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Os Carnavais mais genuínos de Portugal

Os Carnavais mais genuínos de Portugal

Marta F. Reis 05/03/2019 14:51

Para lá dos grandes corsos de Ovar, Sesimbra, Mealhada, Loulé e Torres Vedras, há aldeias e vilas que vão mantendo as suas tradições, hoje mais politicamente corretas

Lazarim, Lamego

As tradições repetem-se há mais de um século nesta vila do Douro, com cerca de 700 habitantes. Os protagonistas são os famosos caretos, “esculpidos em madeira de amieiro, fruto de um trabalho meticuloso de artesãos locais, dispostos a preservar a memória histórica das suas gentes e projetar Lamego em todo o mundo”, descreve o município. O ponto alto da festa é a cerimónia de leitura dos testamentos da comadre e do compadre, que se repete todas as terças-feiras de Carnaval.

Paulo Loureiro, presidente da Junta de Freguesia de Lazarim, leva 41 anos de Entrudo e lembra-se bem dos festejos quando era miúdo e também do medo que na altura sentiam dos caretos. “Eram figuras más, que nos assustavam. A tradição dizia que vinham fazer ajustes de contas e nós fugíamos, havia quem fizesse chichi com medo”, recorda ao i. Ninguém sabia quem eram os mascarados, regra que se mantém. “Podia ser o meu pai, nunca sabíamos.” Hoje, os artesãos da terra, o mais novo de 17 e o mais velho de 60, continuam a fazer máscaras novas todos os anos, mas os caretos são mais amistosos: apesar de não falarem, tiram fotografias e metem-se com o público. Continuam a fazer das suas, como “roubar” uma carteira ou outra ou pegar alguém ao colo, mas há menos a tradição de sujarem quem passa com farinha ou ovos. Os jovens da terra começavam por alinhar no disfarce, mas na adolescência passavam a dedicar-se aos testamentos, um despique entre as raparigas e os rapazes solteiros. Eles e elas escrevem quadras que “dedicam” uns aos outros, por exemplo aos estreantes, onde não faltam provocações sexuais, calão, palavrões, ofensas e uma oferenda do burro ou da burra. “O burro é um querido e gosta de satisfazer, deixa-te o que tu mais gostas e que nós não te vamos dizer”, dedicavam a uma das raparigas os solteiros de 2015. À leitura dos testamentos segue-se o desfile de caretos e bombos. E aos caretos da terra juntam-se os que vêm de fora: este ano haverá pelo menos 40 máscaras novas a desfilar – chegam a custar mais de 200 euros. Outra tradição que se mantém é a queima do compadre e da comadre, em que são rebentadas figuras alusivas aos solteiros. Antigamente eram explosivos caseiros; hoje, o espetáculo está a cargo de uma empresa de pirotecnia. A terça de Entrudo termina com uma feijoada comunitária feita em potes de ferro e caldo de farinha, iguaria local. “Hoje há muita preocupação em preservar a memória e os caretos como manifestação cultural. São os dias em que temos mais visitantes”, diz Paulo Loureiro.

Cabanas de Viriato, Carregal do Sal

Desde 1864 que se faz a dança dos cus no Carnaval de Cabanas de Viriato, vila do concelho de Carregal do Sal, em Viseu. Quem sabe a data de cor é Fernando Campos, da Associação do Carnaval de Cabanas de Viriato, responsável por organizar uma festa secular que diz ser “do povo e para o povo”. A tradição dá nome a uma valsa que foi passando de geração em geração de músicos da filarmónica e que serve de banda sonora a um cortejo singular: os pares, disfarçados cada um à sua maneira, vão lado a lado em duas filas indianas e, quando se altera o ritmo, chocam de rabo – isto ao longo de três horas. Ontem desfilaram na zona norte da vila e esta tarde, pelas 15h, repetem na zona sul. “Ficam perfeitamente sincronizados, parece uma lombriga”, descreve Paulo Campos. À noite, os destaques são os bailes, com a sua dose de sátira. “Antigamente serviam também para se apontar os erros que algumas pessoas tinham feito durante o ano, mas isto hoje, com a proteção de dados, é mais difícil”, sorri o responsável.

Podence, Macedo de Cavaleiros

Os caretos de Podence são um clássico e em breve poderão estar no rol do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO – a candidatura foi entregue no ano passado. Uma tese de mestrado de 2015, assinada por Luís Filipe Rodrigues da Costa, recorda que saíam à rua em Podence, durante todo o mês antes da Quaresma, em particular no Domingo Gordo e dia de Entrudo, “sempre com o objetivo de surpreender as raparigas solteiras para as chocalhar – através de um jogo de cintura, fazer embater os chocalhos nas nádegas das mulheres”.

