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João Morgado. “Sempre tratámos mal o Velho do Restelo, mas se calhar ele tinha razão”

João Morgado. “Sempre tratámos mal o Velho do Restelo, mas se calhar ele tinha razão”

Mafalda Gomes Mariana Madrinha 20/12/2018 15:37

O novo livro de João Morgado foi apresentado esta segunda-feira por um leitor especial: Adriano Moreira

Foi operário têxtil e jornalista. Qual foi o peso destas duas ocupações profissionais depois na sua definição como escritor?

(risos) Ter sido operário têxtil não teve tanto a ver com esta área. Sou da Covilhã e todas as famílias estavam ligadas ao têxtil e fui parar a essa área nos anos 80, também por começar a trabalhar muito cedo. Acabei o 12.º ano à noite, depois fiz a universidade mais tarde como trabalhador estudante. O que tem diretamente a ver com a literatura é que sempre fui um grande leitor e escrevi... para a gaveta. Quando tirei o curso de jornalismo foi quando a escrita passou a ser a minha matéria prima, e é isso que me leva à literatura. Mas no liceu já escrevia contos. 

Nesse tempo, para alimentar o hábito de leitura, ia requisitar livros à biblioteca ou como fazia?

Vim de uma aldeia pequenina em que ia lá a carrinha da Gulbenkian. Tinha direito a três livros para 15 dias e tinha que ler os três livros três vezes para durarem aqueles 15 dias, sou de um tempo em que não havia televisão em casa. Só tive televisão aos 9 anos. E portanto lia muito e havia uma coisa que se perdeu: os romances radiofónicos, que eram as telenovelas da época, e que foi o meu primeiro grande contacto com os grandes clássicos da literatura mundial. Era uma fonte de imaginação tremenda, porque só ouvíamos as vozes e tínhamos que imaginar todos os cenários. Digo sempre que isso foi o início da minha veia de escritor.

E tinha algum ‘mentor’ em casa?

Nasci numa casa onde nem havia livros, porque era uma família de operários. Os meus pais podiam não ter dinheiro para um brinquedo, mas sempre que pedia um livro, ele aparecia. Faziam todos os sacrifícios para eu ter livros. Hoje em dia as novas gerações estão muito ligadas ao audiovisual, que não instiga a imaginação porque tudo entra pelos olhos adentro, sem esforço. As crianças tornam-se passivas, só recebem. No meu tempo tínhamos que reinventar as histórias na nossa cabeça. 

Já publicou os romances históricos “Vera Cruz “ e “Índias”, e agora este “Livro do Império”. Como começou o fascínio por esta época histórica que anda sempre à roda do mesmo eixo?

Comecei por escrever coisas diferentes, romances mais existencialistas, que falavam sobre a vida dos casais, coisas mais intimistas. Depois fiz a primeira incursão no romance histórico com o “Vera Cruz” e não foi uma passagem fácil porque é um outro estilo, com outra estrutura. E que requer sobretudo capacidade de investigação. Houve ali uma fase muito difícil em que que estive quase para abandonar tudo. Estive dois ou três meses parado até recomeçar. Os romances de época são muito complicados porque temos de nos policiar constantemente. Não podemos olhar para o século XVI com os olhos do século XXI. E estamos sempre contaminados pela modernidade.

Como se faz esse exercício de distanciamento?

Estudando. Muito! Digo que para escrever um livro temos que ler 20 ou 30 e essa é a parte mais difícil . E depois é uma escrita lenta porque tudo tem que ser revisto. Há palavras que julgamos que existem desde sempre e não, há outras que se perderam e que temos de as ir buscar. E depois há que alcançar uma linguagem que nos dê uma ambiência histórica mas que não dificulte a vida ao leitor.

Quando começou a escrever romances históricos já tinha essas noções ou foi algo que foi descobrindo no caminho?

Fui descobrindo. Houve uma vez um crítico literário que disse que eu ou tinha muita confiança nas minhas capacidades ou era um louco que não sabia onde me me ia meter. Acho que foi um bocado as duas coisas (risos). Efetivamente o primeiro livro foi muito difícil. Hoje já escrevo com mais rapidez e estou mais organizado em termos de pesquisa.

No caso concreto do “Livro do Império”, onde fez as pesquisas?

