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José António Saraiva 22/01/2018
José António Saraiva
Opinião

jose.a.saraiva@newsplex.pt

Cânticos de morte

Depois do trágico acidente aéreo que vitimou a equipa brasileira Chapecoense, um grupo de adeptos do FC Porto entoou um vergonhoso cântico, aparentemente orquestrado pelo líder da claque dos Superdragões - conhecido como “Macaco” -, onde se desejava o mesmo destino à equipa de futebol do Benfica.

O caso foi muito falado e deu inclusivamente origem a um processo judicial.

Ora, agora sucedeu quase o mesmo com a claque do Sporting, a propósito de um episódio ocorrido no estádio do Estoril. O caso é que, tendo a bancada onde estavam os adeptos portistas ameaçado ruir, os sportinguistas vieram desejar que tal tivesse acontecido (eventualmente com mortes, acrescento eu).

Estas manifestações não têm classificação possível. Estão abaixo de qualquer adjetivo. Primeiro, demonstram total insensibilidade perante as tragédias: a claque portista fez humor com as mortes dos jogadores e dirigentes da Chapecoense. Depois, demonstram ódio aos adversários, desejando-lhes o mesmo fim. Finalmente, denunciam falta de confiança nas suas próprias capacidades: quem se sente forte não quer que os adversários morram para vencer por falta de comparência.

E a juntar a estes fenómenos de selvajaria no desporto há outros, como as “caixas” sob vigilância policial onde as claques dos clubes são metidas para se dirigirem aos estádios das equipas adversárias, parecendo feras enfiadas em jaulas prontas a abocanhar quem se lhes atravesse no caminho.

Dir-se-á que tudo isto são provas de que o futebol está doente.

Eu não vou por aí: tudo isto são provas de que a sociedade está doente. Estes fenómenos doentios não nascem no futebol: nascem na sociedade e manifestam-se no futebol. O futebol é um tubo de escape para certos males sociais. É um vazadouro de emoções. E ainda bem que o futebol existe para desempenhar este papel.

Basta ir às redes sociais para perceber isso. Estão cheias de ódios, de indivíduos recalcados insultando-se gratuitamente, agredindo-se, dizendo palavrões.

Estas manifestações ainda seriam compreensíveis durante a crise, na presença da troika, quando os portugueses tinham de apertar o cinto e as perspetivas eram negras.

Mas como entender esta raiva hoje, quando as coisas melhoraram (pelo menos na aparência) e as pessoas têm mais dinheiro no bolso?

Como entender esta raiva num país como o nosso, onde é agradável viver?

Custa-me perceber. Olhando para povos que vivem com evidentes dificuldades, que lutam contra uma extrema pobreza, que estão sujeitos a ditaduras, sem liberdade nem o mínimo de condições, percebe-se que possam viver com raiva. Mas nós que tivemos a sorte de nascer na Europa, que temos a sorte de beneficiar de um clima ameno, que temos a sorte de ser banhados pelo mar, que temos uma boa comida, bons vinhos, uma assistência razoável na doença, como perceber esta raiva?


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