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Dino D’Santiago. “Sou uma herança feliz do colonialismo”

Dino D’Santiago. “Sou uma herança feliz do colonialismo”

Instagram Davide Pinheiro 23/10/2018 15:13

Em Cabo Verde, Dino reencontrou as origens e o futuro agora traduzido num álbum de afetos e relações com produção executiva de Kalaf

Quais são as origens deste mundo?

Sou português. Nasci em Quarteira, onde vivi vinte e um anos, onze no Porto, quatro em Lisboa, e sempre intercalando com Santiago. Os meus pais falavam em crioulo e eu respondia em português. A primeira vez que me chamaram “preto” só foi no segundo ano na escola. Essa professora até foi expulsa. Quarteira era uma cidade justa e estamos a falar de uma escola com 49 nacionalidades. Portugal sabe receber, apesar do que se diz dos refugiados. Por isso é que digo que sou uma herança feliz do colonialismo.

Este “Mundo Nôbu” é-o na primeira pessoa ou tem relação com passado?

Este “Mundo Nôbu” tem uma relação direta com o passado. Desde a minha infância, aliás ela está refletida ao máximo porque o meu pai ouvia muito Bulimundo, quando era o mundo novo em Cabo Verde com a introdução das guitarras elétricas e do funaná lento - até lá era tudo muito acústico. O funaná e o batuque passaram a ser património cultural quando até então eram censurados. Era o que gostava de ouvir mas nunca pensei vir a ter relação direta com esse património. Era o meu momento de trazer algo novo.

Porquê? 

A primeira vez que cantei em Cabo Verde foi, curiosamente, com os Nu Soul Family (banda fundada por Virgul após a pausa que acabaria por ser definitiva dos Da Weasel). Foi lá que senti pela primeira vez o apelo. Cheguei, e toda a gente era igual. Entrava no supermercado e ninguém olhava para ver se tirava alguma coisa. Comecei a escrever e cantar em crioulo sem esforço. Não há muitos rodeios para se falar em sentimentos quando no português se pode dar a volta ao mundo só para dizer “amo-te”. Encontrei a minha voz com a música de Cabo Verde. Foi lá, em 2010/2011. Pensei que ia levar a novidade e acabei por descobrir-me a mim próprio.

Foi a nova lusofonia que te levou ao Kalaf e ao Branko?

Em 2013, gravei o [álbum] “Eva” já com o nome Dino D’Santiago - um tributo à ilha de Santiago. A partir daí, comecei a viajar muito. Coreia do Sul, Nova Iorque, Paris, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, várias vezes a Alemanha, Inglaterra...O disco saiu pela Lusáfrica, a editora da Cesária Évora, e isso trouxe-me uma grande abertura do mercado da world music. A partir daí, senti a necessidade de deixar a ser a herança da Cesária, do Bana, do Tito Paris ou do Ildo Lobo. E o Dino onde é que está? Em Lisboa, falei com o Kalaf, aconselhado pela Sara Tavares. Ela aconselhou-me: “se queres mudar e fundir os teus mundos da soul, do hip-hop e do funk que abraça as raízes, quem te pode ajudar é o Kalaf”. E foi mesmo. Ele só me disse: “vai a Cabo Verde, grava tudo acústico e traz que eu arranjo as pessoas certas”. Então, conseguiu o [produtor] Paul Seiji por um acaso muito bom. Ele foi um dos impulsionadores da música eletrónica com tempero afro em Londres nos anos 90. O Kalaf e o Branko eram grandes fãs e iam várias vezes ouvi-lo. Ele soube ser um cavalheiro. Foi a Cabo Verde, ouviu-me no habitat natural quando chegava aos bares, começavam a tocar uma canção minha e eu ia para o palco. Compreendeu essa dinâmica e percebeu que não podia desvirtuar o meu mundo. Deu elementos eletrónicos mas de forma não invasiva. Estivemos um ano para gravar e ele demorou dois só em produção, a tirar tudo e a ir aos detalhes. Hoje em dia, não se investe esse tempo. Houve uma grande nobreza, quer do Kalaf, quer do Paul Seiji; e numa fase final, com a adição do Branko e do Pedro que produzem (respetivamente) o “Nova Lisboa” e o “Santa Catarina” e trouxeram o que faltava. Começámos a despir, a despir, até ficar só voz, batida e elementos etéreos. Ainda ontem estive a ouvi-lo. Posso namorar este disco porque teve duas fases, uma em que entrego, e outra em que vou descobrindo. 