Isto não é o Indiana Jones à procura do documento perdido. Trabalho com fontes secundárias, com coisas que já existem mas que estão esquecidas. Livros antigos do século XVIII, século XIX, que estão nas livrarias e arquivos. Ou seja, existe, os historiadores conhecem essas obras mas não estão disponíveis para o grande público. E portanto pego nesses documentos e transponho-os para uma história que seja apelativa, para um romance que as pessoas leiam desse modo mas que cheguem ao fim com a sensação de que aprenderam alguma coisas de uma forma agradável.

Houve alguma característica que tenha descoberto sobre as figuras da História de Portugal de que fala no livro que o tenha surpreendido?

O que me surpreendeu talvez mais foi o lado negro de Vasco da Gama, que é escamoteado, quase escondido. A segunda viagem de Vasco da Gama à Índia foi uma época de terror: assaltou, torturou, matou pessoas. O que procurei nesse caso foi não dar só esse lado negro mas explicá-lo, para as pessoas perceberem o que o levou a essa atitude, entenderem o que passava um homem do outro lado do mundo, a combater contra milhares de pessoas quando ele tinha meia dúzia de barcos. Neste último livro trabalhei muito um Camões que não nos é dado nas escolas, para lá das métricas. Peguei num Camões que não tem nada a ver com aquela figura institucional, nem com os louros na cabeça, nem como namoradeiro e aventureiro de espadachim que salva “Os Lusíadas” a nado, mas num Camões que regressa a Portugal desiludido com toda a sua vida, já doente, envelhecido e que se quer redimir a ele próprio escrevendo uma grande obra e redimir Portugal, porque o país está já mergulhado numa certa decadência. Há uma nobreza corrupta, os cofres do Estado já estão depauperados porque manter a Índia, de onde vem toda a riqueza, custa toda a riqueza - há que pagar as fortalezas, os homens, os barcos, as armas. E ele vai cantar um Portugal que já não existe, um Portugal das glórias, de reis que dilataram a fé e o Império.

Uma visão que não associamos tão nitidamente a essa época.

É a vantagem dos livros históricos: podemos levar as pessoas numa viagem em que percebem melhor o que se passa. Vivemos nos Descobrimentos 50/60 anos de glória, veio muito dinheiro porque fomos para lá não como comerciantes, mas como conquistadores. Mas depois passámos a ter a concorrência dos ingleses, dos franceses e dos holandeses, passámos a andar em guerras em África, no Brasil, na Índia, desgastámo-nos em manter o Império e tínhamos essa nobreza corrupta que só queria negócios. Éramos um Império, mas sem brilho. E tanto é assim que D. Sebastião quer recuperar o orgulho da pátria conquistando praças em África que já tínhamos abandonado e avança naquela loucura de querer reafirmar Portugal como uma potência militar.

A Inquisição depois acabou por deixar que “Os Lusíadas” fossem publicados. Porquê?

Apresento aqui uma outra versão d’ “Os Lusíadas” que muitas vezes é esquecida: “Os Lusíadas” é um livro político mais do que de poesia. Ao cantar as glórias de Portugal, ao mesmo tempo o que ele estava a dizer, por comparação, é que Portugal já não era glorioso. Falar de outros feitos de personagens de outrora era dizer que esses valores já não existiam. Era uma crítica aos tempos que se viviam, ele já estava a cantar um reino que não existia e isso é uma forma política de mostrar as coisas. Depois o canto nono e canto décimo, que são menos estudados e menos falados, são autênticos libelos políticos de acusação. E, portanto, considero que “Os Lusíadas” era um livro político, que tinha uma mensagem contra os poderes instituídos mas por outro lado precisava do selo do rei, e que foram editados precisamente por isso. Esta obra é publicada porque os superiores da Inquisição assim o entenderam, porque lhes dava jeito, numa determinada altura, quando Espanha já tentava avassalar Portugal e explorar as suas fragilidades. Dava jeito puxar pelo orgulho pátrio e pela honra contra aquelas famílias que já estavam vendidas a Espanha.

De onde lhe veio a ideia de escrever um livro sobre o lado político d’Os Lusíadas”?

Devo confessar que o meu personagem inicial não era o Camões: era o Velho do Restelo (risos). No fundo dizendo que ele talvez tivesse razão. Sempre tratámos mal o Velho do Restelo, mas se calhar ele tinha razão quando falava da vã glória e da vã cobiça: afinal, o que restou de toda aquela glória de querer conquistar África? Acabámos por lá deixar tudo e quando regressámos, quando perdemos o Império, Portugal estava pobre como antes.
 

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