25/7/17
 
 
Carlos Carreiras 22/02/2017
Carlos Carreiras

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As esquerdas e CGD: até as perninhas lhes tremem

O PS tem de perceber que a transparência não fragiliza, que o escrutínio não é maléfico e que a verdade sobre a gestão de um banco de todos os portugueses é um bem, não é um mal

Não quero parecer Pedro Nuno Santos a falar da reação dos credores alemães na eventualidade de, sobre a divida, os portugueses lhes dizerem na cara um valente “não pagamos!”.

Mas a realidade é que as palavras do “ministro filofax”, o homem que tem “dezenas” de reuniões por dia para coordenar (alguém pode mesmo falar de coordenação?) a solução de governo, adquiriram nova propriedade quando aplicadas aos partidos da esquerda. Ao PS, ao PCP e ao BE, até as perninhas lhes tremem no Caixagate.

A tentativa dos socialistas para proteger a todo o custo o ministro das Finanças e o primeiro-ministro, os responsáveis políticos pela gigantesca teia de mentiras e leis à medida no processo de nomeação da equipa de gestão de António Domingues, é um reflexo pavloviano. Mesmo que, pelo caminho, se atropelem as instituições e o parlamento. Curioso facto este: um governo que nasce mais da vontade do parlamento do que da vontade do voto não perde uma oportunidade de desconsiderar e degradar a Assembleia da República. Seja por obstrução às comissões parlamentares, seja nas ausências de resposta ou seja até na omissão de informação. Seja na CGD ou na concertação social, aninhado na sua maioria ficcional, o PS despreza o parlamento.

Mas o que move o PCP e o BE? E o que de tão grave estarão a encobrir para se atravessarem desta maneira por um ministro do governo PS?

Olho para os títulos da imprensa nos últimos dias e leio coisas espantosas como “PCP preocupado com o arrastar do folhetim da CGD” ou “BE desvaloriza polémica da CGD”. Desde quando é que bloquistas e comunistas desvalorizam casos que metem bancos, maroscas legislativas e dinheiros públicos?

O Portugal político de 2017 é um planeta exótico em que PCP e BE fizeram a transição de partidos de contestação para partidos da situação. É oficial: comunistas e bloquistas entraram no sistema. Ou, dito de outro modo, eles são o sistema. PCP e BE gostam do poder, alimentam-se do poder e querem manter o poder. E, como tal, defendem-no com unhas e dentes. Isso inclui fazer o trabalho sujo de guarda do governo. Vejam bem como eles mudaram: depois de terem apoiado o governo mais austeritário de sempre, até já defendem o ministro Centeno para não arreliar Bruxelas nem criar perturbações nos mercados.

Ah, que se lixem as convicções, a moral e os contribuintes, porque o que interessa é garantir a sobrevivência da solução das esquerdas.

Lá diz o povo que “quem não deve, não teme”. BE e PCP, nas suas manobras permanentes de bloqueio do trabalho parlamentar, criaram a sensação de que terão muito a temer.

Penoso para as esquerdas desde o seu início, porque evidencia a fragilidade da solução governativa e os esquemas (leia--se capacidade negocial) que a sustentam, o processo da CGD pode entrar agora numa nova fase.

Passo à frente as questões dos sms. Eles, sendo importantes, apenas confirmam o que já sabemos: Costa e Centeno precisavam que Domingues fosse a boa moeda junto de Bruxelas no processo de recapitalização da CGD; forjaram um acordo à medida das exigências do banqueiro, mudando a lei; negaram esse acordo mais vezes do que Pedro negou Cristo; e, quando a verdade veio ao de cima, esperaram que a admissão de “erros de perceção mútuos” fosse argumento suficiente para dar a discussão como encerrada.

Com uma recapitalização em curso, a questão está muito longe de estar encerrada.

O processo de recapitalização da Caixa também será feito com aquilo a que a esquerda radical chama “dinheiros públicos”. Coisa que, todos sabemos, não existe. O dinheiro público não é mais nem menos do que o somatório dos nossos impostos. Isso faz dele dinheiro meu, dinheiro do leitor e de todos os contribuintes.

Como tal, nós temos o direito de saber para onde vai o nosso dinheiro. Já sabemos que parte dele vai limpar os 3 mil milhões de euros de imparidades da CGD. Que o banco público tenha um buraco que equivale a 50% de todo o orçamento do Ministério da Educação é mau. Que os portugueses sejam chamados a pagar esse buraco é péssimo. Que não se saiba quem criou o buraco é inadmissível, injustificável e ilegítimo.

Como contribuinte, eu quero uma lista das 50, das 20 ou até das 15 maiores dívidas à CGD. Os portugueses têm o direito de saber em que período foram concedidos esses créditos ruinosos. Os portugueses, ou pelo menos o parlamento, têm o direito de saber quem foram os administradores responsáveis pela sua atribuição. Para que não se cometam os mesmos erros do passado, para que a banca não volte a ser nunca mais um sumidouro de recursos de todos, precisamos de saber quem andou prejudicar aos contribuintes.

Já que vamos ter de pagar dívidas, pelo menos que tenhamos o direito de conhecer em nome de quem, e de que projetos, elas foram criadas.

Espero que toda a esquerda parlamentar partilhe esta exigência no apuramento da verdade.

Há quem, como Carlos César, acredite que conhecer a verdade implica “matar a CGD”.

Convém lembrar ao líder parlamentar do PS que quem se especializou em matanças da banca foi um governo Sócrates ou, de forma correta, o anterior governo socialista liderado por José Sócrates que teve António Costa como número dois e do qual fizeram parte como ministros muitos dos atuais membros deste executivo – só que, agora, ainda com mais peso político. Esse governo liderado por Sócrates colonizou instituições públicas e privadas com os seus homens de mão. Gente que tinha como objetivo criar um Estado dentro do Estado, um “Socratistão” de impunidade. Mesmo que nessa altura Carlos César andasse muito mais ocupado com os seus afazeres nos Açores, as notícias abundantes dos últimos 27 meses deveriam ter sido um lembrete sobre os esqueletos que o PS tem no armário.

O PS tem de perceber que a transparência não fragiliza, que o escrutínio não é maléfico e que a verdade sobre a gestão de um banco de todos os portugueses é um bem, não é um mal.

É que sem transparência, sem pesos e contrapesos, sem verdade, a democracia é verbo-de-encher. Afinal, do que têm medo? O que querem esconder a todo o custo?

Escreve à quarta-feira, com vista para o atlântico

 

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