Os fatos eram feitos a partir de sacos de serapilheira onde eram cosidos pedaços de lã – e quem tinha mais posses recolhia a um alfaiate para preparar um fato à medida a partir de uma colcha antiga. “Os homens que não se trajavam eram levados em ombros às suas adegas para saciarem a sede aos caretos. Por outro lado, quando invadiam uma casa, os mascarados podiam furtar, consentidamente, uma peça do fumeiro. De adega em adega, de casa em casa, acumulavam o excesso de comida e bebida próprio deste ciclo festivo”, lê-se no mesmo trabalho, que conta como o grupo de caretos era “uma sociedade secreta que, sob o anonimato conferido pelo disfarce, gozava de uma liberdade sem paralelo, com o poder de castigar, de destruir e de acariciar”. Este ano, o município de Macedo de Cavaleiros espera receber mais de 30 mil visitantes ao longo do Entrudo Chocalheiro, festas que terminam hoje. Além dos caretos, a tradição inclui o pregão casamenteiro, a queima do Entrudo e um desfile de matrafonas.

Repeses, Viseu

O enterro do Entrudo em Repeses, freguesia de Viseu, é outra tradição antiga que nos últimos anos tem vindo a ser revitalizada – há até planos para criar uma associação que preserve a memória deste cortejo noturno dramático que percorre as ruas todas as terças-feiras de Carnaval. “As pessoas vão cobertas com lençóis brancos a chorar, com a urna à frente. Antigamente só se viam os olhos, hoje há quem leve a cara descoberta”, diz Joaquim Santos, secretário da junta de freguesia. A meio do cortejo julga-se o finado por todas as falhas cometidas durante o ano, na presença de um folião disfarçado de bispo e outro de juiz, e lê--se o testamento – tudo preparado em segredo ao longo do ano pela equipa que organiza a festa. Antigamente, o Carnaval de Repeses acabava junto à sede do município, com os habitantes a entregarem as suas reivindicações à câmara. Esta terça-feira, o início do cortejo está marcado para as 20h, junto à sede do Clube de Futebol “Os Repesenses”.

Lindoso, Ponte da Barca

Nesta aldeia de Ponte da Barca, o protagonista do Entrudo é o Pai Velho, figura de madeira que percorre a terra num carro de bois. O enterro é o ponto alto, com a leitura do testamento diante da comunidade. No ano passado começava assim: “Deixo os meus pergaminhos de 1514 ao pelouro da Cultura para que deem o nome próprio à minha festa, titulada como Entrudo e não Carnaval. Esta é uma festa de que me orgulho e que tem sido mantida a tradição tal como ela é. Não temos moças com os corpinhos gostosos, gosto de ver e arrebita-me o lápis, mas isso é tradição no Brasil. O trajeto da minha festa é feito como sempre foi, pelos caminhos da minha aldeia, e não da freguesia”. A crítica é mordaz: “Deixo os meus carros à câmara municipal, que ficam com o depósito cheio de combustível, para que se possam deslocar várias vezes à minha terra com o intuito de se inteirarem das necessidades que existem. Sendo das aldeias mais visitadas pelos turistas, os de perto e os de longe, muito falta fazer para os receber com dignidade. Eles que, na ausência de WC’s abertos, ainda ajudam a estrumar as leiras dos meus filhos”, declarou o Pai Velho em 2018. Ou ainda: “Deixo as carvalhas secas pelo fogo ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, para poderem tapar os hectares de monte que foram retirados, por esta entidade, aos meus colegas e amigos da caça para que possam fazer criação de lobos. Os que temos não chegam e ainda querem mais, a meu ver devem querer acabar com o resto do gado que temos.” Esta terça-feira, o velório, enterro e queima do Pai Velho, seguido da leitura do testamento, estão marcados para as 23h30. Os festejos são organizados pela associação Amigos de Lindoso.

Vale de Ílhavo, Ílhavo

Em Vale de Ílhavo, os reis da festa são os cardadores, tradição que remonta ao séc. xix. “São um grupo exclusivamente masculino, na sua maioria solteiros, e de origem perdida nas raízes do tempo, utilizando cardas – objetos tradicionalmente utilizado para o tratamento, na fiação e tecelagem, de lã ou linho. A sua preparação, que é efetuada através de um sigiloso processo de iniciação juvenil, inclui desde a execução das máscaras à aprendizagem dos rituais a ter durante os festejos, sobretudo a cardação das raparigas e as danças e urros que lhes são característicos”, descreve o município de Ílhavo. O corso carnavalesco está marcado para as 15h desta terça-feira.

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