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Turismofobia. Lixo, preços e caos abrem caça ao turista

Turismofobia. Lixo, preços e caos abrem caça ao turista

Dreamstime Sofia Martins Santos 27/09/2018 19:29

Há taxas, limitações ao número de visitantes que podem entrar por dia nas cidades, proibição de vendas de casas a estrangeiros ou até cercos apertados às licenças de construção para novos hóteis. Tudo em nome de resolver problemas de um setor que, em muitos casos, sustenta as contas dos países

Os números chegam das mais variadas fontes e não deixam margem para enganos: o turismo, mesmo com abrandamentos em algumas alturas, continua a crescer em Portugal e há muito que é um dos maiores suportes da economia nacional. A verdade é que o país nunca recebeu tantos turistas como nos últimos tempos e isso tem contribuído para um aumento das receitas na hotelaria e nas companhias aéreas. Quando os números do setor batem recordes, a maioria aplaude. Mas é exatamente no meio de todo este cenário de crescimento que se começam a levantar algumas vozes a chamar a atenção para a necessidade de ser estabelecido um plano de crescimento mais sustentável.

Até porque, se, por um lado, as pessoas viajam cada vez mais, há também cada vez mais cidades a colocar um travão na entrada de estrangeiros.

Um estudo recente diz que a maioria dos lisboetas acham que a cidade tem mais vida com mais turistas e que o setor tem contribuido para uma maior aposta na reabilitação das zonas históricas e na preservação dos espaços públicos.

No entanto, nem todos pertencem a esta ala e nem todos defendem que o aumento dos turistas em Portugal tenha tantos aspetos positivos. Além do risco de ver as cidades a perder identidade, existem cada vezes mais vozes a sublinhar os pontos negativos, como as filas intermináveis, o aumento do lixo e os meios de transporte lotados.

Este mês, por exemplo, a acumulação de lixo nas ruas da capital marcou a atualidade. Sacos e caixas de cartão amontoados, copos de plásticos espalhados pelo chão, garrafas vazias e contentores a transbordar de lixo foi o cenário denunciado por quem diz ser cada vez mais recorrente nas ruas da capital portuguesa. Mas as más experiências não acabam aqui. Além de existirem vários relatos de caos nos transportes, até chegou a acontecer não existirem bilhetes. A falta de bilhetes nos transportes públicos chegou a ser o principal tema mediático, com todos os partidos a criticarem o caos que se instalou na cidade de Lisboa.

Fobia ganha peso Mas os problemas não se resumem a Lisboa. Existem cada vez mais zonas do país a suscitarem razões de crítica ou preocupação, tal como já ocorreu em vários pontos do mundo. O aumento do lixo nas cidades, do tráfego rodoviário, do preço dos produtos em zonas turísticas ou a destruição de alguns monumentos devido à avalanche de visitas são consequências do turismo de massas em várias cidades.

E, se há quem lute para atrair cada vez mais turistas e, assim, receitas, há também quem já tenha criado fobia à entrada de estrangeiros. Em algumas cidades europeias, por exemplo, já existe até uma verdadeira caça ao turista por considerarem que o turismo de massas está a caminho de uma verdadeira explosão social. Assistimos a cada vez mais manifestações, há queixas por causa do aumento das rendas e dos custos de vida. Os velhos habitantes falam de uma invasão e os governos tentam fazer face ao crescimento do número de turistas.

Em Londres uma das medidas aplicadas para controlar o número de turistas que procuram a cidade foi criar um limite de alugueres em plataformas como o Airbnb. Por ano, há uma limitação de 90 dias por cada imóvel.

Em Milão, onde as medidas ainda são tímidas, foram proibidos os selfie sticks e as garrafas de plástico em algumas das áreas mais emblemáticas da cidade.

Já em Barcelona foram pensadas medidas mais próximas da realidade nacional. Uma forma de proteger mais a cidade do turismo de massas passa por aplicar taxas e é neste sentido que o governo pensou num imposto por cada turista que fique na cidade por menos de 12 horas. Uma das primeiras medidas foi criar, logo em janeiro do ano passado, uma proibição de novas licenças para a construção de hotéis.

Entretanto, outras regiões espanholas já colocaram também a turismofobia no vocabulário. Em Palma de Maiorca, por exemplo, os protestos chegaram e multiplicaram-se.

A estas regiões juntou-se, entretanto, Santorini, Grécia. Com a entrada de cerca de 10 mil pessoas por dia, principalmente por causa dos cruzeiros, a ilha estipulou um máximo de pessoas que podem entrar por dia. Passa a receber apenas oito mil por dia e ponto final.

Veneza é um outro exemplo. Falamos de uma região que tem cerca de 50 mil habitantes, mas recebe diariamente mais de 60 mil. Contas feitas é o suficiente para que os habitantes locais reclamem que sejam tomadas medidas. Para já, foi implementada a proibição de abrir novos restaurantes fast food e foram instalados controladores automáticos.

À semelhança de outros países europeus, também a Áustria cobra taxas aos turistas, mas à saída. Neste caso, o dinheiro angariado reverte para medidas ligadas ao ambiente. Até porque as questões ambientais são outra grande preocupação. Principalmente, depois de algumas praias deixaram de ser paraísos e passaram a ser verdadeiros infernos.

São cenários trágicos, que chocam, mas continuam a multiplicar-se. Falamos de centenas de praias onde os mergulhos são dados no meio de... lixo.

Um dos exemplos mais polémicos e dramáticos acontece em Bali, na Indonésia. Mas há outros, nomeadamente, a República Dominicana, que tem feito correr muita tinta na imprensa internacional. No mês passado, foi notícia que na praia de Montesinos, em Santo Domingo, foram recolhidas, em apenas três dias, 30 toneladas de plástico.

Mão pesada na habitação Um dos maiores problemas para resolver continua a ser o aumento do preço das casas [ver páginas 18-19]. E, foi com a certeza de que o mercado imobiliário estava a ser inflacionado por pessoas vindas de fora das fronteiras nacionais, que a Nova Zelândia aprovou uma lei que proíbe a venda de casas de habitação a estrangeiros. Embora se tenham multiplicado críticas por ser considerada uma medida “xenófoba”, o Partido Trabalhista, da primeira-ministra Jacinda Ardern, entende que era necessário pôr um travão à subida acelerada dos preços das casas.

Em apenas quatro anos, o preço das casas aumentou, em algumas zonas, 75%. Alguns neozelandeses viram-se forçados a viver em carros e tendas. No entender de David Parker, responsável pelas Finanças do país, os preços estavam a ser ditados pelos comportamentos de compradores externos. “Não consideramos que os neozelandeses devam ser superados por pessoas ricas vindas do exterior”, explicou Parker, acrescentando que os neozelandeses não podem passar a “ser inquilinos” na “própria terra”. No entanto, esta solução não serve para todos os países. Portugal, por exemplo, não pode aplicar o modelo, porque “os investidores são normalmente do espaço comunitário, à exceção dos chineses. Por isso, só aqui haveria espaço para fazer alguma coisa e é preciso perceber que, neste caso, seria uma inversão política e não interessava ao país, porque ia afastar o investimento estrangeiro”, explica Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP).

 

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