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Catarina Martins. “A austeridade não acabou. Não foram criadas condições para isso”

Catarina Martins. “A austeridade não acabou. Não foram criadas condições para isso”

Miguel Silva Ana Sá Lopes 02/04/2017 15:12

Quando João Teixeira Lopes, ex-deputado do Bloco de Esquerda, a convidou para ser candidata do Bloco à Assembleia da República, achou que ele “não estava muito bem”. Da cabeça, presume-se. Em 2009, a vida de Catarina Soares Martins era radicalmente diferente e estava longe de sonhar que menos de oito anos depois seria uma das líderes políticas mais influentes do país que ajudou a construir o governo em funções.

Não sentiu assim tanto o machismo existente na vida política porque vinha de um meio que diz ser muito pior: o mundo artístico. Vê-se que o empenho em manter o governo em funções é enorme: o Bloco “vai honrar os seus compromissos”, ainda que não tenha havido oportunidade de acabar com a austeridade.

O país deve preparar-se para a saída do euro, “mas não é de hoje para amanhã”. Mas se ninguém, da esquerda à direita, acha que o euro está bem, alguém que diga “o rei vai nu”. A antiga atriz ainda vai conseguindo ir ao teatro uma vez por mês. Amanhã estará no Meridional.

Hoje existem muito mais mulheres na política do que havia há 15 anos. Uma mulher na política ainda tem que levar com aquele paternalismo e os olhares condescendentes?

Não há mulher em lado nenhum que não seja confrontada com o paternalismo. Na política também.

A política é mais difícil do que outras áreas? Estou a pensar no teatro, de onde vem.

Hummm. A arte é um mundo em que tradicionalmente os homens são os criativos e as mulheres são ótimas a fazer as coisas práticas.

É um mundo machista?

O mundo artístico é. Nota-se até pela representação dos autores, é quase tudo homens em quase todas as áreas. É muito difícil ser-se mulher no mundo artístico. É um dos mais complicados.

Eu julgava que a política era um dos piores.

Não! Eu desse ponto de vista já vim com bastante experiência (risos).

Então o mundo artístico é pior para as mulheres do que o meio político?

Não sei se é pior. Mas o machismo existe e não é pouco. Agora, acho que há coisas que estão a mudar. Ainda bem que houve uma lei das quotas. E os partidos mudam se decidirem mudar. O Bloco é um partido feminista. Isto quer dizer que o Bloco é imune ao regime patriarcal? Não, não é imune, como é óbvio. Isto quer dizer que não existe nenhum machismo ou paternalismo no Bloco? Não, não é verdade, claro que existe. Combate-se. Reconhece-se o problema, fala-se sobre ele. O Bloco já tinha quotas internas antes das quotas serem lei. Mas continuamos a ter problemas em alguns sítios, do ponto de vista local. Agora, as quotas no Bloco passaram a ser 50/50 em vez de serem um terço. Temos homens e mulheres em percentagens iguais. Isso faz caminho. E há outra questão que é preciso enfrentar: as mulheres não são escolhas dos homens dos partidos. Não podem ser os homens dos partidos a dizerem ‘faltam aqui umas mulheres para completarem quotas’. No Bloco isso já não é assim. Já há mulheres em número suficiente para que as decisões sejam tomadas de forma igual entre homens e mulheres.

Portanto, é possível fazer listas sem aquele paternalismo de ‘vamos pôr aqui umas mulheres que vão tirar lugares aos homens’...

Exato. E disputar áreas políticas. Colocar a Mariana Mortágua na Comissão de Inquérito do BES também foi isso. E acho que foi das melhores coisas que nós fizemos. A Mariana estava cá há muito pouco tempo, era mulher, o mais natural era que fosse para a comissão de inquérito um dos homens que estava no grupo parlamentar. E houve uma decisão - em que fomos solidários eu, João Semedo, Pedro Filipe Soares, o resto do grupo parlamentar. A Mariana Mortágua era boa naquela área, sabia o que fazia. Sim, era muito nova e estava cá há pouco tempo. Mas se não decidimos nunca mais chegamos lá. Portanto, os partidos também tomam decisões se quiserem.

Foi assim: vamos arriscar?

