Não é de agora que os estrangeiros mostram um grande interesse pela compra de casas em Portugal mas a verdade é que a compra tem aumentado, principalmente por parte de americanos e brasileiros. O clima, a gastronomia e a cultura são fatores óbvios e conhecidos há muitos anos, mas há outros. E o Nascer do SOL tentou perceber junto de responsáveis do setor o porquê deste aumento.
«Algumas razões que trazem os cidadãos brasileiros e norte-americanos a Portugal são comuns, como a segurança, a hospitalidade e a rica gastronomia», começa por destacar Manuel Alvarez, presidente da Remax Portugal, lembrando, no entanto, que existem outras razões «como a língua, a herança cultural/familiar, as oportunidades de trabalho, no caso dos brasileiros, ou a possibilidade do teletrabalho no outro lado do Atlântico, o passaporte português para viagens internacionais, o custo de vida relativamente acessível e o clima ameno, no caso dos norte-americanos». O responsável não tem dúvidas que, «na realidade, Portugal tem sido muito atrativo para os cidadãos de todo o mundo, não o podemos negar, mas consoante a situação financeira em que se encontram, assim se podem apontar diferentes razões».
Uma opinião que é partilhada por Ricardo Sousa, CEO da Century21 Portugal que diz que, no caso dos americanos, o interesse deve-se a vários fatores como «a estabilidade económica e política do país, a segurança, a qualidade de vida e o custo de vida competitivo em comparação com as grandes cidades dos EUA». Além disso, «Portugal continua a ser um destino atrativo para nómadas digitais, reformados e investidores que procuram um estilo de vida europeu». Ricardo Sousa diz ainda ser importante assinalar que os EUA «consolidaram a sua posição como o principal país de origem de clientes estrangeiros que compram» através da Century 21, com um crescimento superior a 110% em volume de procura, em 2024.
Mas há outros mercados que, detalha, têm «mostrado um forte dinamismo» como é o caso do Reino Unido e da Alemanha. O top-10 dos mercados internacionais inclui ainda Índia, Noruega, Lituânia, França, Holanda, Espanha e Itália, «com estes últimos a registarem também um forte crescimento na procura».
No que diz respeito ao mercado brasileiro, Ricardo Sousa defende que «existe um fluxo tradicional de procura impulsionado pela proximidade cultural e linguística, bem como pelo desejo de diversificação de património em mercados mais estáveis. A perceção de Portugal como um destino seguro, com uma comunidade brasileira já estabelecida e oportunidades de investimento atrativas, continua a ser um fator determinante para este interesse».
Ao nosso jornal, Rui Torgal, CEO da ERA_Portugal, confirma que apesar «do peso de compradores portugueses ter aumentado, existiu também um crescimento do tráfego no site da ERA por parte de estrangeiros». No caso de consumidores de origem brasileira, «contudo, a procura decresceu face a anos anteriores, mas no caso dos norte-americanos houve efetivamente uma subida». Ainda assim, ambas as nacionalidades se mantiveram no top5 das nacionalidades que mais procuram imóveis na ERA.
Rui Torgal justifica que «este crescimento deve-se, quanto a mim, ao contexto político vivido atualmente nestes dois países. No caso dos Estados Unidos, a vitória de Donald Trump nas eleições fez desde logo disparar a procura por parte de norte-americanos no nosso site». Em relação ao Brasil, «julgo que, além da conjuntura política, que estabilizou nos últimos tempos e talvez por isso tenhamos registado uma quebra no site em relação a anos anteriores, sobretudo depois do êxodo verificado no país nos tempos da anterior administração, a proximidade cultural, o clima e a segurança em Portugal são fatores também muito atrativos para os consumidores brasileiros», diz.
Situação política ajuda
Questionado sobre se a situação política nos países – como o caso da eleição de Donald Trump no caso dos Estados Unidos – são uma das causas desta tendência, Manuel Alvarez adianta que «razões políticas sempre foram motivo para a migração, em qualquer parte do mundo, inclusivamente em Portugal, pelo que naturalmente podemos supor que estarão por detrás de algumas situações quer de brasileiros, quer de norte-americanos». Ainda assim, o presidente da Remax defende que «estas migrações têm vindo a ocorrer há já vários anos, muito antes das mais recentes eleições, pelo que a situação política não é, nem tem sido a sua força-motriz. Assumir tal, seria desconsiderar os enormes e diversificados atrativos que Portugal apresenta».
Já Ricardo Sousa é da opinião que a incerteza política e social nos EUA «pode ser um fator adicional para a procura de alternativas no exterior, mas já se registava uma forte procura e interesse pelo mercado imobiliário português antes destas instabilidades». O responsável considera que «as condições de crédito atuais em Portugal são significativamente mais acessíveis do que nos EUA e noutros países e o custo de ser proprietário é muito inferior» e que estes fatores, «aliados à estabilidade económica e política, fazem com que Portugal continue a ser uma escolha privilegiada para quem procura segurança, qualidade de vida e boas oportunidades de investimento».
No caso do Brasil, «períodos de instabilidade política e económica também costumam impulsionar a procura por imóveis em Portugal, seja para residência permanente ou como uma oportunidade de negócio, mas a proximidade cultural e linguística continua a ser um dos principais motores deste interesse», diz Ricardo Sousa.
Outra opinião tem Rui Torgal ao defender que as crises políticas ajudam. «Aliás, tal como referi anteriormente, a vitória de Donald Trump nas eleições fez disparar a procura por parte de norte-americanos nas nossas plataformas», acrescentando que «do ponto de vista de investimento, o mercado imobiliário português continua a ser muito apelativo para o perfil-tipo do investidor norte-americano».
