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Sebastião Bugalho 11/03/2016
Sebastião Bugalho

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Trump não é o fim do mundo em cuecas

Preocupa-me mais o idealismo económico de Bernie Sanders a liderar os EUA. A sua campanha não é teatro, de todo. A consequente catástrofe financeira emigraria para os mercados europeus. E nesta Europa já sabemos quem paga as catástrofes

Disse-me um apaixonado por política americana: Trump na Casa Branca seria o colapso da civilização ocidental. 

Imaginei a peruca cair no botãozinho vermelho e irmos todos pelos ares porque a laca não colou bem de manhã. 

Não vai acontecer. A “civilização ocidental” vai sendo comprada pela China e pela Arábia Saudita e gozada pelo sr. Putin; a “civilização ocidental” nasceu numa Europa hoje às avessas, numa cultura hoje no lixo do Velho Continente pelo “economicamente correto” e numa religião hoje no lixo do Velho Continente pelo “politicamente correto”. Já poucos são gregos a sério ou católicos a sério, e isso faz-nos falta. 

Donald Trump não é a causa de uma democracia em crise, é a consequência de uma democracia - e de um partido - em crise. 

As maiores ameaças aos sistemas democráticos sempre vieram de dentro dos sistemas democráticos; perguntem aos alemães de 1933. 

No entanto, é necessário esclarecer que o sr. Trump não é antidemocrático; ele é a democracia a trabalhar em todo o seu esplendor. É só uma democracia suja, rasteirinha e sobejamente popular. 

Qualquer cretino se pode apresentar à representação do povo e qualquer cretino pode convencer o povo a votar nele. Isso é a democracia e é por isso que as que funcionam melhor são as de governo mais limitado: têm a soberania num monarca ou a presidência num colégio eleitoral e têm duas câmaras que se contrabalançam e são escolhidas de forma mais maioritária que proporcional. São o Senado, o Congresso e o Supremo Tribunal de Justiça (infelizmente, sem o juiz Scalia; paz à sua alma) que defenderão as instituições seculares americanas e a sua nação de qualquer eventual devaneio de qualquer eventual presidente. O mais irónico é que este financiou dezenas de campanhas antes de se candidatar sem a ajuda de ninguém; uma linda bofetada de luva branca nos políticos “patrocinados” de Washington D.C., agora desprezados pelo eleitorado. 

O ponto é que eu não compro a lengalenga do desastre. E porquê? Em 2001, Donald Trump deu uma entrevista em que dizia não pensar candidatar-se pelo Partido Republicano. “Estão muito à direita”, explicava aquele que hoje a imprensa de referência compara a Mussolini! Por isto, é evidente que um homem do entretenimento está a fazer aquilo que sabe fazer melhor: entreter. Ted Cruz, por outro lado, parece-me genuinamente louco.

 Por cá, o prof. Rebelo de Sousa vai perdoar-me, mas a sua eleição tem semelhanças com o caso de Trump. Estrela da televisão faz campanha num estilo e, se Deus quiser, fará mandato noutro. Um fez populismo do silêncio, outro faz populismo da barulheira. Para ambos, o espetáculo tem fim agendado para o dia do solene juramento. 

Mas se logicamente não comparo o cérebro ou o pedigree político do professor ao do sr. Trump, também não me preocupo muito com este último. Ao contrário de Marcelo, não é um histórico do seu partido e não teve uma vida profissional limpinha. A Casa Branca será muito mais desconfortável para um do que o Palácio de Belém para o outro. Donald Trump sabe que terá sempre uma presidência na corda bamba. Nenhum dos establishments hesitará em unir-se contra um presidente que não se porte bem e que insultou toda a gente para chegar ao lugar. Nixon foi impeached por mentir; Trump, sendo um populista, seria naturalmente apanhado a fazer o mesmo. 

Preocupa-me mais o idealismo económico de Bernie Sanders a liderar os Estados Unidos da América. A sua campanha não é teatro, de todo. A consequente catástrofe financeira emigraria para os mercados europeus. E nesta Europa já sabemos quem paga as catástrofes. 

 

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