Nunca se sabe como vai correr. Mas a alternativa é fazer as coisas sempre como de costume ou arriscar e as coisas serem melhores.

O Bloco tem dito que não vender é o Novo Banco é “proteger o interesse público”. Até onde pode ir para proteger o interesse público quando o governo já decidiu vender?

A nossa posição política é clara e dissemo-la ao governo. Vender o Novo Banco é um erro. Quando achamos que há um erro a ser cometido, somos coerentes e tentamos travá-lo. É certo e sabido que não existe acordo sobre o sistema financeiro nas posições conjuntas que foram assumidas entre o Bloco e o PS. O Bloco, ainda assim, nunca se pôs de lado de discutir as questões financeiras. Sabemos que a opção de assumir o controlo público e a nacionalização tem alguns custos. Não nos pusemos de lado de encontrar com o governo soluções que são necessariamente difíceis, mas porque iríamos alterar a forma como o Estado se tem relacionado com o sistema financeiro e com as exigências da Comissão Europeia a esse respeito. Mas achamos que é importante porque até agora temos perdido milhares de milhões de euros dos contribuintes em operações em que basicamente se pega em bancos privados falidos, injeta-se dinheiro público e depois entregá-los novamente a privados, perdendo até o controlo nacional sobre o sistema financeiro. É altura de mudar isso. Só se muda isso com controlo público. Faremos tudo para que seja feito o que estiver ao nosso alcance.

E o que pode estar ao vosso alcance?

 É preciso perceber se essa operação passa pelo parlamento ou não. Estamos a ponderar, estamos a discutir com o governo, desde o início dissemos ao governo as nossas preocupações... Veremos quais são as soluções que se encontram. Até estar acabado o processo não está acabado. É um processo político, seguramente que deve ser debatido. Seria um erro não o debater no parlamento até para dar força à solução que for encontrada, que é uma solução que terá sempre custos para os contribuintes. Maiores, menores, no curto prazo, no longo prazo... Não vale a pena fazermos de conta que não é uma solução com custos altos, porque é. Qualquer solução para o Novo Banco tem custos altos. Julgo que começámos esta semana de uma forma anormal. Estamos a discutir as posições políticas que de facto já são conhecidas antes do governo ter explicado ao país exatamente o que é que pretende fazer. Nós já conhecemos os números que o governo nos deu - não somos nós que os devemos divulgar, como é óbvio. Portanto, achamos que estamos no momento em que era preciso que o governo explicasse ao país o seu projeto para podermos discutir as opções concretas em cima da mesa, que custos é que tem um caminho ou outro caminho, dos vários possíveis. E não ser simplesmente uma discussão sobre posições irredutíveis.

Houve uma altura em que o governo não excluiu a nacionalização. Vários deputados do PS defendiam-na.

É mais um motivo que nos dá razão. Toda a gente reconhece que qualquer solução tem custos para os contribuintes. Foi tudo mal feito até agora! E não é possível agora fazermos milagres e fazermos desaparecer os custos depois de tudo o que aconteceu. Agora, as soluções têm custos diferentes, tanto no imediato como no futuro, e pesos diferentes na economia portuguesa, no imediato e no futuro. Continuamos a achar que a hipótese do controlo público, a da nacionalização, é aquela que tendo alguns custos no imediato tem menos custos a longo prazo e permite proteger melhor a economia portuguesa e até as próprias perdas que os contribuintes poderão ter ou não. Agora, o debate precisa que o governo mostre os seus números e o seu projeto ao país.

E acha que o governo vai fazê-lo em breve?

Espero bem que sim. Tem de o fazer.

Mas o governo está aparentemente decidido a fechar o assunto esta sexta-feira.

Nós achamos que não é bom continuar a lidar com a finança como lidámos até agora. Foram feitos muitos erros no nosso país ao longo do tempo. E a expectativa que as pessoas têm na mudança que a mudança política pode trazer exige também a coragem da alteração das decisões políticas no que diz respeito ao sistema financeiro. O debate é o mínimo.

Acha que o governo não tem tido coragem de fazer essas alterações ao sistema financeiro que a maioria política que o sustenta defende?

