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Gianrico Carofiglio. Bari confidencial

Gianrico Carofiglio. Bari confidencial

12/08/2013 00:00

Na cidade italiana, o escritor imaginou o advogado Guido Guerrieri, que já passou por cinco livros e agora se estreia em Portugal. Luis de Freitas Branco entrou nos meandros da lei italiana com “As Perfeições Provisórias”, enquanto se lembrava de Sam Spade e Marlowe

Cínicos e de chapéu na cabeça, os detectives da revista "Black Mask" eram conhecidos por ser a principal arma literária contra o crime organizado dos anos 20 e 30 nos EUA. O termo "hardboiled" foi rapidamente adoptado e reciclado noutros enredos ao longo dos tempos. "As Perfeições Provisórias" é o novo livro de Gianrico Carofiglio, advogado que criou um alter ego para recuperar homens duros de roer, que também são filósofos existencialistas.

"Quando era adolescente adorava o hardboiled, agora já não leio tanto, mas fico feliz quando encontro um bom exemplar", diz-nos Carofiglio. Um dos primeiros exemplos do estilo foi Sam Spade, o herói de "O Falcão de Malta" de Dashiell Hammett, que inspirou Raymond Chandler a criar Philip Marlowe. O indestrutível Sam Spade foi a base de Carofiglio para escrever, assim como Mike Shayne, detective do cinema e livros de Brett Halliday. "Gosto de misturar coisas de forma inesperada. Neste livro podes encontrar o clássico crime, mas também grandes diálogos filosóficos", indica.

Os longos monólogos de introspecção são a marca do género, levada ao extremo pelo escritor italiano. A divagações são a porta de entrada para o protagonista de capa dura, mas também para fazer uma minuciosa descrição do sistema legal italiano. "Nunca tive a intenção de usar o meu conhecimento da lei na escrita, apenas aconteceu", revela. O escritor é advogado e teve uma longa carreira como procurador em Roma. Agora está reformado para a escrita. "Trabalhei como procurador até 2007, tenho muitas saudades do trabalho, talvez seja por isso que gosto de escrever estas histórias", confessa.

O protagonista de "As Perfeições Provisórias" é o mesmo dos quatro livros anteriores, o advogado Guido Guerrieri, que se estreia agora em tradução portuguesa. O rabugento e solitário Guerrieri já passou pelo cinema em "Il passato è una terra straniera" (2008), assim como num punhado de telefilmes. "No Verão de 2000 estava com muita pressa de fazer qualquer coisa, o prazo para ser escritor estava a acabar, e assim nasceu o Guido Guerrieri", relata. O advogado de Bari é alter ego e janela aberta para os meandros dos tribunais e os crimes não resolvidos que o escritor conhece bem.

Manuela é a sombra que atravessa todo o livro. A jovem de Bari desapareceu do mapa e os pais infelizes com o processo policial decidem contratar o advogado para investigar. A fotografia de Manuela aponta para uma beleza invulgar, acompanhada de um mistério com solução pouco inócua. "No meu tempo como procurador encontrei muitos casos assim, mas nunca decidi criar uma ligação directa com algum", diz.

Ligação directa é mesmo o que acontece com o protagonista, que deambula sozinho por Bari em busca de pistas e consolo no álcool. "A minha Bari não é real, é fruto da minha imaginação", diz, acrescentando que "Proust dizia que nunca descobres novos sítios, a descoberta está na forma como vês o mesmo sítio com olhos diferentes". Esta estratégia é a mesma que Carofiglio usa na escrita, conseguindo outra visão para percorrer uma literatura com quase um século.

LiV
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