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A tragédia de Câncio. Crónicas de uma separação (não) anunciada

A tragédia de Câncio. Crónicas de uma separação (não) anunciada

Facebook Joana Marques Alves 08/05/2018 10:41

Depois de ter apontado o dedo à justiça e à imprensa e de ter publicado um longo texto a dizer que não sabia de nada do que estava a ser investigado na Operação Marquês, a jornalista Fernanda Câncio decidiu agora virar-se contra Sócrates

“Mentiu, mentiu e tornou a mentir”. Depois de ter atacado a justiça e de ter dito publicamente que não sabia de nada, a jornalista Fernanda Câncio diz agora que José Sócrates, arguido na Operação Marquês, “enganou toda a gente”.

Férias em Veneza e Formentera, procura de casa em Lisboa e Tavira – Câncio e Sócrates faziam vida de casal. Dois jornalistas do “Correio da Manhã”, assistentes no processo, chegaram mesmo a pedir que a jornalista fosse constituída arguida, mas o Ministério Público (MP) não viu razões para isso. Enquanto tal, publicava opiniões, apontando o dedo ao MP e à imprensa, ao mesmo tempo que iam surgindo novos pormenores sobre a investigação.

Em junho de 2015, por exemplo, a jornalista dedicou um texto às falhas do sistema judicial, intitulado “Sempre Sócrates”. Nele, Câncio escreve que “se há coisa para a qual o processo Marquês tem servido é a de iluminar aspetos menos conhecidos ou mais negligenciados do nosso sistema judicial, da extensão inadmissível da prisão preventiva e dos critérios incompreensíveis da sua aplicação às condições das prisões, passando por disfunções já muito debatidas como a perversidade do segredo de justiça e a arbitrariedade e opacidade das ações de juízes e MP”. Nessa altura, já eram conhecidos muitos pormenores sobre a investigação: logo na altura em que o ex-primeiro-ministro foi detido, o “SOL” revelou que Sócrates tinha milhões escondidos na Suíça, numa conta em nome de uma pessoa da sua confiança, o seu amigo de infância Carlos Santos Silva. Para além disso, o semanário revelou na mesma altura pormenores sobre a casa em Paris onde o antigo governante vivia, sobre a vida de luxo que fazia na capital francesa, sobre a venda das casas da mãe a Santos Silva e a compra de milhares de exemplares do seu livro por parte de pessoas que lhe eram próximas, incluindo o amigo de infância. Começavam também a ser conhecidos pormenores dos primeiros interrogatórios e das escutas telefónicas – uma das pessoas escutadas foi João Perna, ex-motorista de Sócrates, que comentou com uma pessoa que lhe era próxima que “Santos Silva é o saco azul do Sócrates”. Assuntos que Câncio não abordava nas suas crónicas.

Pouco tempo depois, em setembro de 2015, a jornalista volta a falar sobre a Operação Marquês no seu espaço no “DN”, desta vez para criticar o papel da comunicação social: “a derrisão do jornalismo não começou nem acabará aqui, como a incapacidade do público para dizer chega: nunca chega, parece”, escreveu na crónica “Big Brother Sócrates”. Nessa altura, o antigo primeiro-ministro já estava em prisão domiciliária e eram conhecidos novos detalhes da investigação: a imprensa noticiou que o dinheiro de Santos Silva servia não só para pagar a vida de luxo do antigo governante – como as férias que passava com várias pessoas (incluindo Fernanda Câncio) no estrangeiro ou os estabelecimentos caros que frequentava –, mas também para pagar as despesas de pessoas próximas do ex-primeiro-ministro, como o filho de Pedro Silva Pereira, amigo e número dois de Sócrates no seu governo.

O ‘esclarecimento público’

Em 2016, o cerco começa a apertar-se e são desvendados cada vez mais detalhes do que o MP está a investigar: no início do ano, por exemplo, é revelado que Sócrates ia pagar uma nova avença para ter outro livro assinado por si, mas escrito pelo professor catedrático Domingos Farinho. Para além disso, é noticiado que a Operação Marquês cruzou-se com a investigação a Ricardo Salgado que, um ano mais tarde, viria mesmo a ser constituído arguido.

É precisamente neste ano que Câncio publica um texto na revista “Visão”, no qual se mostra “chocada” com a detenção de Sócrates e afirma não saber de qualquer esquema de circulação de dinheiro entre o ex-governante e o seu amigo de infância: “Independentemente da campanha de calúnias de que sou alvo, é natural que haja gente bem intencionada e séria que se questiona sobre como podia eu ‘não saber’ (...). Se fizesse ideia da relação pecuniária entre Carlos Santos Silva e José Sócrates teria feito perguntas por considerar a situação, no mínimo, eticamente reprovável”.

Quanto às férias com Sócrates, a jornalista explicou que nunca perguntou de onde vinha o dinheiro para as viagens: “Quando alguém próximo faz um convite para passar férias não é costume perguntar se é a pessoa que nos convida que paga ou se é a outra, como quando nos convidam para jantar ou almoçar não perguntamos de onde vem o dinheiro. Quem aufere uma avença de 25 mil euros/mês (que José Sócrates me disse receber) pode decerto pagar a meias um aluguer como o da casa em Formentera, e cujo valor eu conhecia. Não me passou pela cabeça outro raciocínio”.

“Mentiu e tornou a mentir”

Depois do texto publicado na “Visão”, pouco ou nada disse sobre a Operação Marquês. Agora, semanas depois de a CMTV ter revelado vídeos do interrogatório de que foi alvo, Câncio publicou uma crónica onde afinal já sabe aquilo que antes dizia não saber, não critica a justiça portuguesa nem os média – o alvo desta vez é José Sócrates.

“[Sócrates] Mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos. E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter (que, de resto, para ajudar a mentira a ser segura e atingir profundidade, existiram mesmo)”, escreveu a jornalista.

Câncio vai mais longe e diz que Sócrates abusou da “boa-fé” das pessoas que o rodeavam: “Ao fazê-lo, não podia ignorar que estava não só a abusar da boa-fé dessas pessoas como a expô-las ao perigo de, se um dia se descobrisse a verdade, serem consideradas suas cúmplices e alvo do odioso expectável. Não podia ignorar que o partido que liderara, os governos a que presidira, até as políticas e ideias pelas quais pugnara, seriam conspurcados, como por lama tóxica, pela desonra face a tal revelação”.

A verdade é que Câncio conhecia bem José Sócrates. Numa escuta telefónica recolhida no âmbito desta investigação, a jornalista desabafa com Inês do Rosário, mulher de Santos Silva, pouco tempo depois de o ex-primeiro-ministro ser detido, queixando-se da atitude arrogante do ex-companheiro: “Tenho momentos em que só choro. Quando as pessoas são arrogantes, acham que são todo-poderosas e que podem tudo, mas não podem...”.

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