Watford. De volta à estrada dos tijolos amarelos…

Watford. De volta à estrada dos tijolos amarelos…


O início brilhante do Watford nesta época não fica embaciado pela derrota caseira frente ao Manchester United (1-2). Pelo contrário, fez recordar os tempos fantásticos em que Elton John chegou a Vicarage Road


Em Outubro de 1973, graças a Bernie Taupin e a Elton John, que formaram um dos casais mais prolíficos do chamado “soft rock”, as pessoas recordavam “O Feiticeiro de Oz” e a demanda de Dorothy através da estrada de tijolos amarelos até à Cidade Esmeralda. Ou seja, a metáfora: “The road that leads to life’s fantasies”. Às vezes, simplesmente, a estrada que conduzia a todas as respostas da vida. “Goodbye Yellow Brick Road” tornou-se popular até à protérvia. Mesmo que a letra fosse ligeiramente mais complicada do que um habitual ié-ié: “So goodbye yellow brick road/Where the dogs of society howl/ You can’t plant me in your penthouse/ I’m going back to my plough”.

Quem olhava para Elton John e para aqueles óculos psicadélicos não diria nunca que ele gostava de futebol. Mas a verdade é que gostava mesmo.

Antes de ser Elton Hercules John – nome tão alucinante como os óculos para um físico atlético daqueles – foi Reginald Kenneth Dwight, nascido em Londres no dia 25 de Março de 1947. E quem nasceu e viveu em Londres no final da II Grande Guerra não ficava alheio ao futebol, aos pubs e à música popular. Assim, à beira de completar 30 anos, já com os bolsos forrados a libras esterlinas pelo inúmeros sucessos discográficos, Elton resolveu comprar o clube do qual era adepto: o Watford Football Club, precisamente da cidade de Watford, a cerca de 25 quilómetros para noroeste de Londres. A imprensa delirou!

Fundado em 1881 como Watford Rovers, o novo clube de Elton John nunca passara da cepa torta. O músico não esteve pelos ajustes: assumiu a presidência e declarou que iria colocá-lo no lugar que merecia, a I Divisão. Houve quem duvidasse. Houve quem se risse. Houve quem apenas sorrisse… De escárnio, claro! Afinal o homem das cançonetas pensava que sabia de futebol? Ah! sabemos todos como há gente que não aprecia estas misturas. A publicidade vinha a calhar, mas o projecto não parecia convincente. Foi. Cinco anos mais tarde já o Watford disputava o principal campeonato de Inglaterra. Na época de 1982-83 chegou mesmo a ameaçar lutar pelo título, acabando em segundo, atrás do Liverpool e qualificando-se para a Taça UEFA.

 

O efeito Taylor. Elton John levou a letra à letra, se é permitida a aliteração: “Maybe you’ll get a replacement/ There’s plenty like me to be found…” Apostou num jovem treinador pouco mais velho do que ele, Graham Taylor, que acabara de ser campeão da IV Divisão com o Lincoln. Em cheio! O Watford não só trepou divisões como uma lagatixa profissional, para usar a expressão de Nelson Rodrigues, como atingiu a final da Taça de Inglaterra em 1984. Esteve em Vacarage Road durante dez anos e depois partiu para Birmingham e para o Aston Villa. Jogadores como Luther Blisset, melhor marcador do campeonato de 1982-83, transferido para o AC Milan por um milhão de libras, ou John Barnes, que se tornou figura do Liverpool, ficaram nas retinas dos apaixonados pelo jogo. Não havia era mais para onde subir um clube tão pequeno. Por isso, a pergunta fazia todo o sentido: “When are you gonna come down?/When are you going to land?”

Estava na altura de os adeptos do Watford caírem na realidade. A pouco e pouco, o clube veio por aí abaixo, tombando na classificação, e não evitou a descida em 1989. Enfim, como dizia Machado de Assis: “É melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar”.

Os treinadores sucederam-se, mas o sucesso não: Dave Basset, Steve Harrison, Glenn Roader, Kenny Jackett. Foi preciso Taylor regressar. Pegou no Watford na III Divisão e, em duas épocas, devolveu-o à I. Sol de pouca dura. Um ano apenas entre os maiores. Nova queda.

“I’m not a present for your friends to open…”, cantava Elton John. Quando deixou a presidência do clube não o ofereceu a ninguém, como é óbvio. Vendeu-o ao empresário italiano Laurence Bassini que, por sua vez, o negociou com Giampaolo Pozzo, que o entregou nas mão do filho Gino. Em 2015-16 estava de volta a Premier League e aí se mantém. Perdeu o primeiro lugar depois da derrota caseira com o United, neste fim de semana. Nas bancadas, as pessoas estão contentes: “Take you a couple of vodka and tonics!”