As redes sociais constituem uma janela para o mundo e, principalmente desde o início da pandemia – com o isolamento social que lhe está associado –, tornam-se essenciais para a conexão com amigos e conhecidos. No entanto, o assédio sexual nestas plataformas tem vindo a tornar-se um fenómeno preocupante.
Num estudo levado a cabo pelo Instituto Universitário de Ciências da Saúde – CESPU, mais de metade (51,7%) dos(as) inquiridos(as) admitem já ter sido vítimas de assédio através das redes sociais.
Esta investigação teve como objetivo caracterizar as interações sociais, especificamente o assédio sexual, através das redes sociais digitais. Neste estudo foram ouvidas 543 pessoas, distribuídas pelo território nacional, com uma média de 27 anos de idade.
Apesar de não ter sido inquirida, Daniela (nome fictício), residente na região Centro, encaixa em várias características apontadas pelo perfil de vitimação traçado pelos autores do estudo, que apontam que 45,5% das vítimas foram assediadas por alguém do sexo masculino.
A jovem de 21 anos, vendedora de conteúdos eróticos online há dois, criou uma conta para esse efeito no Twitter, após ter constatado que existiam pessoas que partilhavam “muitas nudes”, isto é, fotografias sexuais.
“E percebi que ganhavam bastante dinheiro com isso”, algo decisivo para a tomada de decisão da rapariga que, à época, ainda frequentava o ensino profissional – tal como os 57% de inquiridos vítimas de assédio sexual – e precisava de rendimentos para satisfazer até as necessidades mais básicas.
“A minha família é absolutamente disfuncional e cheguei a não conseguir sequer fazer uma boa refeição. Por isso, fotografar partes do corpo não me pareceu grave, nem sequer sou pudica”, avançou, explicando que vendeu imagens através de um pseudónimo e da conta PayPal até ao dia em que um dos seus clientes, um homem por volta dos 35 anos, descobriu a sua verdadeira identidade. Tal como em 37,9% dos casos, a pessoa que assediou era desconhecida da vítima.
“Nunca pensei que ele pudesse conseguir fazer isto”, desabafou com amargura. “Talvez tenha recorrido a métodos como o da pesquisa reversa de imagens e chegado aos meus perfis das redes sociais, porque fui extremamente ingénua e achei que poderia enviar-lhe algumas fotografias em que se via, por exemplo, metade da minha cara ou um pormenor do meu quarto”, lembrou.
“Começou a contactar-me através do Facebook e do Instagram”, confessou a jovem, que integra os 94,3% de participantes que utilizam o primeiro e os 87,8% que costumam recorrer ao segundo, de acordo com o estudo.
“E se antes pedia fotografias específicas no âmbito de determinados fetiches, a partir desse momento considerou que eu tinha a obrigação de lhe oferecer esses conteúdos”, relatou. “Isto porque ele achava que estávamos num relacionamento que ele próprio tinha criado psicologicamente. Totalmente fictício”, revelou com transtorno.
“Durante cerca de quatro meses e meio recebi milhares de mensagens dele e a maioria não foi agradável. Quando entendeu que eu sou uma sex worker, e não companheira dele ou prostituta, insultou-me imenso”, contou. “Felizmente, esse pesadelo terminou, até porque mudei de número por causa dele”, acrescentou.
É de realçar que, à semelhança de Daniela, segundo as vítimas, após o assédio, optaram por bloquear a pessoa (42,5%) ou “retiram a amizade” (26%), e 33,5% afirmam que ignoraram esses contactos nas redes sociais.
As conclusões do estudo
Segundo o estudo do CESPU, 73,1% dos participantes eram solteiros, maioritariamente com o 12.o ano ou ensino superior completo. Mais de 25% dos inquiridos afirmam que têm entre 500 e 999 amigos.
Importa igualmente referir que os principais comportamentos de assédio sexual relatados foram as propostas de natureza sexual (33,3%) e contactos indesejados e persistentes (32%).
A seu lado, 38,9% consideram que foi uma experiência muito perturbadora, mas apenas 2% apresentaram queixa às autoridades e 0,6% pediram ajuda junto de uma estrutura de atendimento à vítima.