Em relação ao sistema financeiro a diferença não é assim tão grande que seja reconhecível para a maioria da população. Nós reconhecemos que há uma diferença, até do ponto de vista simbólico, da forma como o governo lida com as entidades reguladoras, com a Comissão Europeia, com o BCE, que não é de somenos. Uma posição subalterna de negar a discussão, de achar que há sempre caminhos inevitáveis, como se houvessem receitas técnicas certas que na verdade são opções ideológicas e não mais do que isso, era péssimo para o debate público. Reconhecemos que houve uma alteração no governo a esse respeito. Agora, nas decisões de fundo, de facto não tem existido uma alteração. E nós achamos que este era o momento ideal para uma alteração que pudesse proteger a nossa economia e o nosso sistema financeiro e o dinheiro dos contribuintes, que tem estado muito exposto.

Mas não tem muita esperança nisso pois não?

Até ao fim, estaremos a lutar para que as coisas possam acontecer da melhor maneira.

Num artigo que escreveu esta semana, a seguir à cimeira de Roma, disse que o primeiro-ministro praticava um “europeísmo passivo”. Penso que é essa a sua expressão. Esperava mais de um governo que disse que na Europa iria ser completamente diferente do anterior e iria mostrar força perante as instituições europeias?

A questão não é esperar mais ou menos.  Nós sempre soubemos que existia um alinhamento entre o Partido Socialista e a direita do ponto de vista da relação com a Europa. É um alinhamento que não acontece só em Portugal e por isso se tem falado a nível europeu da grande coligação que existe entre os socialistas europeus e o Partido Popular Europeu. O que nós consideramos é que para continuarmos o caminho para parar o empobrecimento que acordamos em conjunto é necessária alguma capacidade de alterar a relação com a Europa. Simbolicamente tem sido alterada - as reações ao que disse o presidente do Eurogrupo são um sinal claro de que o governo tem outra relação do ponto de vista simbólico. Mas achamos também que a União Europeia está a evoluir e é preciso que haja uma evolução de posições. Se continuarmos a dizer que o projeto europeu é o que nós precisamos, assim sem mais, tendo em conta que o projeto europeu tem vindo a evoluir... Não estamos no mesmo sítio. Estamos a mudar de sítio e não estamos a tomar a decisão sobre o sítio onde queremos estar. Estamos a deixar-nos ir. Achamos que esse “deixar--nos ir’ é grave tendo em conta a situação complicada que se vive hoje na União Europeia.

Ficou muito desiludida com as conclusões da Cimeira de Roma. O PS não. Mas até onde se pode ir? Até onde o Bloco consegue aguentar estar a sustentar um governo que, para o bem e para o mal, cumpre escrupulosamente todos os compromissos europeus?

Para já, é preciso não aumentar o acordo que existe. Nós temos uma posição conjunta. Não temos uma grande convergência. Nenhum dos partidos mudou de natureza de repente. Nós vivíamos numa situação de urgência e fizemos um acordo de urgência. E enquanto o que está no acordo estiver a ser cumprido, o Bloco de Esquerda não põe esse acordo em causa. Ninguém perceberia que assim fosse. O Bloco de Esquerda leva a sério os compromissos. O Bloco honra os compromissos. Estamos bastante à-vontade nesta matéria porque foi ainda durante a campanha eleitoral que pusemos em cima da mesa aquilo que estaríamos dispostos a fazer e em que condições. É isso que está a acontecer. Agora, as posições conjuntas que nós honramos não nos aliviam de dois encargos: o primeiro encargo é o de compreender que se nós queremos que a recuperação de rendimentos, o parar do empobrecimento, persista durante a legislatura toda, as opções que tomamos em cada ano - por exemplo, as opções de metas do défice - podem dar ao país mais ou menos capacidade de no ano seguinte continuar a trajetória. Nós não iludimos a responsabilidade de pensar a trajetória dos quatro anos. Achamos que devemos fazer os alertas e as propostas necessárias. Por outro lado, não olhamos para o país como uma legislatura: há um problema de longo prazo no país. Há problemas estruturais. O afunilamento a que se decidiu chamar integração europeia está a agravar-se. E o Bloco de Esquerda não vai ficar a esconder o que considera que são riscos de médio e longo prazo a bem de um acordo que tem um tempo limitado.

Estamos a falar da dívida?

