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José Cabrita Saraiva 21/05/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Este sim, é o verdadeiro ópio do povo

O ópio, como todos sabemos, provoca uma sensação agradável. Mas provoca também adição. E tem um efeito anestesiante que deixa o seu consumidor apático e alheado da realidade.

O Benfica conquistou nesta época o 37.º campeonato nacional da sua história e uma parte significativa do povo português (não se veja aqui qualquer sentido pejorativo) entrou em delírio.

É verdade que houve motivos para isso. A um início frouxo da equipa encarnada seguiu-se uma espetacular recuperação, em que brilhou uma constelação de jovens talentos formados no clube da Luz, com João Félix à cabeça. E um treinador de quem até aqui ninguém tinha ouvido falar foi elevado à condição de herói improvável. Bruno Lage brindou os fãs do clube com grandes exibições, fez um percurso imaculado na liga portuguesa e transformou a equipa do Benfica numa temível máquina de marcar golos. Notável!

Dito isto, é preciso reconhecer que a cobertura mediática dada ao futebol peca pelo exagero. Têm sido dias sucessivos em que as televisões não falam de outra coisa e fica-se com a noção de que só um cataclismo poderia interromper a emissão em direto de algo tão trivial quanto a ida dos adeptos para o estádio, os festejos na rua ou o acompanhamento do trajeto do autocarro encarnado a caminho do Marquês ou da Praça do Município. Os telespetadores são bombardeados dia após dia com horas de diretos que, diria eu, só poderão interessar aos mais fanáticos. Às quais se juntam outras tantas horas de painéis de comentadores, como se fosse uma paisagem ou ruído de fundo, a falarem ad nauseam quando já nada sobra para dizer.

O facto é que o futebol está verdadeiramente a tornar-se o ópio do povo. Se no séc. XIX Karl Marx aplicava este epíteto à religião, findo o primado da Igreja o povo voltou-se para a bola, que desperta também uma espécie de fanatismo religioso.

O ópio, como todos sabemos, provoca uma sensação agradável. Mas provoca também adição. E tem um efeito anestesiante que deixa o seu consumidor apático e alheado da realidade. Claro que quando a realidade nos desilude ou nos desagrada, o futebol pode proporcionar um alívio muito bem-vindo. E é da maior utilidade para aqueles a quem interessa manter o povo distraído. 

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