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Eleições. Dinheiro que veio do frio para os bolsos de Marine Le Pen

Eleições. Dinheiro que veio do frio para os bolsos de Marine Le Pen

AFP Nuno Ramos De Almeida 03/05/2017 10:54

Segundo uma investigação revelada pelo site francês Mediapart, a Frente Nacional tem sido financiada por dinheiro proveniente de bancos russos. Esses empréstimos teriam sido negociados com o aval do Kremlin e a intervenção de um conselheiro do círculo próximo de Vladimir Putin, o oligarca e senador Alexandre Babakov

Foi no dia 17 de março de 2016 que se encontraram num local, com vista para o lago Léman, na Suíça, longe dos olhares do público, dois homens, um francês e um letão. Este último chama-se Vilis Dambins e o seu nome apareceu no escândalo Panama Papers. É um antigo banqueiro de perfil duvidoso. Segundo o site de informação francês Mediapart, que investigou o financiamento da extrema-direita francesa, ele é normalmente usado por um homem do Kremlin para algumas manobras financeiras mais complicadas. O conselheiro de Putin que usa os seus serviços para manobras políticas e financeiras mais discretas seria o senador Alexander Babakov, homem de confiança do presidente russo, encarregado das relações do Kremlin com partidos estrangeiros. Do outro lado da mesa neste encontro está Jean-Luc Schaffhauser, eurodeputado da Frente Nacional e presidente de uma fundação que recolheria dinheiros para apoiar o partido de extrema-direita.

O encontro entre os dois homens tem caráter de urgência devido a uma complicação não prevista: a Frente Nacional tinha tido acesso a um empréstimo de 9,4 milhões de euros em 2014. Esse dinheiro fora disponibilizado pelo First-Czech- -Russian Bank (FCRB). O partido de extrema-direita contava com um outro empréstimo dessa instituição financeira para fazer face aos gastos da campanha presidencial de Marine Le Pen em 2017. Mas houve um acontecimento que precipitou a necessidade da reunião urgente de Vilis e Schaffhauser: seis dias antes da reunião perto do Léman, o FCRB perdeu a licença para operar e foi intervencionado pelas autoridades bancárias russas, depois de ter sido descoberto um buraco de 497 milhões de euros. Era, pois, preciso encontrar outro banco que assumisse a tarefa de emprestar dinheiro à Frente Nacional.

Segundo os conselheiros de Marine Le Pen, tratava-se de uma questão meramente pragmática: os bancos franceses tinham recusado emprestar dinheiro ao partido e era preciso ir buscar os fundos necessários para a batalha eleitoral noutras paragens.

Mas ser financiado por bancos russos exigia alguns cuidados políticos. A questão de um eventual apoio de Moscovo teria de ser descartada e estava, portanto, excluída a intervenção de bancos russos de primeira grandeza. O próprio Jean-Luc Schaffhauser justificou a escolha do empresário letão ao Mediapart: “Vilis fez várias propostas de bancos de segunda linha. Isso era necessário por nós não querermos pedir um empréstimo a bancos russos de topo, porque isso seria entendido como um apoio político.” É esta a linha de argumentação do eurodeputado da FN: a campanha precisava de fundos, os bancos franceses não emprestavam, era preciso arranjar bancos estrangeiros discretos que o fizessem. Daí a necessidade de contar com um intermediário, como Vilis Dambins, que conhece bem as várias possibilidades.

Uma semana depois da primeira reunião, Vilis encontra- -se outra vez com os homens da Frente Nacional. Desta vez, segundo o site Mediapart, a reunião dá-se em Paris e acompanha o tesoureiro da Frente Nacional, Wallerand de Saint-Just, o advogado Didier Bollecker.

Três meses depois da reunião na Suíça dão-se os primeiros passos para conseguir os apoios financeiros necessários. A executiva do partido de extrema- -direita francês aprova por unanimidade o pedido de um empréstimo de 3 milhões de euros ao banco russo Strategy Bank, uma casa de reputação duvidosa, várias vezes investigada por branqueamento de capitais e lavagem de dinheiro. Mas abate-se sobre o negócio um segundo azar: o Strategy Bank perde também a sua licença de operar em 26 de julho de 2016.

Vilis reúne-se mais uma vez com os franceses em Paris, no Hotel Península, a 4 de novembro de 2016; mais uma vez é indicado um novo banco à Frente Nacional. Desta vez é o NKB Bank. Azar dos azares, ou suspeita incompetência das incompetências, esta casa financeira é também fechada pelo crime de “financiamento ao terrorismo”. No entanto, o dirigente da FN não nega ter recorrido aos préstimos e conselhos de Babakov: “Sou obrigado a trabalhar com gente que representa interesses públicos e sabia que Babakov é um patriota”, justificou ao Mediapart.

A própria Marine Le Pen já teria encontrado Alexander Babakov, reunindo-se com ele, numa viagem que foi mantida confidencial, em fevereiro de 2014, altura que foi desbloqueado o primeiro empréstimo à Frente Nacional, no valor de cerca de 9, 4 milhões de euros.

A estrutura usada para conseguir encontrar estes veículos de financiamento para a extrema--direita francesa é a Academia Europeia, dirigida por Jean-Luc Schaffhauser, que recebeu 250 mil euros duma rede de sociedades offshore ligadas a Babakov por intermediar esse trabalho. No dia 29 de junho de 2014, dois russos foram formalmente admitidos na estrutura dessa fundação dirigida pelo eurodeputado francês. Mikhail Plisyuk e Alexander Vorobyev são dois homens que pertencem ao Instituto de Integração Internacional, ligado à Organização para um Acordo de Segurança Coletiva, uma estrutura político-militar semioficial russa.

A publicação francesa, no seu trabalho de investigação, revelou que algumas posições dos eurodeputados da Frente Nacional sobre a situação na Ucrânia e a incorporação da Crimeia na Rússia foram previamente comunicadas a Moscovo. E que houve uma abundante troca de emails, nomeadamente dando a conhecer previamente as intervenções da líder do partido, Marine Le Pen.

Recentemente, a 23 de fevereiro de 2017, a um mês da primeira volta das eleições presidenciais francesas, Vladimir Putin recebeu no Kremlin a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, de quem Donald Trump disse ser a candidata mais forte em matéria de fronteiras. O mandatário russo não quis declarar publicamente a sua preferência, mas disse que Le Pen representa “um espetro político europeu que se desenvolve muito rapidamente”. Com rublos, parece.

 

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