A dívida portuguesa tem que ser reestruturada. Os números do défice do governo, sendo que o Bloco de Esquerda não subscreve a necessidade destas metas, achamos que o que era preciso era mais investimento para criar emprego e permitir uma política pública contra-cíclica que nos permitisse aumentar a capacidade produtiva e os rendimentos. Não chega parar o empobrecimento. Combater ativamente a crise económica é outro passo que é preciso fazer e que não está a ser feito. As pessoas percebem que é muito importante que não tenha havido mais cortes nas pensões, que se tenham recuperado salários. São medidas concretas que eram urgentes. Outra coisa é: mas não devíamos querer mais? Não devíamos estar a criar emprego de uma forma mais rápida? Isso exigia uma política contra-cíclica do ponto de vista económico que não é compatível com cortar tanto o investimento para cumprir metas de Bruxelas. Se no ano passado tivemos 2,1% de défice, quanto nos vão exigir este ano? É estreitar cada vez mais as nossas possibilidades. Nós queremos um défice baixo! Nós queremos contas públicas controladas! O problema é se controlamos o défice à conta da melhoria da economia ou do estrangulamento da economia. Por muito que as pessoas estejam a viver melhor, é preciso abordar os problemas estruturais.

Portanto, não podemos dizer que acabou a austeridade?

Não! Podemos dizer que parámos o empobrecimento do país. Aliás, o Bloco nunca disse outra coisa. Não foram criadas as condições para isso. O Bloco teve 10% dos votos. Não é governo. Usou a força que tinha para alguns princípios básicos e mesmo assim foi possível um défice muito baixo. Primeira conclusão: a direita estava absolutamente errada quando disse que era impossível repor os salários da Função Pública e não cortar nas pensões e o país não se desfazer. Para usar a expressão de Maria Luís Albuquerque, está aritmeticamente provado que a direita não tinha razão. O problema é: precisamos de mais. Para isso era preciso investimento o que quer dizer que o défice não podia ser tão baixo ou pelo menos reestruturação da dívida, para o défice baixar porque os custos da dívida baixavam e não porque o investimento baixava. Isto também nos deve fazer questionar sobre o que vai acontecer na Europa nos próximos anos. Há alguém que ache credível um projeto de uma Europa a várias velocidades com um só euro?

Acha o primeiro-ministro que a Catarina apoia.

O Bloco de Esquerda não apoia um primeiro-ministro. O Bloco de Esquerda fez um acordo político.

Na prática, apoia. Aliás, a Catarina disse isso uma vez no parlamento ao António Costa. Ele é primeiro-ministro porque o Bloco de Esquerda e o PCP quiseram.

Claro, com as forças relativas. Mas nós também sabemos que a política europeia é sufragada em Portugal por 80% da população. 80% dos deputados foram eleitos com base neste projeto de consenso europeu. Mas isso obriga-nos a passar a concordar com ele e a não alertar para os perigos? Não! Agora, a política é relação de forças. Nós disputamos uma relação de forças para mudar este estado de coisas. Achamos importante fazer esse caminho no nosso país. Agora, as políticas alteram-se de acordo com a relação de forças. É uma democracia. Ainda bem que é assim. Não era uma democracia se fosse de outra maneira. E nós temos um enorme respeito pela democracia e uma enorme vontade de disputar a relação de forças, como é óbvio. O Bloco de Esquerda não podia ser mais europeísta! Nós somos internacionalistas! Não gostamos de fronteiras, gostamos de livre circulação, somos cidadãos da Europa e do mundo.

Mas acha que a Europa no estado em que está...

