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Pedro Tinoco Faria. Os Comandos "que morrem são tipos que não sabem dosear o esforço"

Pedro Tinoco Faria. Os Comandos "que morrem são tipos que não sabem dosear o esforço"

Bruno Gonçalves Vítor Rainho e Beatriz Dias Coelho 07/09/2018 15:47

Amanhã, sábado, realiza-se o almoço de homenagem ao comandante dos Comandos exonerado. Tinoco Faria diz de sua justiça

Quando diz que ninguém gritava consigo, ninguém imagina a formação dos comandos sem ser a gritar…

Não, mas não é isso. Uma coisa é a instrução, outra coisa é no dia-a-dia. Se for o meu chefe, eu admito - e nós vamos cometendo erros na carreira militar - que me chame à parte e me diga “ó Tinoco, pá, atenção a isto e isto” e até que me possa dar um grande raspanete entre portas. À frente das outras pessoas é que não.

Na formação com certeza que gritou com muita gente…

Obviamente, mas não é preciso gritar para se ser duro e exigir e disciplina. Não sou muito de gritar, nunca fui muito de gritar com as pessoas. O silêncio tem um ruído atroz e em silêncio, e sem levantar muito a voz, podem atingir-se os mesmos objetivos.

Os Comandos têm a vertente de levar as pessoas ao limite.

Sim, mas não é preciso gritar. O meu curso de instrutores de comandos foi o primeiro depois de terem morrido dois homens na instrução, já que na altura o chefe de Estado-Maior do Exército, o coronel Folques, parou o curso e houve um investimento de oficiais do quadro para o Regimento de Comandos, exatamente para restruturar a instrução. Ninguém deseja a morte de um soldado e isso é um baque psicológico enorme para os instrutores. Esta coisa da procuradora dizer que os militares dos Comandos são uns criminosos psicopáticos é uma vergonha. Lembro-me de toda a malta ficar destroçada com a morte na instrução de um miúdo de 20, 22 anos. E é curioso que os que morrem são os melhores, porque aqueles que não são tão fortes, emocionalmente ou psicologicamente, protegem-se, caem, atiram-se para o chão. Os que morrem são tipos que não sabem dosear o esforço e acabam por, eventualmente, não aceitar que não estão bem e que têm algum problema físico. E acho que há aqui uma situação que nunca foi levantada e devia ser levantada. Eu fui para a Academia Militar para aprender a essência da vida militar. Passam a vida a preparar-me para matar outros seres humanos, essa é a essência da vida militar, ou seja, eu tenho de chegar ao pé de si, olhá-lo nos olhos e matá-lo. E para quem passou por situações de combate, esteve no Afeganistão, na Bósnia ou no Kosovo, sabe que não se preparam homens para combate e para estarem prontos a matar e a saberem sobreviver com flores e com uma instrução fácil. Portanto, no caso das mortes dos Comandos há um aproveitamento político e de desinformação. Mas deixem-me contar-lhes que quando fiz a prova de choque como instruendo, acabei por sofrer uma hipo glicemia,  caí e fui evacuado e recuperado. O que acontece é que o chefe de Estado-Maior do Exército não nos dava os meios necessários para uma prova de choque: nós pedíamos dispositivos de alerta para estarem estacionados na zona, como helicópteros,  pedíamos médicos de suporte para estarem no local e ninguém nos dava. E o programa de instrução está aprovado, onde constam essas ajudas. Note-se que a prova de choque é fundamental, eu dei a quatro ou cinco cursos de Comandos - na altura em que havia 800 instruendos - não eram 30 e 40 como hoje - e sabíamos exatamente quem ia chegar ao fim e quem não ia. O limite do combate em termos psíquicos e físicos é muito superior a uma prova de choque. Eu, se vou para combate, quero ter homens ao meu lado, não é o caso da tropa normal hoje em dia em que os soldados descarregam dois carregadores e não acertam um tiro. A diferença no Regimento de Comandos é que o homem leva a arma à cara, dá dois tiros e mata uma pessoa, porque repetiu, repetiu, repetiu. Eu depois estudei neurociência e percebi por que isto acontece. É como um tenista ou um atleta de alta competição, que treina uma tarefa repetidamente até que atinge a excelência.

Diz então que não há um acompanhamento das mais altas chefias nesses cursos mais complexos.

Defendo que o chefe de Estado-Maior do Exército deve acompanhar as provas de choque ou outras também difíceis, já que se estiver no gabinete não sabe o que se passa. Tem de estar no terreno para exigir que estejam presentes as ajudas sanitárias, helicóptero, ambulância, para os médicos estarem presentes para acudirem em caso de necessidade.

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