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Dia D. EDP conhece hoje o desfecho da OPA lançada pelos chineses

Dia D. EDP conhece hoje o desfecho da OPA lançada pelos chineses

Mafalda Gomes Sónia Peres Pinto 24/04/2019 08:10

Analistas contactados pelo i acreditam que a operação não irá avançar. Além do valor oferecido ser considerado baixo, a OPA necessita de várias autorizações e enfrenta ainda a resistência do fundo Elliott e dos Estados Unidos.

Vai ser conhecido hoje o desfecho da Oferta Pública de Aquisição (OPA) da China Three Gorges à EDP. Os acionistas vão estar reunidos esta tarde em Assembleia-Geral (AG) onde votarão vários pontos, nomeadamente a desblindagem dos estatutos, um pedido feito pelo fundo norte-americano Elliott - também acionista da elétrica, com uma participação de quase 3%. O acionista chinês já disse esta semana que não vai renunciar à condição imposta na OPA, desde que seja aprovada a desblindagem de estatutos.

“A CTG gostaria de declarar irrevogavelmente a todos os interessados e, em especial, aos acionistas da EDP que todas as condições a que o lançamento da oferta se encontra sujeito permanecem em vigor e, especificamente, no caso de o resultado da votação não permitir a eliminação do atual limite à contagem de votos, que a CTG não renunciará a essa condição”, revelou na segunda-feira, em comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Isto significa que a operação ficará sem efeito se a votação na AG for desfavorável aos chineses.

Os analistas contactados pelo i mostram-se pouco otimistas em relação ao sucesso da operação. “A desblindagem de estatutos passa pela remoção dos entraves que possam existir - golden shares, múltiplos direitos de voto, etc. - perante a tomada de controlo de uma empresa por parte de novos acionistas ou agrupamentos. Este processo iniciou-se a 11 de maio de 2018, sendo que se encontra há praticamente um ano, sem qualquer tipo de desenvolvimento, tornando-se apenas numa barreira para a EDP em várias frentes, daí que o resultado da OPA esteja dependente do peso que os comentários do fundo possam ter na votação, mas tendo em conta fatores históricos tudo aponta para a revogação da proposta”, considera a XTB. 

A posição da China Three Gorges foi avançada depois da CMVM ter confirmado que a votação sobre o limite dos votos na EDP é decisiva para o desfecho da OPA, deixando um ultimato. A CMVM decidiu que, no caso de o voto não ser favorável, fica desde já decidida a não verificação de uma das condições para a OPA avançar. E no caso de os acionistas votarem a favor, dará 45 dias aos chineses para as restantes condições ficarem garantidas.

E apesar deste possível travão à oferta, a CTG afirma que “já obteve resultados positivos num grande número de aprovações regulatórias” e garante continuar “a trabalhar ativamente para a conclusão bem-sucedida dos demais processos”. Revelou ainda que irá respeitar as decisões das autoridades e da Assembleia Geral e deixou a promessa de que “permanecerá como investidora estratégica de longo prazo da EDP”, isto “independentemente do resultado final da oferta”.

Uma garantia que, segundo a corretora, deverá acontecer. E dá uma explicação: “Tendo em conta a ‘história’ que ambas as empresas têm no crescimento simbiótico desde 2012, acredito que podemos contar com o apoio estratégico da CTG, primeiramente pela Agenda de Cooperação Estratégica de 2020 entre UE-China, que ambiciona reduzir as diferenças políticas e económicas entre as duas potências de modo a fortalecer os mecanismos de governação global. Em adição, as conversas de negociação estão em fases preliminares, portanto podemos verificar que um acordo de investimentos entre os dois membros poderá enaltecer a reforma económica, até por empresas do Estado, e a liberalização do mercado na China, daí a CTG ter mais incentivo a manter uma boa relação, e possíveis desenvolvimentos futuros do que abandonar um parceiro de negócio, cuja relação até à data tem sido benéfica”. 