A Europa no estado em que está está a matar o europeísmo. Está a matar a capacidade dos povos se organizarem uns com os outros, numa cooperação democrática capaz de crescimento  económico. As pessoas ficam muito chocadas com o que diz o Bloco de Esquerda sobre a moeda única. Temos que nos preparar para uma União Europeia que está em convulsão e na qual ninguém sabe o que vai acontecer. O otimismo de cada um sobre a União Europeia não determina que a União Europeia vá correr bem. Um país que tem que proteger o seu emprego, a sua economia, o seu Estado social, tem que pensar no que pode correr mal e nos custos disso. Mesmo quem acreditou nas instituições europeias de uma forma muito convicta há anos que percebeu que a Europa abandonou as políticas de convergência. Agora, na cimeira de Roma, o que os governos assinaram foi preto no branco aquilo de que temos vindo a acusar a União Europeia e que nos dizem que é mentira! Assinam um documento em que reconhecem que há diferentes intensidades nas economias e que vamos continuar com a mesma moeda! Isso estrangula as economias, é impossível! Podemos meter a cabeça na areia ou podemos reconhecer que já não é a opinião do Bloco sobre o rumo da Europa. Os vários governos é que escreveram preto no branco que querem uma União Europeia da divergência! E nós não tiramos conclusões políticas disto? Se fosse assim era grave.

Mas é totalmente impopular defender a saída de Portugal do euro.

O debate quando incide sobre a moeda fica mal colocado. A moeda é um instrumento de política económica, as moedas têm de servir a economia. Interessa-nos muito mais decidir qual é o projeto económico que é preciso para o país e os instrumentos políticos de que precisa do que a moeda que o país precisa. Querendo nós um projeto político que proteja a nossa economia e emprego e o Estado social, a moeda que nós temos serve ou não este propósito? Serve? Toda a gente sabe que não. Aliás, toda a gente em Portugal, da esquerda à direita, diz que o euro como está não funciona! Uns querem mudar de uma maneira, outros de outra. Mas eu ainda não vi ninguém a dizer que isto funciona! Não se pode dizer que é preciso estudar o problema do euro porque fica toda a gente muito chocada, mas não há ninguém que diga que o euro está a funcionar! É melhor dizer que o rei vai nu! Se a moeda não funcionar, temos ou não que nos preparar para uma alternativa? Que custos tem a longo prazo continuarmos a destruir capacidade produtiva do nosso país e mandar as gerações mais jovens emigrar? A nossa recuperação económica, de que o Bloco se orgulha muito em ter participado, não é suficiente para estancar a emigração. A Grécia deu-nos uma lição muito dura. E o Bloco de Esquerda aprendeu a lição grega.

Foi nessa altura que o Bloco de Esquerda mudou de opinião sobre a saída do euro?

Não foi mudar de opinião. O Bloco tinha muitas sensibilidades que discutiam estas questões. Mas, do ponto de vista da direção, a expressão “é preciso preparar o país para assumir todas as opções soberanas essenciais, incluindo a saída do euro”, surge quando se percebe que o BCE extrapolou os seus poderes de política monetária para fazer uma pressão sobre as políticas económicas que não lhe dizem respeito, para obrigar um governo legitimamente eleito a capitular. Ou seja, a democracia não funcionou. O BCE ultrapassou os poderes que tinha para negar a um povo a sua escolha. Mas nós somos uma colónia? Não estamos a defender que Portugal deve sair do euro de hoje para amanhã. O que dizemos é que devemos ser capazes de discutir o caminho económico que o país precisa e estar preparados para todas as consequências para não sermos uma colónia. Precisamos de estudar uma eventual saída do euro. É que mesmo que em Portugal estivesse tudo bem, ninguém sabe como a União Europeia vai estar daqui a um ano! Nem como o euro vai estar daqui a um ano! E o nosso país, por tabu, não estuda os problemas que podem vir a ser levantados por decisões de outros países? O Brexit é um sinal claro de que o otimismo europeu não é verdade hoje. Quando uma economia forte decidir que não quer o euro ficaremos com um problema grave. E isto é um tabu? Percebo que do ponto de vista popular este é um tema muito complicado e não se devem apressar decisões sem as debater. Mas é preciso ter a coragem de começar a levantar os temas. Não se pode fazer nada contra a vontade popular. As democracias são assim. Qualquer alteração tem que ser uma alteração popularmente legitimada. O atual parlamento não tem legitimidade para fazer nenhuma alteração de fundo, como é óbvio.

Estamos a falar do euro.

Do euro e da rejeição do Tratado Orçamental. As alterações têm que ser legitimadas popularmente, não se fazem às escondidas.

A próxima reunião do plano B, de que o Bloco faz parte realiza-se em Lisboa. O que é o plano B?