Zonas e preços
Manuel Alvarez explica ao nosso jornal que há alguns anos, «a procura foi mais focada nas áreas urbanas», mas principalmente nos últimos dois anos, «assistimos a uma maior diversificação, em que se visa áreas semiurbanas e até rurais».
No que diz respeito aos preços médios, adianta que «os valores são facilmente enviesados pois tanto temos cidadãos de ambos os países que adquirem imóveis de milhões, como muitos que preferem o arrendamento de um pequeno apartamento, depende do objetivo e da motivação».
Ainda assim, Manuel Alvarez adianta que o preço médio de venda de um imóvel (independentemente do tipo) a norte-americanos e a brasileiros em 2024 «rondou os 406 mil euros e 228 mil euros, respetivamente, mas salienta-se que os três de maior valor vendidos a estas duas nacionalidades, foram a brasileiros e todos superiores a três milhões de euros».
Por sua vez, o CEO da Century21 adianta que os investidores estrangeiros, incluindo os americanos e brasileiros, «apresentam uma procura heterogénea e pesquisam imóveis em todo o país, sem um foco exclusivo em cidades específicas, mas sim em regiões que se alinhem com o seu estilo de vida e objetivos de investimento».
Ainda assim, adianta, «as grandes áreas metropolitanas continuam a reunir as preferências, com destaque para Lisboa, Porto e Algarve». Lisboa e Cascais «são particularmente atrativas para quem procura proximidade com infraestruturas de topo, enquanto o Algarve mantém a sua posição como um destino privilegiado para reformados e investidores ligados ao turismo residencial».
Já a média de preços «varia conforme a localização e o perfil do comprador, mas os clientes internacionais tendem a procurar imóveis em segmentos de valor mais elevado, contribuindo para a valorização de algumas zonas específicas do mercado imobiliário».
Por sua vez, o CEO da ERA diz o destaque vai para Lisboa e Porto. No entanto, Braga «também tem sido um fenómeno curioso de seguir nos últimos anos», lembrando que de acordo com os Censos 2021, o concelho de Braga «foi o que mais cresceu a nível de população, com a chegada de muitos imigrantes, sobretudo brasileiros, e isto acaba por ter consequências naturais também no imobiliário».
Tendencialmente, diz o responsável, «o ticket médio nesta região era relativamente baixo e, nos últimos anos, tem crescido exatamente pela intensificação da procura». Já nas periferias de Lisboa e Porto, «o preço médio de venda também tem vindo a crescer continuamente». Mas Rui Torgal diz que é «difícil identificar um valor que estejam dispostos a pagar, porque isso varia muito consoante a zona, tipologia, ano de construção, perfil do comprador / investidor, entre outros fatores que tornam muito difícil chegar a um preço médio».
Consequências para os portugueses
O Nascer do SOL tentou ainda perceber quais são as consequências para os portugueses e se esta maior procura estrangeira não pode agravar ainda mais o problema habitacional portugués.
Manuel Alvarez é claro: «Não vemos a procura de estrangeiros como um problema, mas com um desafio ao nível da oferta e uma oportunidade ao nível da procura», acrescentando que «as dificuldades de habitação para os portugueses devem-se a um conjunto alargado de fatores, a começar pela redução drástica do número de fogos construídos». Para se ter uma ideia, acrescenta, «entre 2000 e 2009 foram construídos cerca de 840 mil fogos habitacionais, mas entre 2014-2023 foram “apenas” cerca de 136 mil». O presidente da Remax adianta que «se a esta razão, adicionarmos as demoras no licenciamento, a carga fiscal ou a própria mudança demográfica (aumento do número de famílias monoparentais, por exemplo), temos muitos mais motivos que justifiquem as dificuldades de acesso a uma habitação por parte dos cidadãos portugueses».
Já Ricardo Sousa adianta que o crescente interesse de compradores estrangeiros «em determinadas zonas pode pressionar os preços nesses mercados específicos, tornando o acesso à habitação mais desafiante para os portugueses». No entanto, «este fenómeno não é uniforme em todo o país e afeta sobretudo áreas premium das grandes cidades e destinos turísticos consolidados».
Para o responsável, é importante referir que «este fenómeno também traz benefícios económicos, como o aumento do investimento e a revitalização de algumas áreas» e que «para mitigar os impactos menos positivos, a solução passa por políticas públicas que incentivem o aumento da oferta, incluindo a reabilitação urbana e a criação de incentivos para o desenvolvimento de habitação acessível».
Ricardo Sousa diz ainda que «a atração de investimento estrangeiro deve ser equilibrada com medidas que garantam que os residentes nacionais tenham acesso a soluções habitacionais adequadas às suas necessidades e ao seu poder de compra».
Por fim, Rui Torgal reforça: «Apesar do crescimento da procura de estrangeiros, o peso dos portugueses como clientes compradores cresceu face a anos anteriores». Seja como for, «o problema que temos ao nível do acesso à habitação em Portugal começou a surgir há cerca de 20 anos e tem-se adensado substancialmente nos últimos anos», lembrando que os vários anos sem construção nova «criaram um desequilíbrio tremendo entre a oferta disponível e a procura que se tem intensificado, é certo, mas que já existia».
Por isso, «o ónus não deve ser colocado na procura de consumidores provenientes destes países, mas, sim, na falta de obra nova. É urgente construir mais e de forma mais célere para que possamos suprir as falta de casas disponíveis no mercado para cidadãos nacionais e estrangeiros».