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António Galamba 09/06/2016
António Galamba

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Lá vamos cantando e rindo, alguns

Como é possível que dois meses após a divulgação da informação de que o GES pagava avenças a políticos e a jornalistas, ainda não seja do conhecimento público quem eram os espécimes? Será preciso instalar um relógio da vergonha com o tempo que passa sem que nada se passe?

Querem-nos fazer crer que o país está dividido entre uns “Velhos do Restelo” que sublinham a realidade e uma espécie de recriações de D.Quixote, eufóricos com as suas perceções do que julgam ver e que lutam contra moinhos mais imaginários que reais, no quadro do já famoso otimismo ligeiramente irritante. Descontada a geometria variável das narrativas, consoante se está no poder ou na oposição, a verdade é que as exportações cresceram menos, o investimento está em queda, o crescimento está a abrandar e a dívida pública continua a aumentar, o que são indicadores preocupantes para qualquer cidadão, menos para uma certa Esquerda que se habituou a achar que se podem fazer omeletes sem ovos. É certo que a confiança dos consumidores e o consumo continuam em crescendo, mas esse é um filme que já vimos e tem impactos nas importações e na balança comercial.

Neste cantando e rindo que se instalou, exultante com os resultados da governação em ataque ampliado, há realidades incompreensíveis para o comum dos mortais.

Como é possível que o governo, que diz estar numa cruzada contra a precariedade laboral, permita que o Ministério da Justiça lance um concurso para reforçar a segurança de todos os seus organismos com preço abaixo do recomendado pela Autoridade das Condições do Trabalho(ACT)? Como é possível que o Ministério confrontado com a notícia desvalorize as recomendações do ACT? É evidente o sinal negativo transmitido aos empregadores e à sociedade.

Como é possível que num quadro de necessidade de capitalização da Caixa Geral de Depósitos, mais um desequilíbrio do sistema bancário em que a fatura será paga pelos contribuintes, o governo vá eliminar o teto salarial existente, permitindo um aumento dos salários para os novos gestores pré-anunciados, que também serão mais (14-19)?

Como é possível que os esforços de governança das esquerdas se centrem quase exclusivamente em quem está no sistema, em especial quem está na Função Pública. Há mais vida para além do Estado, a precisar de intervenção, de regulação a sério e de um lançar de sementes que não se resolve apenas pela disponibilização de mais dinheiro. E por falar em dinheiro, é positivo o desbloquear dos fundos comunitários do Portugal 2020 e dos financiamentos para o empreendedorismo. Mais do que pelas proclamações, será por aí e pelo dinamismo de alguns setores, por exemplo, o turismo, que a economia pode mexer e gerar riqueza para ser distribuída, de preferência com tino e sentido de sustentabilidade.

Noutro quadro, como é possível que dois meses, após a divulgação da informação de que o GES pagava avenças a políticos e a jornalistas, ainda não seja do conhecimento público quem eram os espécimes? Será preciso instalar um relógio da vergonha com o tempo que passa sem que nada se passe? Será que é preciso lançar uma petição?

Enquanto a bola, os Santos Populares e as Festas de Verão não entretêm o Povo, os partidos entretêm-se a passar rasteiras uns aos outros em torno de uma posição do parlamento português perante a possibilidade de Bruxelas aplicar de sanções a Portugal, por défice excessivo por via de (mais uma) intervenção no sistema bancário, a do BANIF. Como se uma resolução do parlamento tivesse alguma relevância para os burocratas em Bruxelas da Europa em função do interlocutor (Juncker admitiu que a França não foi sancionada por ser a França). Nesta matéria como na notícia da existência de um “pacto de não-agressão entre PS e PCP para as eleições autárquicas, o problema é verbalizar. A realidade existe não pode é ser verbalizada.

É essa linha de indiferença perante a realidade e euforia perante o experimentalismo que esteve bem presente no Congresso Nacional do Partido Socialista. Pela primeira vez em vinte e seis anos de militância não participei num Congresso Nacional, tendo nele lugar e as quotas em dia. E no rescaldo, acho fiz bem.

É mau demais que um partido com a matriz democrática do PS transforme a diferença numa espécie de exotismo a ser mostrada ao mundo como se de animais de estimação exóticos se tratassem. Não quis participar no circo nem conferir validação democrática com a presença. O pluralismo e o respeito pela diferença não são o que se viu.

É mau demais assistir a uma espécie de transumância política centrada no que apenas interessa, manter o poder, num jogo de aparências entre o que é dito, o simbólico e a defesa de uma linha de salve-se quem puder e a realidade. Ou alguém tem dúvidas que a diferença com a Europa se situa apenas entre o ficar de joelhos do anterior governo e o ficar sentado questionando, se necessário, do atual governo. Na essência nada mudou na relação com Portugal, só a Europa é que está cada vez mais degradada.

É mau demais assistir ao espetáculo da resignação política da direção do PS no Município do Porto e nas implosões de vários projetos autárquicos em curso. Uma vez mais, não construíram, mas permitem a delapidação do património acumulado. Com otimismo ligeiramente irritante, serão mantidas em 2017 as 150 autarquias que fizeram do PS o maior partido autárquico de Portugal.

Foi bem a presença de António Guterres no Congresso Nacional, embora num afunilamento do caminho que está a trilhar como candidato a Secretário Geral das Nações Unidas.

Foi bem a eleição de António Arnault para Presidente Honorário do PS, sendo uma referência do compromisso do PS com o Serviço Nacional de Saúde, nem sempre honrada quando se está no exercício do poder, mas sempre com um sinal positivo contrário à devastação dos últimos anos dos governos PSD/CDS.

Quanto ao resto, uns continuarão cantando e rindo, outros imunes às pressões, às sugestões e às ameaças continuarão a dizer o que pensam. E os resultados, passada a espuma das narrativas, dirão o resto.

Escreve à quinta-feira


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