubados, são dias sem trabalho.

Algumas delas são de Almada, e mesmo vivendo nos bairros que ficam a dois passos da estação de comboios do Pragal, não podiam dar-se ao luxo de apanhar o comboio porque o passe da Fertagus é muito mais caro do que o da Transtejo/Soflusa ou dos TST.

E assim nos entendemos como o rio pode ser uma fronteira de democracia, porque a maneira como as pessoas o atravessam tem uma marca social. Apanham um transporte para ir ganhar a vida, mas são elas quem acaba por transportar consigo a desigualdade social que ele representa.

É toda essa a importância dos novos passes que entraram em vigor no dia 1 de abril. A partir de agora, um passe é um passe, e todos pagam o mesmo, um bancário da Fertagus ou uma mulher do cacilheiro. Já não são 60, nem 90 nem 120 euros, são 40 euros para todos. Esta medida mudou a vida das pessoas e o Bloco está orgulhoso por ter lutado por ela e ter vencido.

Mas o passe serve de pouco quando não há barco. E o problema é que não tem havido barcos, e não tem havido porque há falta de investimento público na Transtejo e na Soflusa.

O Governo da direita deixou metade da frota da Transtejo inoperacional. E este Governo acordou demasiado tarde para o problema. Acordou tão tarde que 20 pessoas tiveram de dormir no terminal do Terreiro do Paço. A indignação da população é legítima, como o são os protestos dos utentes e dos trabalhadores. O Bloco de Esquerda tem sido voz dessa indignação, e cabe-nos perguntar a Mário Centeno se este é o retrato de um país de contas certas.

Cativaram-nos o Tejo. Porque mesmo num cenário pré-rutura, de caos nos terminais, o investimento na Transtejo e na Soflusa e as contratações de tripulação caem a conta-gotas.

A nova medida dos passes vai trazer milhares de novos passageiros aos transportes da Margem Sul. O ministro Pedro Marques conhecia este cenário quando anunciou um novo passe que iria tirar 42 mil carros de Lisboa. Seria caso para perguntar ao candidato Pedro Marques se deixou o cheque assinado para o investimento na Transtejo/Soflusa ou se planeia mudar de rumo e ser barqueiro.

É que os novos navios para a Transtejo só estão anunciados para daqui a uns anos. E os barcos da Soflusa não andam porque, dos 24 mestres que são precisos, só há 16 e o ministério só autorizou a promoção de mais 4. Quem sofre são as populações.

Chegados aqui, acho que já todos percebemos qual é a equação que junta a Margem Sul, o país, a Europa e a democracia. Chama-se investimento público, aquele que protege os nossos direitos, o direito à habitação, à mobilidade, à educação, à saúde, o mesmo de que precisamos para fazer frente às alterações climáticas.

É por isso que as políticas do passado não nos servem. E se isso não fosse claro, transparente ficaria quando Paulo Rangel apresenta Passos Coelho para falar de impostos e Nuno Melo exibe Pedro Mota Soares a uma senhora que se queixa da sua reforma. São fantasmas do Governo passado para nos lembrar que fizemos bem em mudar de página.

Não contamos com eles para defender investimento público nos transportes. Mas também não nos servem as imposições de uma Comissão Europeia que continua a defender uma política de Estado mínimo através do Tratado Orçamental. Esse confronto com Bruxelas ainda é o que falta fazer.

É esse confronto que a Marisa Matias tem feito todos os dias enquanto eurodeputada. Esteve bem quanto levou uma maioria do Parlamento a rejeitar a transposição das regras do Tratado Orçamental para o direito comunitário. E esteve bem quando defendeu o país das sanções, para proteger os salários, o Estado social e a democracia, que nos permite decidir aqui o nosso futuro.

Toda a gente sabe quem é a candidata que apoio. O que é preciso relembrar é que, no domingo, as eleições também são sobre as 20 pessoas do Barreiro. Ou são absolutamente sobre elas.

 

Deputada do Bloco de Esquerda

 

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