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Alexandra Duarte 22/04/2019
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

O que o medo nos faz

Temos a tendência para perder a nossa racionalidade quando nos sentimos com medo, ativando instintivamente o nosso lado mais primitivo que nos permite sobreviver face aos perigos.

No continente americano, milhares de pessoas atravessam vários países para chegar à fronteira desejada – a dos Estados Unidos da América. Famílias inteiras pegam nas suas crianças, nos valores que podem transportar, nalgumas roupas e fazem-se à estrada com um único destino no horizonte. Muitos não sabem o longo caminho que têm pela frente, mas a promessa de uma vida melhor para si e para os seus filhos, dá-lhes a força necessária para que se sintam capazes de se lançarem no desconhecido e sem qualquer certeza do seu futuro.

Uns fogem da miséria e da indigência precária, outros da guerrilha; uns procuram a segurança, outros só querem pão para a boca das crianças. 

Esta rota estabelece-se na América Central, de sul para norte, e tem origem em três pontos: Guatemala, Honduras e El Salvador. Apesar de terem origens diferentes, todas estas pessoas acabam por se encontrar no México, a última paragem antes do destino final. A viagem é árdua, mas, nos últimos meses, tornou-se ainda mais dura, dificultada pelas forças de segurança mexicanas que, cumprindo ordens do novo Presidente, Andrés Obrador, detêm estes migrantes ainda antes de alcançarem a fronteira de Donald Trump. As imagens impressionam, ao vermos como fogem dos polícias e dos soldados que lhes prometem um transporte seguro até à fronteira, dizendo a estas pessoas que os querem ajudar no seu cansaço, fingindo uma empatia com a sua condição de migrantes. A verdade, que se esconde por detrás de um sorriso que os empurra, literalmente, para dentro de uma carrinha, contra a sua vontade, é revelada no momento em que são despejados num campo de acolhimento, do qual poderão nunca mais sair. Só num mês foram detidas mais de 100 mil pessoas sem documentos.

Sob pena de diminuir as trocas comerciais, a Administração norte-americana pediu ao recém-eleito Presidente do México que impedisse as colunas de migrantes de alcançarem a fronteira, permanecendo ali até que lhes fosse autorizada a entrada nos EUA. Desta forma, o número de pessoas que chega às fronteiras norte-americanas diminui, não porque as razões que estão na origem da fuga tenham desaparecido, mas simplesmente porque a viagem é interrompida, ainda antes do destino ser avistado.

Para nós, que estamos deste lado do Atlântico, é uma realidade imaginada, ilustrada por testemunhos de alguns refugiados que foram recebidos em Portugal, vindos do norte de África e de países como a Síria, ou o Afeganistão.
Dificilmente conseguimos sentir o mesmo que um guatemalteco sente quando toma a decisão de fugir à probabilidade dos seus filhos virem a engrossar os cerca de 46% da população que vive abaixo do limiar da pobreza. 

Basta ver como os portugueses reagiram a uma simples greve dos motoristas de matérias perigosas, designadamente os combustíveis. O receio de vermos a nossa vida diária privada de combustível, indispensável à utilização do carro no dia a dia, levou multidões aos postos de abastecimento para atestarem os depósitos, mesmo que ainda estivessem a meio. Um histerismo coletivo que contagiou todos os que participaram neste folclore, somente impulsionado por uma carência: o combustível para o automóvel e afins.

Temos a tendência para perder a nossa racionalidade quando nos sentimos com medo, ativando instintivamente o nosso lado mais primitivo que nos permite sobreviver face aos perigos. Uns fogem, outros abastecem-se, consoante as circunstâncias, mas o denominador é comum – o medo. É assim desde sempre e irá continuar a ser, por mais tecnologia evoluída que inventemos, por mais que neguemos a religião na nossa existência, e ainda que centremos o universo dentro de cada um de nós, promovendo a individualidade, com a ilusão de que somos o que de mais importante há no cosmos.

Quando as portas se fecham a quem procura a paz, aos que fogem da pobreza, a todos os que precisam de proteção, às crianças que põem a vida em risco só para terem um futuro, a indiferença ganha. O medo do outro, que já está fragilizado, revela-se egoísta na manutenção dos nossos pequenos prazeres. 

O século XX foi designado como o século do povo, com a afirmação dos direitos humanos, enriquecidos com outros direitos que se foram conquistando e somando à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, revista em 1948, pela Organização das Nações Unidas. Um documento que caiu no esquecimento e com ele o espírito da fraternidade que era invocado no tratamento de todos os homens que estivessem em perigo.

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