14/11/18
 
 
António Cluny 11/09/2018
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

O drama dos refugiados e o jornalismo atual

A audição, o registo e a divulgação das histórias concretas de cada um dos refugiados e migrantes poderão ajudar mais a sensibilizar a opinião pública do que muitos discursos abstratos e bem- -intencionados sobre o tema: esse é um trabalho de um jornalismo corajoso e independente

Li há dias uma entrevista notável do padre Camillo Ripamonti, responsável do Serviço Jesuíta Italiano de Apoio aos Refugiados, que me impressionou tanto pela clareza da análise como pela simplicidade e rigor das propostas.

Ele distingue com nitidez as prioridades, a saber: busca e socorro das pessoas em dificuldades no mar; luta contra o tráfico e os traficantes, cortando--lhes as hipóteses de fazer negócio, o que só se consegue com a criação de corredores humanitários e vias legais para que quem necessita possa chegar à Europa em condições decentes; e, por fim, investimento em África – em infraestruturas – para que as pessoas possam viver livremente nos seus países e com dignidade.

Todo este pensamento assenta numa ideia óbvia que ele sintetiza desta maneira: as migrações são um fenómeno estrutural dos nossos dias.

Donde, mais do que reprimir, é preciso orientar os que querem partir, integrar os que chegam e atacar as causas dessa vontade ou necessidade de emigrar.

Tudo isto parece óbvio, mas não é.

Uma das coisas que mais me tem impressionado na discussão pública e mediática sobre a questão das migrações e dos refugiados – e, dadas as catástrofes humanitárias provocadas pelas guerras exportadas, carece hoje de fundamento a distinção jurídica entre umas e outros – é a do sentido unilateral (e monolítico) das análises veiculadas sobre o tema.

Raros são, com efeito, os trabalhos jornalísticos, ou até científicos, que procuram indagar diretamente junto dos migrantes e refugiados as razões da sua vontade de partir e de se acolher na Europa.

Pode parecer intelectualmente despiciendo, mas a verdade é que a audição, o registo e a divulgação das histórias concretas de cada uma dessas pessoas poderá ajudar mais a sensibilizar a opinião pública para o problema do que muitos discursos abstratos e, reconheça-se, por vezes incongruentes dos que, ainda assim, na Europa, se preocupam genuinamente com o problema.

O facto de esta questão ser abordada, sobretudo mediaticamente, do ponto de vista das sociedades de receção e daqueles que tentam, oportunisticamente, apropriar-se dos medos que estes fenómenos sempre geram contribui decisivamente para alimentar a demagogia e fomentar o ódio aos que nos procuram.

Ouvir, contudo, mais vezes e por via de um trabalho jornalístico persistente e bem feito, a voz pessoal dos refugiados, ou dos migrantes permitirá, estou certo, introduzir na opinião pública europeia fatores de ponderação social e provocar movimentações políticas realistas, tendentes a concretizar soluções tão racionais como as descritas pelo padre jesuíta.

O foco mediático exclusivo nas situações de tensão e de catástrofe humanitária sem, em contrapartida, tentar dar a conhecer as razões concretas de tantas pessoas que, com crianças nos braços, se lançam em aventuras que eles sabem poderem ser trágicas, acaba por banalizar o mal, sem explicar as suas razões.

Esta unilateralidade na abordagem do problema, mesmo quando também reproduz o pensamento e as propostas dos europeus bem-intencionados, desfoca, com efeito, o sentido do drama, permitindo inclusive transformar em vítimas da situação os que verdadeiramente o não são.

Houve tempo em que o jornalismo era arrojado e, com independência e coragem, contribuía decisivamente para fomentar movimentos humanitários que evitaram tragédias e solucionaram problemas.

Tendo-se deixado acantonar e subservientemente utilizar, o jornalismo atual acaba, como com Trump, desprezado e neutralizado.

 

Escreve à terça-feira

 

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