Viagens. O polvo laranja na Microsoft

Viagens. O polvo laranja na Microsoft


Empresa tem vindo a convidar autarcas para viajar até à sede da multinacional em Seattle, com apoio na despesas. Mauro Xavier e Pedro Duarte, quadros da Microsoft e do PSD, foram responsáveis por endereçar os convites


Não há duas sem três, mas o ditado já não chega para todos os casos. Depois das notícias vindas a público sobre viagens pagas a políticos e funcionários da administração pública por parte da Huawei, da Oracle, Galp e Olivedesportos, o i teve acesso a documentos que revelam que a Microsoft tem feito convites para viagens, com parte das despesas pagas, a autarcas de vários pontos do país.

Pelo menos desde 2011 que a empresa de tecnologia norte-americana tem vindo a convidar autarcas para visitarem a sua sede em Seattle.

Como dinamizadores destas viagens há dois quadros do PSD que desempenham atualmente altos cargos na Microsoft: Pedro Duarte, ex-secretário de Estado da Juventude e diretor de campanha de Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas presidenciais e Mauro Xavier, ex-presidente do PSD de Lisboa (até este ano) e diretor da campanha de Passos Coelho para a liderança do partido em 2010.

As viagens são realizadas de forma regular e são largas as dezenas de autarcas, tanto do PS como do PSD, que já se deslocaram aos Estados Unidos.

A estadia e as despesas com alimentação são oferecidas pela Microsoft, de acordo com autarcas ouvidos pelo i que participaram nestas viagens comprovando a documentação a que o i teve acesso. As despesas com o bilhete de avião e com os vistos ficam a cargo das autarquias, segundo as faturas enviadas ao i por algumas câmaras.

As visitas à sede da Microsoft são organizadas em específico para presidentes de câmara para que a empresa apresente o seu portefólio de serviços para “smart cities”. E, depois destas viagens, houve vários casos de autarquias que acabaram a contratar ou a revalidar os serviços da empresa.

Cidades inteligentes

Um dos exemplos, de acordo com um convite a que o i teve acesso, foi a apresentação do CityNext – uma das soluções tecnológicas da empresa.

Entre os dias 19 e 21 de janeiro de 2014, os autarcas foram convidados para ir a Redmond, perto de Seattle, para conhecer a “iniciativa global para cidades mais inteligentes, que procura aproveitar o poder das pessoas – seja como cidadãos, empresários ou governantes – para criar lugares mais saudáveis, verdes, seguros e prósperos para viver”, lê-se no convite.

No documento lê-se ainda que a visita foi “organizada especificamente para ir ao encontro das necessidades e interesses específicos da administração autárquica”.

O convite aos autarcas é assinado por Pedro Duarte, como diretor de assuntos legais e institucionais, funções que desempenha na Microsoft desde 2011, sendo que o social-democrata é também candidato à presidência da assembleia municipal do Porto nas eleições deste ano.

Mas, antes da ida de Pedro Duarte para a Microsoft, entre 2006 e 2014, era a Mauro Xavier quem cabiam as funções de responsável pelas vendas e pelo relacionamento com as autarquias. Cargo que desempenhou na Microsoft depois de ter sido convidado pela empresa norte-americana após ter feito uma apresentação do Portal Juventude na sede da tecnológica em Seattle, enquanto desempenhava funções como vice-presidente do Instituto Português de Juventude.

Com a entrada de Mauro Xavier na Microsoft, o social democrata foi crescendo dentro do partido, chegando em 2011 a presidente do PSD de Lisboa. Nesse mesmo ano Pedro Duarte entra na Microsoft.

Câmaras convidadas

Entre as várias câmaras contactadas pelo i, as autarquias de Cascais (PSD), Braga (PSD), Sousel (PSD), Torres Novas (PS) e Abrantes (PS) – cidade natal de Mauro Xavier – confirmaram ter ido às viagens que se têm realizado desde 2011. Todos os presidentes destas câmaras foram a Seattle, sendo que, no caso de Cascais, o i sabe que o convite foi endereçado ao vice-presidente da autarquia Miguel Pinto Luz – e então presidente da distrital de Lisboa do PSD e próximo de Mauro Xavier – que à última hora decidiu não ir, acabando por ser um técnico a participar na viagem a Seattle.