O Plano B é um fórum de debate e construção de alternativas à política do euro e à construção europeia, provavelmente o maior que existe hoje à esquerda na Europa. É importante que alternativas aos tratados e instituições da UE sejam partilhadas por forças dos vários países. O Bloco recebe a próxima cimeira do Plano B em Lisboa, precisamente na altura em que os líderes europeus estarão a comemorar os 10 anos do Tratado de Lisboa. Nesta cimeira vão juntar-se os ativistas, sindicalistas, partidos de esquerda, todos os que acreditam que um projeto social e democrático de Europa é incompatível com as promessas falhadas do Tratado de Lisboa e a austeridade permanente imposta pelas regras do euro. E esta cimeira mostra também, se preciso fosse, que a Europa é muito mais que as suas instituições e a articulação entre países e experiências diferentes não é refém da União Europeia.

A Catarina Martins não cresceu nas jotas...

O bloco nem tem jotas.

E quando entrou para o Bloco já não era muito jovem... Quando é que lhe deu o clique para se aproximar do Bloco?

Eu fui sempre próxima do Bloco. Tinha atividade política que não era partidária. Estive muito ligada a questões da precariedade, à política cultural, políticas de cidade, populações excluídas. Sempre tive intervenção política. Não era é de nenhum partido.

E quando é que decidiu ir para o BE?

O Bloco é que decidiu convidar-me.

Quem é que a convidou?

Foi o João Teixeira Lopes [ex-deputado do BE eleito pelo Porto]. O João Teixeira Lopes é o meu deputado, como eu costumo dizer (risos). Foi a primeira vez que eu elegi alguém na minha vida! Fiz-lhe a vida negra depois de ser eleito! (risos).   

Quando elegeu o João Teixeira Lopes já era do Bloco?

Não. Antes do Bloco de Esquerda existir, eu já votava nos partidos que depois deram origem ao Bloco. Sempre foi a minha área política.

A dada altura o João Teixeira Lopes diz-lhe “elegeste-me, agora vem para cá”?

Primeiro achei que o João não estava muito bem (risos). Esta não era a minha vida seguramente (risos). A ideia de ter uma atividade como a que tenho hoje era uma coisa que me era muito distante. O João já me tinha convidado para ajudar a fazer o programa à Câmara do Porto, e também me convidou para integrar as listas, embora de forma não elegível. A dada altura, ele convidou-me para integrar a lista para a Assembleia da República em 2009, dizendo-me que havia uma possibilidade de eu vir a ser eleita. Queria que eu pensasse bem nisso. Acabei por aceitar e fui eleita. E só depois é que aderi ao Bloco.

E foi num instantinho que chegou a coordenadora do Bloco em conjunto com João Semedo...

Cheguei ao Bloco numa altura complicada. Em 2009 foi muito bom, foi um grande sucesso para o Bloco mas logo a seguir foi claro que a situação política era muito complicada. O país estava numa situação complicada, era tudo muito difícil. Aterrei num momento complicado. Depois houve as eleições de 2011...

Vai para a direção do BE com João Semedo que agora é candidato ao Porto...

E é um belíssimo candidato.

Mas é público que a vossa coordenação conjunta não correu bem...

Não correu bem no sentido em que o Bloco viveu um período complicado. Quando o partido está num período complicado, quem coordena fica com o ónus. Agora, a nossa relação sempre correu muito bem. A nossa articulação sempre correu muito bem. Mas, imagine, se eu tivesse estado sozinha nessa altura teria sido uma desgraça também! Se o João tivesse estado sozinho também teria sido uma desgraça! Vamos ser claros: o Bloco esteve sob ataque, estava com grandes dificuldades... quem tinha que dar a cara estaria sempre numa situação muito complicada. Ainda depois de Francisoc Louçã deixar a coordenação, que não é uma pessoa qualquer que seja fácil substituir. Uma parte daquilo estava fadado para ser difícil.

Está contente em ver João Semedo a regressar em pleno à vida política?

Claro. Precisávamos muito disso. O João agora está ótimo, não podemos desperdiçá-lo.

É uma aposta forte do Bloco no Porto?

