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Festa. Quando os mais novos são a força da tradição nos confins alentejanos

Festa. Quando os mais novos são a força da tradição nos confins alentejanos

DR Carmen Guilherme 22/08/2018 20:57

Nas festas em Honra do Santíssimo Salvador, familiares e emigrantes regressam à terra, mas há espaço para todos os que queiram animação. Da música, aos cavalos e à procissão, a aldeia de Corte Sines enche-se de vida no final de agosto

Nos dias 24,25 e 26 de agosto, a pequena aldeia de Corte Sines, no concelho de Mértola, ganha uma nova animação com as festas em Honra do Santíssimo Salvador. Além da música, os momentos religiosos e os ‘banquetes’ marcam os dias de uma festa que voltou a trazer a tradição a este pequeno recanto alentejano.

Esta podia ser apenas mais uma festa de verão que conta com décadas de história, não fosse ela um exemplo de força de vontade de um povo que não quer ver a sua terra ficar esquecida na desertificação que assola o interior.

“As festas em Honra de SS. Salvador já existem há muitos anos, mas durante oito anos foram interrompidas porque não havia ninguém para as realizar”, conta ao i Vera Barão, presidente da comissão de festas, relembrando que antes da iniciativa de um grupo de jovens, houve mesmo quem pensasse que a tradição jamais voltaria a alegrar a aldeia do distrito de Beja.

Há cinco anos que o Grupo Ativo de Jovens Animados – de forma mais simples, os GAJA – cria um cartaz de diversão para todos os gostos: “Hoje fazem parte do grupo 12 pessoas. Éramos crianças na altura em que faziam as festas, crescemos com isso e sentíamos falta. Uma noite, à conversa no café da terra, surgiu a ideia de criar este grupo e hoje, com o esforço e trabalho voluntário de todos, trouxemos a festa de volta”, disse ao i a jovem de 24 anos, acrescentando ainda que, no fim, o melhor é “o feedback da população, por haver alguém que dinamize a terra e que organize algo que traz de volta amigos e familiares que, nesta altura, regressam às origens”.

Conversas até ao nascer do sol O primeiro dia de festa é sempre “o dia mais leve”: a quermesse marca o início da festa e todos podem tentar a sorte nos mais variados prémios – tudo “objetos que a população cede para ajudar”, por norma “coisas que não usam, artigos de decoração, louça, livros” e que chamam sobretudo a atenção dos mais novos. Este ano, a inauguração do palco fica a cargo do artista Ricardo Glória, com muita dança e convívio de sobra.

Para os que aguentam até de manhã, há um pequeno-almoço bem alentejano. “Muitas vezes, são oito da manhã e o grupo está aqui com várias pessoas que vieram à festa e ficam até o sol nascer. Acabamos por nos juntar todos, comemos, conversamos e às vezes há tempo para migas ou para uma açorda alentejana”.

Mas não fica por aqui. Para os que gostam mais de aproveitar o dia, foi criada a caminhada ‘Corpo em Movimento’. Esta iniciativa dos GAJA, em conjunto com a Junta de Freguesia de Mértola, pretende promover a vida saudável e o exercício físico. E, depois de algum descanso, a música volta a tocar.

“O segundo dia de festa este ano é diferente de tudo o que fizemos até aqui, pois para além do baile, iremos ter um espetáculo com uma artista reconhecida e é a primeira vez que o conseguimos fazer. Parece algo pequeno, mas para um grupo que começou com zero euros e que todos os anos une esforços para continuar, é uma sensação totalmente diferente”, explica Vera Barão. Vai ser a estreia de Jessica Portugal em Corte Sines. Logo a seguir, a música fica a cargo de Emanuel Martins.

A procissão e o fim das garraiadas As celebrações religiosas acontecem no terceiro e último dia de festas. Depois de uma missa pelas 18h00, a igreja, um dos pontos mais importantes da aldeia, enche-se de cores, de flores e de gente para a procissão.

“A procissão é um dos momentos altos das festas. É o momento em que se presta devoção ao padroeiro que lhes dá nome, mas também uma das alturas em que mais gente se reúne. É nesta altura do ano que a igreja se torna pequena para tanta gente”, explica a presidente da comissão de festas.

O percurso é feito por toda a aldeia. Os andores, sob a força dos homens e mulheres da terra, carregam as imagens do SS. Salvador e das imagens da Sagrada Família. As pessoas caminham não só ao som das orações, como também da banda filarmónica que acompanha a procissão.

“Este ano contamos com a presença da Banda Filarmónica de Castro Verde. Este momento é uma das tradições que mais queremos manter vivas, porque é aquela de que todos temos memória”, explica ao i Vera Barão. Mas o foco desta procissão não é apenas as pessoas: há também espaço para os cavalos, que acompanham, ao ritmo da música, todo o percurso.

A tradição desenrola-se ao longo dos três dias, mas há um ponto importante no cartaz desta edição: é o primeiro ano em que não se realiza a garraiada, uma vez que “a adesão era cada vez menor”.

“Os três dias passam a voar” e depois da música e da religião, o convívio e o reencontro é sempre o mais importante. Por isso, as festas em Honra do SS. Salvador terminam com um jantar para todos os que queiram participar.

“O jantar é a altura em que falamos sobre o que correu bem e correu mal, é a altura em que todos elogiam e agradecem e, sobretudo, é a altura em que percebemos que o nosso esforço é importante e deve continuar, porque todos se mostram agradecidos por trazermos vida à aldeia nestes dias”, diz a responsável. “Não sei por quanto tempo vamos continuar a ser jovens, pelo menos de espírito, nem por quanto tempo continuaremos a manter viva a alegria que trazemos nestes dias, mas enquanto conseguirmos e enquanto todos os que nos apoiam continuarem, as festas permanecerão vivas”, conclui.

 

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