No caso de Torres Novas, a viagem foi realizada em 2011, tendo sido o então presidente da autarquia, António Rodrigues, a visitar a sede.

O i tem ainda a informação de que, pelo menos, outras onze câmaras – que fazem parte da comunidade intermunicipal do Médio Tejo – foram convidadas. Em 2011, Sousel fez-se representar por Armando Varela que era na altura presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo.

Além destas, várias fontes ouvidas pelo i dizem que Santarém também terá recebido o convite da empresa. Contactado pelo i, o presidente da autarquia PSD, Ricardo Gonçalves, disse “nunca ter ido a Seattle e nunca ter viajado a convite da Microsoft”. A mulher de Ricardo Gonçalves tem um alto cargo na Microsoft, não sendo esta a única relação entre a empresa e a autarquia (ver página 4).

As mesmas fontes dizem ainda que Sintra (PS) também terá recebido o convite da Microsoft. Basílio Horta garantiu ao i que não foi a Seattle.

Questionada pelo i sobre os convites e os pagamentos das viagens, a Microsoft diz que tem o “compromisso de atuar de forma ética e em conformidade com o quadro legal de cada país” e que “todas as atividades da empresa que envolvam clientes enquadram-se num contexto profissional”.

Quanto ao pedido de divulgação dos autarcas convidados, a empresa norte-americana recusou-se a divulgar essa informação dizendo apenas que “cumpre as suas obrigações relativas a confidencialidade e proteção de dados pessoais”.

Já Mauro Xavier salientou ao i que o código de conduta da empresa não permite à Microsoft o pagamento de qualquer tipo de viagens a convidados, frisando que não desempenha nenhuma função na Microsoft Portugal relacionada com autarquias.

O responsável disse ainda estranhar o contacto do i, remetendo para a Microsoft Portugal e dizendo não ter “conhecimento de qualquer viagem”. À data de algumas viagens, em 2011, Mauro Xavier era precisamente o responsável no empresa pelo relacionamento com as autarquias.

Já Pedro Duarte, quando confrontado com as datas e as informações sobre os convites e as viagens, não teceu qualquer comentário.

O lobby do PSD na Microsoft

A amizade política de Mauro Xavier e Pedro Duarte não se separa da sua relação profissional na Microsoft. Não que os dois sociais-democratas não se conhecessem antes, simplesmente não tinham a mesma proximidade.

Mauro, por exemplo, não era apoiante de Pedro nos tempos da JSD e só ganhou novo “pedigree” político quando se estabeleceu no setor privado, precisamente por via da Microsoft.

A aproximação entre ambos dá-se em 2011, quando Pedro Duarte abandona a política parlamentar, deixando de ser deputado, e o seu círculo próximo entende a necessidade de garantir-lhe maior currículo no setor privado – coisa que rareava no seu percurso profissional – sendo a solução foi, novamente, a Microsoft.

Mauro Xavier é promovido na multinacional norte-americana e Pedro Duarte assume as funções que o seu colega de partido deixa disponíveis devido a ascensão própria, sabendo que o i que outros ‘laranjinhas’ se disponibilizaram para a vaga.

O lugar, todavia, foi mesmo para Pedro Duarte. E se Duarte e Xavier já eram colegas de partido, passando a colegas de empresa, a amizade política cimentou-se. Havia um futuro no PSD para conquistar, achavam.

Há, na saga do par e além da Microsoft, personalidades no PSD que têm também em comum.

No governo de Durão Barroso, Duarte foi secretário de Estado da Juventude, tendo Feliciano Barreiras Duarte consigo na Presidência do Conselho de Ministros. Barreiras Duarte, que seria depois levado por Miguel Relvas para chefe de gabinete de Pedro Passos Coelho, é hoje um dos sociais-democratas mais próximos de Rui Rio, assim como Mauro Xavier. O ‘futuro’ do partido continua, nesse sentido, no pensamento dos envolvidos.

A amizade de Miguel Relvas a Mauro Xavier é, aliás, assumida por ambos, sendo que o seu crescendo no aparelho do PSD se encontra naturalmente associado a essa proximidade. Onde, agora, divergem é no nome que querem na direção depois de Pedro Passos Coelho.

O certo é que nem um, nem outro, nem Pedro Duarte, tencionam ser indiferentes a esse assunto.