Este mundo são vários mundos?

São. Tem viagens de Santiago a Berlim, Londres, Lisboa, Nova Iorque, passando por Luanda. Quer fisicamente, quer na escolha de sons. Daí ter sido tão moroso. Tem uma génese muito lusófona, com predominância do crioulo, em que a minha escrita é mais intensa, mas o português é o casamento que faz abrir por todos os lados com a “Nova Lisboa” e o “Como Seria”. É bonito porque somos mais de 200 milhões de falantes. Porquê limitar?

É uma lusofonia a falar para o mundo?

Sem dúvida. É o centro deste mundo. Os ritmos explorados são todos influenciados pela lusofonia: o batuque, o funaná, o zouk, a morna e a coladera. Até os elementos de afro-house são influenciados pelo que sobe até Angola e depois é exportado. As matrizes [do disco] são o batuque e o funaná lento. 

A “Nova Lisboa” é uma Lisboa mais inclusiva?

Lisboa é a única capital dos PALOP em que se encontram todos os mundos [da lusofonia]. Coabitam ao ponto de não se distinguir um guineense de um moçambicano ou santomense. Só sabes quando chegas a casa de alguém e o prato é uma moqueca ou uma moamba. Isso garantidamente só há em Lisboa porque já estive nas outras capitais. Por isso é que estão todos a vir para cá. Nelson Freitas, Mayra Andrade, Yuri da Cunha, o Paulo Flores está sempre cá, os Calema foram de São Tomé para Paris mas foi aqui que se consagraram. Eles sentem-se felizes cá. O pessoal encontra-se. Não é por acaso que os atores brasileiros estão a vir para cá. Existem as diferenças, sim senhor, mas as pessoas aculturam-se. Em Londres, de onde acabei de chegar, é tudo mais segmentado. Tens os jamaicanos, os chineses, os do Haiti...Em Lisboa, não é assim. Há bairros sociais, como em todos os países, mas a mistura acontece no centro da cidade. 

A coexistência entre subúrbio e centro também se pacificou?

Sim, sinto mesmo isso. Basta ires a uma [festa] Na Surra ou uma noite da Príncipe para sentires isso. Vês o puto do bairro na roda com o tipo do Estoril ou de Campo de Ourique. Daí o “Nova Lisboa” [dizer] “deixa tarraxar mesmo sem saber”. É bonito. Não existe em muitos sítios. Por isso é que os ingleses vêm para cá fazer um festival Nova Batida. 

A corrente mudou. Em vez de olharmos para fora com deslumbramento, é o inverso.

E hoje é o Paul Seiji a inspirar-se no Branko para trabalhar comigo. A minha grande vontade e bandeira deste disco é que seja um legado. Nós podemos pegar em ritmos portugueses. Não precisamos de usar a marcação rítmica do Drake. É possível pegar sons modernos e meter num semba ou marrabenta. Fazer o mesmo com fado. Tens o gospel que é ultraconservador, a soul já é o diabo mas ainda é perdoado, o r&b que já é pecado...É uma tradição em evolução. Está na hora de fazermos isso. 

A Madonna vai usar esses ritmos?

Tenho a certeza absoluta. Ela saiu muito a ganhar com Lisboa. É de grande valor para a cidade ter alguém como a Madonna a amar os nossos ritmos. O meu produtor de Nova Iorque Rusty Santos percebeu o mesmo: “vocês têm de exportar isto antes que o Drake leve”. É esse trabalho de casa que falta. Por isso, é que as pessoas já se estão a juntar. Para criar um movimento lusófono. Apropriarmo-nos do que é nosso. Sermos uma réplica dos americanos não vai mudar as rádios. A música de Cabo Verde fez-me chegar ao Central Park, um dia antes de tocar o Stevie Wonder, e os americanos estavam malucos porque sentiam África. 

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