26/9/18
 
 
Luís Menezes Leitão 19/06/2018
Luís Menezes Leitão

opiniao@newsplex.pt

Há um ano

A 17 de Junho de 2017, o país assistiu incrédulo às notícias de um incêndio que ceifou 66 vidas. E em seguida assistiu ainda mais incrédulo ao bloqueio informativo sobre o que se tinha passado. Parecia que se estava a voltar ao tempo da ditadura

Há um ano, em 17 de Junho, o país assistiu estupefacto a um incêndio de grandes proporções que dizimou 66 vítimas em Pedrógão Grande, perante a total ineficiência da Protecção Civil – num caso, a polícia até deu indicações para as vítimas atravessarem uma estrada em chamas. Mas o que ainda mais espantou as pessoas foi, logo a seguir, ter-se assistido à inexistência absoluta de qualquer assunção de responsabilidades e até a um bloqueio informativo sobre o que se tinha passado. A lista das vítimas foi convenientemente colocada em “segredo de justiça”, impedindo o país de saber até quem tinha falecido no desastre. Um jornal chegou a fazer uma primeira página com o facto de haver mais uma vítima a que ninguém se tinha referido. E apoiantes do governo tinham inclusivamente o despudor de atacar ferozmente nos jornais aqueles que exigiram a assunção de responsabilidades, inclusivamente as próprias vítimas dos incêndios. Parecia que se estava a voltar ao tempo da ditadura, quando a censura quis esconder o que se tinha passado nas cheias de 1967. A verdade oficial é que tinha sido um acto de Deus, que tinha lançado o fogo celeste sobre o interior do país através de um downburst, e que os serviços de protecção civil nada tinham a ver com o assunto. A ministra da Administração Interna continuou, assim, em funções e o primeiro-ministro até foi de férias. Quanto às vítimas, esperava-se que fossem rapidamente esquecidas.

Tudo mudou, porém, em 15 de Outubro, com o interior do país a ser novamente assolado por um gigantesco incêndio, a atingir a Lousã e até o emblemático Pinhal de Leiria, causando mais 50 mortos. Aí já não havia downburst, segredo de justiça ou comentadores que pudessem tentar esconder a total ineficiência da actuação do governo nesta área. O Presidente da República fez um discurso a avisar que as coisas tinham de mudar e o primeiro-ministro deixou finalmente cair a sua ministra da Administração Interna, que tinha querido manter em funções até ao limite. Quanto ao governo, foi inclusivamente objecto de uma moção de censura no parlamento, mas foi salvo porque os partidos da geringonça lhe deram a mão. Quando se vê esses partidos a querem agora distanciar-se do governo a propósito de qualquer assunto menor, é preciso não esquecer que foram eles que o apoiaram quando a sua total incompetência ficou exposta desta forma.

Nestes dias, o primeiro-ministro desloca-se ao interior, assinalando a data em cerimónias oficiais, garantindo que o país está mais preparado, depois de ter obrigado os proprietários a limpar as matas, muitas vezes acima dos limites das suas possibilidades físicas e financeiras. Mas não é preciso uma cerimónia oficial para ver aquilo a que todos os dias assistem as gentes que lá vivem: uma terra queimada, ferida e que continua esquecida e em sofrimento. O país tem de olhar por estas pessoas.

 

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Escreve à terça-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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