Ainda assim e, apesar de ser um cenário pouco provável, caso a proposta seja aprovada existem alguns problemas que a CTG precisará resolver, nomeadamente relacionados com reguladores nos EUA. “Além dos Estados Unidos a CTG terá que lidar com, pelo menos, 25 reguladores de 14 jurisdições diferentes, incluindo uma ida a Bruxelas que se poderá revelar decisiva”, salienta a corretora.

Na semana passada, António Mexia garantiu que os “acionistas terão oportunidade de dizer o que pensam sobre a OPA”, na Assembleia-Geral, garantindo que a empresa estava “no fim do período da incerteza”. A operação foi anunciada em maio sobre a totalidade do capital da elétrica, avaliando-a em 11,9 mil milhões, oferecendo 3,26 euros por ação. Um valor que está aquém do que vale atualmente a elétrica. “Neste momento, os títulos valem 3,49 euros por unidade, esta lembrança poderá inviabilizar o sucesso da OPA, à exceção de o gigante chinês fazer uma reavaliação do preço”, diz ao i a corretora XTB.

Operação com entraves O que é certo é que desde que a operação foi lançada foram surgindo várias vozes a anunciar o fracasso da operação. O embaixador norte-americano em Portugal, George Glass, chegou a admitir que Washington não iria permitir que os chineses controlem os EUA. “A EDP controla 80% da energia elétrica em Portugal. Do ponto de vista dos Estados Unidos, do ponto de vista de negócios, como do meu ponto de vista pessoal, não deve haver uma entidade estrangeira a deter a vossa energia elétrica. Deve ser controlada pela Nação ou pelos privados sob regulação nacional. Não é o caso do que está a ocorrer com a EDP”, disse em entrevista ao Jornal Económico. O diplomata revelou também que os Estados Unidos opõem-se “absolutamente” a este negócio, por uma questão de segurança nacional, deixando a garantia de que “em nenhuma circunstância os chineses vão controlar o que a EDP tem nos Estados Unidos, o terceiro maior produtor de energia renovável”.

Também os vários analistas contactados pelo i têm vindo a antecipar que a oferta pública de aquisição não chegaria a bom porto. Primeiro porque as negociações entre as duas empresas “não parecem estar bem encaminhadas, uma vez que existem vários impedimentos regulatórios nesse sentido”. Depois, o fundo Elliott afirmou que a cotação atual da EDP em bolsa está abaixo das estimativas de mercado, “o que tornará os rendimentos do conglomerado nacional ainda mais voláteis, aumentando a incerteza relativamente a um desfecho bem-sucedido da OPA em curso”. 

Em causa está a carta do fundo americano Elliott, que detém 2,9% do capital da elétrica, enviada ao presidente do conselho geral da empresa em fevereiro a alertar para o impasse criado pela oferta da China Three Gorges, chamando a atenção para que o preço oferecido pelos acionistas chineses ser “excessivamente baixo”, acabando por “subavaliar significativamente” a empresa liderada por António Mexia.

“A oferta da CTG, tal como se encontra atualmente, não favorece os melhores interesses dos stakeholders [financiadores] da EDP e, em última análise, conduzirá a um enfraquecimento da EDP que será uma empresa mais volátil, com um conjunto de ativos menos atrativo e com poucas oportunidades de crescimento”, disse o fundo, também conhecido como ‘Abutre da Argentina’.

De acordo com os analistas, “a carta enviada pelo fundo Elliott pretende minar as negociações da OPA em curso entre a EDP e a CTG, apresentando uma alternativa aparentemente mais interessante para aumentar o potencial de crescimento da EDP”, admitindo que isso poderá influenciar as negociações da OPA em curso, apesar de não ser decisivo para o seu desfecho, mas essa perspetiva “será naturalmente considerada pelos decisores envolvidos nas negociações”. 

Apesar das incertezas, António Mexia tem vindo a afastar o cenário de que a OPA poderia estar a condicionar a atividade da EDP, assim como a elaboração do seu plano estratégico que foi aprovado em março. “Não temos passividade, mas temos dever de lealdade. Obviamente, há operações que não podem ser feitas quando se está debaixo de uma OPA. Mas não é isso que está a acontecer”, chegou a afirmar.
 

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