A candidatura seria naturalmente forte porque João Semedo é um candidato forte. Conhece muito bem a cidade, tem uma grande experiência política, tem uma visão clara do ponto de vista de um projecto para a cidade. E o Bloco hoje tem uma força no país diferente. Durante muito tempo foi fácil acantonar o Bloco no discurso de que era um partido sem proposta, só de oposição, e acho que já ninguém acredita nisso no país. Isso altera qualitativamente a forma como olhamos para as autárquicas. Mas, para além disso, no Porto, a candidatura do Bloco é a única candidatura socialista.

Porquê?

Porque o Partido Socialista decidiu apoiar uma candidatura de direita, de um independente, Rui Moreira, com o CDS. Quem tem um projeto socialista para a cidade sabe que a candidatura que existe e que ocupa esse espaço é a do Bloco de Esquerda, que está atenta e quer soluções para um Porto que tem crescido do ponto de vista económico com o turismo, mas que socialmente não se tem desenvolvido... As pessoas ficam para trás. Quem tem um projeto socialista para dar resposta a isso é o Bloco.

 O Bloco nunca foi um partido autárquico. Acha que vai reverter agora essa sina?

Acho que o Bloco vai ter o melhor resultado de sempre nas autárquicas.

Porque é que o Bloco não vai para o governo?

Um partido que tem 10% não vai para o governo, não vamos enfeitar um Conselho de Ministros! A relação de forças não permite decisões executivas mais efectivas.

Portanto, o Bloco só iria para o governo se tivesse 20 ou 25% dos votos?

Depende da relação de forças. Só está no governo quem tem força suficiente para poder ser governo.

Tem duas miúdas. Muitos políticos em Portugal costumam andar com as mulheres ou os maridos e os filhos atrás. É para os proteger da sua popularidade?

São pessoas que têm direito à sua vida. Não são adereços que eu deva exibir (risos). Eu percebo que os políticos que aparecem com a família não pensem como eu penso - e é legítimo que pensem de outra maneira. Devo dizer que há uma comunicação social em Portugal que permite que eu preserve a minha família. Eu não faço uma campanha inteira sem ver a minha família! Mas felizmente quando as minhas filhas aparecem, se eu pedir aos câmaras para não as filmarem, eles aceitam e respeitam. Eu também sou muito grata ao jornalismo que permite que a minha decisão seja respeitada.

A direcção do Bloco ocupa-lhe muito tempo. Tem conseguido ir ao teatro?

Este sábado vou. Já tenho bilhetes. De facto não consigo ir com a regularidade que ia nem pouco mais ou menos. Tenho tentado pelo menos uma vez por mês ver uma coisa que me apeteça.

O que vai ver sábado?

Vou ao Teatro Meridional, que faz 25 anos e está a repor uma série de espectáculos. Este é um espectáculo da Maria Rueff com textos de Lobo Antunes, que eu nunca vi. Os outros já tinha visto, este não. Gosto muito do Teatro Meridional. No mês passado fui ver a Rita Redshoes! Não foi teatro, foi música (risos). 

Ainda consegue ler sem ser relatórios? Consegue ler romances?

Sim, não tanto como gostaria. Mas faz parte da saúde mental.

Como é a sua vida? Levanta-se às seis da manhã?

Não, levanto-me às sete. Seis, que exagero! (risos) Levanto-me às seis quando tem de ser. Por norma levanto-me às sete.

As suas filhas vivem em Lisboa?

Sim. Eu já tinha experimentado ser mãe ao fim de semana na minha vida anterior. Uma das últimas coisas que fiz foi na Galiza e tive aquela experiência muito dolorosa de estar lá de terça a sexta e depois só vir a casa no fim-de-semana. Portanto, já tinha percebido que ser mãe ao fim de semana não funciona.

Consegue levar as miúdas à escola?

Aquela hora até ao início das aulas conseguimos estar juntas, menos quando eu vou para fora muito cedo, o que acontece volta e meia. Depois tento estar livre à hora do jantar, mesmo que a seguir tenha que trabalhar. Prefiro ter reuniões mais tarde, para poder jantar em casa. Além disso elas têm mãe e pai! Não têm só mãe! Está toda a gente presente, as coisas são divididas!

Que idade têm as suas filhas?

10 e 14

A de 14 já lhe  faz perguntas sobre política?

Fazem as duas! 

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