25/8/19
 
 
António Galamba 22/04/2019
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Um país à justa

Se não conseguimos prepararmo-nos para o que é antecipável, como reagimos perante o imprevisto? O desenrasca não é solução.

Não deixa de ser caricato que uma nação que tem a suas fronteiras estabilizadas há mais tempo, evidencie uma incapacidade congénita de adotar modelos de organização que antecipem cenários negativos e estabeleçam rotinas de reação em função dos acontecimentos. Se não conseguimos prepararmo-nos para o que é antecipável, como reagimos perante o imprevisto? O desenrasca não é solução para tudo e em todas as ocasiões.

A verdade é que, descontadas as euforias de quem está no poder ou o negativismo de quem está na oposição, o país está no limiar, está à justa, em demasiados setores relevantes, estratégicos e vitais para a vida das pessoas e paras as dinâmicas das comunidades. A crise dos combustíveis evidenciou essa fragilidade, depois de há anos ela já ter sido revelada por movimentos similares dos transportadores rodoviários. O drama de tudo isto é que quando começam a emergir dinâmicas desestruturadas ou realidades relâmpago, como o do sindicato que liderou o protesto, os modelos estáticos de organização do Estado e dos procedimentos de emergência são incapazes de fazer o que é preciso em tempo útil para antecipar, acautelar e salvaguardar mínimos. A inconsistência dos serviços mínimos adotados num primeiro momento e posteriormente corrigidos por gritantes omissões sublinha essa impreparação de quem governa e de que está ao serviço da República. E não colhe o argumento de se tratar de uma questão entre privados, porque a falha registou-se na antecipação dos efeitos e na definição do elenco e nos territórios de abrangência dos serviços mínimos em que o Estado estava ou deveria estar presente para defender o interesse comum. Parece ser verdade que desde o dia 1 de abril, data da apresentação do pré-aviso de greve, se sabia que algo iria acontecer no transporte de matérias perigosas e fez-se muito pouco para evitar o alarme operacional e social, em véspera de fim-de-semana da Páscoa.

Infelizmente há uma reincidência de erro na avaliação das situações ou dos seus impactos que se está a converter em padrão do exercício do poder pelo governo que, num contexto de gestão de um país com diversos setores à justa, apresenta riscos acrescidos de condicionamento das respostas, para além de ser uma situação insustentável.
É que já não bastava termos tido um governo PSD/CDS que não acautelou as questões de interesse estratégico nacional antes de concretizar as privatizações que realizou, agora temos graves erros de avaliação, de planeamento e de antecipação que acabam por sublinhar a realidade do país, além da espuma dos dias:
-Um país à justa, nos recursos disponíveis e nas respostas estruturadas, correntes e de emergência;
-Um país nervoso em relação ao funcionamento dos serviços que considera importantes para os seus ritmos de vida e para os seus padrões de qualidade de vida;
- Um país impreparado para situações de exceção, quer nos mecanismos de planeamento, quer no comportamento geral da sociedade face às ocorrências, desde logo, pelo comportamento mediático.

A semana que antecedeu as comemorações dos 45 anos sobre o 25 de abril de 1974 é sintomática das nossas dependências como comunidade, das fragilidades do nosso modelo de organização e da insuficiência de preparação para assegurar a sustentabilidade do seu funcionamento.

Estamos demasiado à justa para sermos capazes de ser resilientes e manter mínimos estruturados de resposta planeada perante as adversidades, sejam elas impulsionadas pela ação humana ou por causas naturais. Este contexto, a par do tom enunciado no acordo que desmobilizou a greve e das conquistas obtidas, é gerador de uma perceção de vários setores profissionais de que, perante as fragilidades e o momento pré-eleitoral, vale a pena forçar impactos negativos, mais ou menos desestruturados e sem paralelo nos quadros de referência anteriores para atingirem determinados fins. É o triunfo do vale tudo nas movimentações sindicais ou sociais, depois de expressões no quadro político-partidário. Será sempre uma expressão democrática, mas de um país poucochinho demasiado à justa.

A Escola Pública, o Serviço Nacional de Saúde, os Serviços Públicos, a Segurança, a Defesa Nacional e tantas outras expressões de funções que Estado assumiu desenvolver, evidenciam diariamente sinais de exaustão que contrariam a narrativa vigente e geram ambiente para o aproveitamento das oportunidades geradas pelas cativações, as opções políticas e uma deriva de rapar o tacho em tudo que no público e no privado é gerador de ganhos. Sinaliza-se que bom mesmo é ser poucochinho, para não ser incomodado e reivindicar mais recursos do Estado Central, mesmo que signifique funcionar à justa.

Quarenta e cinco anos depois, precisamos de mais.

NOTAS FINAIS

À JUSTA NO PATRIMÓNIO. O incêndio de Notre Dame, em Paris, tocou-nos a todos pelo que representava a catedral, pelo imaginário e pelo simbolismo em relação ao estado da Europa em que nos integramos, mas não vi nem vejo indignação e comoção em relação ao nível de degradação e de falta de conservação de alguns monumentos nacionais, que se constituem em pequenos incêndios da nossa memória coletiva.

À JUSTA NO RECONHECIMENTO. A República não tem a culpa, mas quem exerce o poder em seu nome tem lapso graves de memória e de atenção. Comemoramos 45 anos de Liberdade e Democracia, de abertura à porta da participação democrática em eleições. Morreu o Jorge Miguéis, provavelmente o português que mais sabia sobre a organização de atos eleitorais em Portugal. Como responsável do PS quantas vezes não me socorri da sua sapiência da responder a dúvidas próprias ou de terceiros. O Jorge era uma Funcionário Público de excelência, que muito fez por uma das mais importantes expressões do Abril que comemoramos: a participação eleitoral. A República não reconheceu em vida o seu contributo, que o faça quando não está entre nós. Mais vale tarde do que nunca.

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